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Aniversário

UFMG celebra 99 anos e reafirma compromisso com o conhecimento, com a democracia e com o futuro

O reitor Alessandro Fernandes Moreira e a professora Ana Lúcia Gazzolla defenderam a autonomia universitária, a responsabilidade pública e o papel transformador da instituição

Por Matheus Espíndola

Com Flávio de Almeida

Em contagem regressiva para o seu primeiro centenário, a UFMG realizou na noite desta terça-feira, dia 8, uma cerimônia em comemoração aos seus 99 anos de fundação, completados no dia anterior, 7 de setembro. A data foi marcada pela conferência UFMG: uma universidade de todos os tempos, ministrada pela professora Ana Lúcia Gazzola, reitora da gestão 2002-2006, e pela abertura da exposição UFMG centenária: um século em pessoas. A cerimônia foi transmitida pelo canal da UFMG no YouTube e continua disponível.

Em seu pronunciamento, Ana Lúcia Gazzola retomou sua trajetória de mais de cinco décadas ligada à UFMG – desde que ingressou como aluna do Colégio de Aplicação – e refletiu sobre o papel das universidades públicas diante das desigualdades brasileiras e das transformações sociais e tecnológicas. Para a dirigente, a instituição deve preservar sua capacidade de formar pessoas, produzir conhecimento e intervir na sociedade sem perder de vista as demandas do futuro.

A defesa da autonomia universitária atravessou sua conferência. Ana Lúcia associou diretamente a liberdade institucional às condições necessárias para a produção científica e para o exercício do pensamento crítico. “Sempre defendemos a autonomia universitária, não por capricho ou corporativismo, mas porque o conhecimento só pode ser produzido em liberdade”, afirmou.

Ana Lúcia Gazzolla: “conhecimento só pode ser produzido em liberdade”
Foto: Raphaella Dias | UFMG

Ana Lúcia também abordou os desafios estruturais da educação brasileira, como desigualdade, exclusão, evasão e dificuldades de acesso ao ensino superior, em um cenário no qual as universidades precisam responder simultaneamente às carências históricas do país e às mudanças provocadas pelas novas tecnologias. Para ela, as demandas contemporâneas exigem que a instituição seja capaz de se transformar sem abandonar sua missão pública.

Nesse processo, propôs a professora, inovação e responsabilidade social devem caminhar juntas. Ana Lúcia defendeu uma concepção ampla de inovação, que não se restrinja às áreas tecnológicas nem à produção de produtos e processos, mas alcance práticas educacionais, sociais e institucionais. A universidade, argumentou, deve mobilizar os conhecimentos que produz para responder às necessidades da sociedade e contribuir para o desenvolvimento do país.

Pilar da democracia
Ela ressaltou ainda que autonomia, razão e responsabilidade social constituem elementos centrais da própria natureza da instituição universitária. O conhecimento produzido nas universidades públicas, segundo a professora, precisa estar disponível à sociedade de forma inclusiva e contribuir para a garantia de direitos e para o fortalecimento da vida coletiva. “A universidade é o pilar da democracia”, afirmou ela em cerimônia prestigiada pelos professores Clélio Campolina Diniz, reitor na gestão 2010-2014, Jaime Arturo Ramírez, que dirigiu a UFMG de 2014 a 2018, e Sandra Goulart Almeida, reitora nos dois últimos mandatos (2018-2022 e 2022-2026).

Público presente à cerimônia: no primeiro plano, os homenageados Paulo Hadadd, Virgílio Almeida e Jonas Bloch
Foto: Raphaella Dias | UFMG

Ao projetar o futuro, Ana Lúcia destacou que desafios como mudanças climáticas, crises sanitárias, migrações e desigualdades extrapolam fronteiras e exigem cooperação, ciência e instituições públicas fortes. “Não me cabe nenhuma dúvida de que o que façamos hoje ou o que não façamos será determinante não somente no presente, mas conformará nosso futuro como sociedade, como nação e como humanidade”, refletiu.

Ana Lúcia Gazzolla encerrou sua conferência relacionando a trajetória da Universidade aos três tempos que orientam a celebração do centenário: passado, presente e futuro. Para ela, a UFMG preserva a memória do conhecimento acumulado, intervém nas questões contemporâneas por meio da formação, da pesquisa e da extensão e trabalha permanentemente com aquilo que ainda não existe. “O tempo é nossa pátria e nossa morada. É nele que se constrói os caminhos da universidade e sua legitimação permanente”, afirmou.

Responsabilidade pública
Para o reitor Alessandro Fernandes Moreira, os 99 anos oferecem a oportunidade de olhar para o futuro sem perder de vista a história da instituição. Ele retomou princípios presentes desde a criação da então Universidade de Minas Gerais, em 1927, como o desenvolvimento do ensino, o impacto regional e o aprimoramento da cultura, para defender a permanência de sua vocação pública.

Segundo Alessandro, a UFMG não foi concebida como uma instituição voltada para si mesma, mas como uma universidade capaz de produzir efeitos para além de seus muros e participar do desenvolvimento social e cultural de seu tempo. “Desde sua origem, assumiu a responsabilidade pública”, pontuou.

Alessandro Moreira: universidade tem responsabilidade sobre o mundo
Foto: Raphaella Dias | UFMG

O reitor relacionou essa responsabilidade à capacidade de a Universidade acolher diferentes pessoas, conhecimentos e perspectivas. Em sua avaliação, reconhecer desigualdades e enfrentar obstáculos ao acesso e à permanência são componentes da atuação de uma instituição pública comprometida com a sociedade. O cuidado, nesse sentido, ultrapassa a dimensão do acolhimento e envolve posicionamento e ação diante dos problemas contemporâneos.

