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Opinião

A faixa que ecoa um velho problema

Docente do ICEx reflete sobre o fenômeno da reprovação e indica caminhos para enfrentá-lo

Por Luiz Claudio de Almeida Barbosa | professor do Departamento de Química do ICEx

Em letras vermelhas garrafais, lê-se a seguinte mensagem em uma faixa estendida em área externa do prédio do ICEX: "Pelo fim das reprovações em massa"
“A faixa continuava ali, silenciosa, estendida no centro do edifício, como se interpelasse todos os que entravam ou saíam”
Foto: Luiz Claudio de Almeida Barbosa | UFMG

O semestre letivo finalmente começou depois de uma longa pausa, período em que estudantes e professores puderam descansar e se preparar para o reinício das atividades acadêmicas. Embora eu tenha passado essas semanas bastante ocupado com leituras e com o preparo de uma nova disciplina, confesso que já estava ansioso por ver a vida retornar ao campus. Já na primeira semana de aulas, o ambiente universitário rapidamente recuperou seu estado quase mágico. Jovens voltaram a ocupar todos os espaços: corredores, jardins, cantinas. Muitos deles eram calouros, ainda encantados com o fato de terem ingressado em uma das melhores universidades do país. Embora o trote tenha há muito deixado de ser prática dominante, ainda era possível ver alguns estudantes com os corpos pintados caminhando de um lado para outro, em meio à animação típica dos primeiros dias de aula.

Foi nesse clima que entrei no prédio do ICEx para ministrar minha primeira aula do ano. Logo na entrada, porém, algo chamou minha atenção. Estendida sobre a passagem principal havia uma enorme faixa. Em letras garrafais, pintadas em vermelho vivo, lia-se PELO FIM DAS REPROVAÇÕES EM MASSA. Li a frase rapidamente e continuei caminhando em direção à sala de aula, onde me aguardava uma turma de calouros. A aula transcorreu normalmente, como tantas outras que já havia ministrado ao longo da vida. Ainda assim, enquanto falava aos estudantes sobre os primeiros conceitos da disciplina, a imagem daquela faixa insistia em retornar à minha memória.

Ao terminar a aula e deixar o prédio algum tempo depois, voltei a passar pelo mesmo local. A faixa continuava ali, silenciosa, estendida no centro do edifício, como se interpelasse todos os que entravam ou saíam. Quem teria colocado aquela faixa ali? Teria sido o centro acadêmico, em defesa das centenas de estudantes que, semestre após semestre, acabam reprovados em disciplinas de matemática, física ou química? Teria sido iniciativa de algum coletivo estudantil? Ou, quem sabe, de algum professor inconformado com um problema que atravessa décadas? Certamente é possível imaginar muitas motivações para aquele gesto. Mas o fato é que aquela frase não me parecia apenas um protesto circunstancial. Parecia tocar em uma questão antiga da vida universitária.

Desde os meus tempos de calouro, ainda na década de 1970, disciplinas básicas como cálculo, física, química e biologia já apresentavam índices elevados de reprovação. Na época, eu era estudante da Universidade Federal de Viçosa (UFV), instituição na qual mais tarde também viria a lecionar por quase 30 anos. Ao longo desse período, pude observar que o fenômeno não era exclusivo daquela universidade. Situação semelhante ocorria – e ainda ocorre – em praticamente todas as instituições de ensino superior que conheço. Ao recordar esses anos todos, percebo que a faixa que encontrei naquela manhã talvez não estivesse referindo-se apenas a um problema recente ou localizado. De certa forma, ela parecia ecoar uma inquietação que acompanha a universidade brasileira há muitas décadas.

Ao longo desse tempo, muitas teses e estudos foram realizados na tentativa de compreender por que disciplinas fundamentais para a formação científica acabam reprovando tantos estudantes. Não pretendo entrar aqui em uma discussão acadêmica sobre o tema. Limito-me a compartilhar minha visão pessoal, construída não a partir de estatísticas ou modelos teóricos, mas de uma vida de quase cinco décadas vividas praticamente de forma integral dentro da universidade brasileira, somadas à experiência que tive em instituições estrangeiras.