“Cuidar é assumir que o conhecimento tem consequências e que a universidade tem responsabilidade sobre o mundo”, afirmou Alessandro. Para ele, colocar ciência e cultura a serviço da vida coletiva implica reconhecer demandas sociais e transformá-las em questões de pesquisa, formação, extensão e políticas institucionais.

A autonomia universitária foi apresentada pelo reitor como condição necessária para o cumprimento dessa responsabilidade. Alessandro Moreira ressaltou que ela garante liberdade para pensar, pesquisar, ensinar e agir sem subordinar o conhecimento às conveniências do poder. “Autonomia não é privilégio, é condição para liberdade”, reforçou.

O reitor também vinculou a inovação à capacidade de oferecer novas respostas a questões da sociedade. Em sua concepção, inovar não significa apenas desenvolver tecnologias, mas também criar práticas sociais, institucionais, culturais e educacionais capazes de enfrentar desigualdades, ampliar direitos e produzir novas possibilidades de vida coletiva.

Alessandro Moreira associou a defesa do conhecimento à preservação da democracia diante do negacionismo, da desinformação e das tentativas de substituir evidências por crenças e interesses. Para o reitor, liberdade de pensamento, autonomia institucional, direito ao conhecimento e diversidade de perspectivas precisam ser continuamente reafirmados. “Defender esses valores é defender um projeto democrático de nação”, sustentou.

Alessandro afirmou que o patrimônio acumulado pela UFMG deve servir de base para as escolhas que definirão os próximos anos da instituição. “Aos 99 anos, a UFMG se afirma, se reafirma, acolhendo o passado como legado, o presente como desafio e o futuro como responsabilidade”, declarou.

A celebração marcou ainda a abertura da mostra UFMG Centenária: um século em pessoas, que reúne trajetórias de 100 personagens históricos. Entre os homenageados estão nomes como Juscelino Kubitschek, Dilma Rousseff e a escritora Alaíde Lisboa, que contribuíram para a construção da Universidade.

A iniciativa integra as ações preparatórias para o centenário da instituição. A exposição destaca a atuação de estudantes, professores e pesquisadores que passaram pela Universidade ao longo de quase um século de história em Belo Horizonte.

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Virgílio Almeida: representar a UFMG
Foto: Raphaella Dias | UFMG

Um século em pessoas
Depois da cerimônia, o público participou da abertura oficial da exposição UFMG centenária: um século em pessoas, montada no saguão do prédio da Reitoria. Com curadoria de Carlos Magno Mendonça, Dawisson Belém Lopes e Flávio de Almeida e projeto expográfico de Fabrício Fernandino, a mostra apresenta 100 trajetórias que dão rosto à história da Universidade.

Com os 100 nomes, a exposição complementa e dá sequência à mostra inaugurada em 2025, intitulada UFMG centenária: memoráveis. Em sua versão definitiva, ela reúne imagens de personalidades como a escritora Alaíde Lisboa, que foi professora da antiga Faculdade de Filosofia e vice-diretora da Faculdade de Educação da UFMG, Mietta Santiago, sufragista que cursou Direito na UFMG e questionou judicialmente, em 1928, a proibição do voto feminino, tornando-se eleitora e candidata a deputada federal, e o ex-prefeito de Belo Horizonte Célio de Castro, graduado e ex-professor da Faculdade de Medicina.

Homenageados, representantes e familiares visitaram a exposição, como o professor Virgílio Almeida, do Departamento de Ciência da Computação (DCC). Ele se disse orgulhoso e agradecido. “Sei que muitos outros nomes mereciam estar nesta exposição. Espero representar a UFMG da melhor forma possível”, disse Virgílio, que foi secretário de Política de Informática do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação no período de 2011 a 2015.

Jonas Bloch diante do banner com a foto de seu personagem na novela ‘Novo Mundo’: ‘a universidade não sai da gente’
Foto: Raphaella Dias | UFMG
Paulo Haddad: UFMG foi berço de importantes projetos para o país
Foto: Flávio de Almeida | UFMG

Outro homenageado, o ator e diretor Jonas Bloch – que está em turnê em Minas Gerais com os espetáculos Brasília: sinfonia da alvorada, poema sinfônico de Tom Jobim e Vinícius de Moraes composto em homenagem à capital federal, e Delírio, monólogo inspirado na obra de Manoel de Barros – aproveitou a ocasião para acompanhar a cerimônia e conhecer a exposição. Ele revelou que a lembrança da Universidade sempre esteve presente em sua carreira. “Em cada trabalho que faço, eu me recordo de professores como Álvaro Apocalypse [também homenageado na exposição], que foram tão importantes na minha formação. A gente não sai da universidade; ela continua dentro da gente”, disse o ator, graduado na Escola de Belas Artes (EBA) e com passagem pelo Teatro Universitário.

O ex-ministro da Fazenda e do Planejamento, Paulo Haddad, vinculado à Faculdade de Ciências Econômicas (Face), destacou que vários projetos de desenvolvimento da ciência e do país nasceram na UFMG por meio do esforço intelectual de professores, servidores, reitores e gestores. “Hoje, eu me sinto definitivamente incorporado a esta instituição”, disse Haddad, que é professor emérito da Universidade e um fundadores do Cedeplar, importante centro formulador de políticas de desenvolvimento.

Categoria: Institucional

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