A avaliação mal elaborada [pelo professor], eu diria, é frequentemente o verdadeiro calcanhar de Aquiles desse processo.

A reprovação é, em grande medida, resultado do processo de interação que ocorre entre dois agentes centrais: professor e aluno. O professor exerce um papel fundamental no processo de ensino-aprendizagem. Cabe a ele orientar e guiar o estudante, apresentar o conteúdo de forma sistemática e organizada, indicar a bibliografia pertinente, propor atividades que favoreçam a compreensão dos conceitos e conduzir as aulas com clareza e dinamismo, procurando empregar metodologias pedagógicas que facilitem o processo de aprendizagem e que levem em consideração os diferentes estilos cognitivos presentes em uma sala de aula.

Um aspecto particularmente sensível nesse processo – e que se relaciona diretamente com os índices de reprovação – é a forma como as avaliações são elaboradas. Uma prova mal construída pode levar um estudante ao fracasso mesmo quando ele possui domínio razoável da matéria. Ao longo de mais de quatro décadas de ensino tive contato com professores que elaboravam questões confusas, mal formuladas e sem lógica interna, reflexo muitas vezes de sua própria confusão conceitual. Não raramente eram incapazes de resolver ou interpretar com clareza as próprias questões que propunham aos alunos. Imagine-se, então, a situação do estudante. A avaliação mal elaborada, eu diria, é frequentemente o verdadeiro calcanhar de Aquiles desse processo.

O essencial é reconhecer que, em uma sala com 30 ou 50 estudantes, a diversidade de modos de aprender é inevitável, e a adoção rígida de um único método de ensino tende a produzir inevitáveis desencontros entre quem ensina e quem aprende.

Existem, naturalmente, diversas correntes pedagógicas que podem orientar o trabalho docente. Pessoalmente, tenho grande simpatia pelas ideias do professor norte-americano Richard Felder, engenheiro químico amplamente reconhecido por suas contribuições ao ensino de engenharia, e da professora Rebecca Brent, especialista em educação. Após décadas de experiência no ensino superior, Felder e Brent observaram que os estudantes diferem significativamente nas formas como percebem, processam e organizam o conhecimento. Alguns aprendem melhor participando ativamente de discussões ou resolvendo problemas em grupo, os chamados aprendizes ativos; outros preferem refletir individualmente antes de se engajar em qualquer atividade, caracterizando-se como aprendizes reflexivos. Alguns avançam passo a passo, seguindo uma sequência lógica e progressiva, enquanto outros precisam inicialmente compreender o panorama do assunto para então assimilar seus detalhes. Segundo esses autores, quando o ensino se apoia excessivamente em apenas um desses modos – muitas vezes refletindo o próprio estilo cognitivo do professor – parte dos estudantes acaba tendo sua aprendizagem prejudicada, não por falta de capacidade, mas por um descompasso entre a forma de ensinar e a forma de aprender. Por essa razão, recomendam que o professor diversifique suas estratégias pedagógicas, alternando momentos de exposição, reflexão individual, discussão em grupo, exemplos visuais e aplicações práticas, de modo a oferecer oportunidades de aprendizagem que alcancem diferentes perfis de estudantes.

Considero que essa abordagem pode contribuir significativamente para reduzir os índices de reprovação – e mais importante ainda – para ampliar a qualidade da aprendizagem. Evidentemente, existem outras perspectivas pedagógicas igualmente respeitáveis, e cabe a cada professor escolher aquela com a qual melhor se identifica. O essencial é reconhecer que, em uma sala com 30 ou 50 estudantes, a diversidade de modos de aprender é inevitável, e a adoção rígida de um único método de ensino tende a produzir inevitáveis desencontros entre quem ensina e quem aprende.

Para além dos aspectos pedagógicos propriamente ditos, é importante lembrar que lidamos com pessoas reais, seres humanos, e não apenas com números de matrícula em um diário de classe. Quando o professor passa a enxergar seus estudantes apenas como registros burocráticos e executa sua tarefa de maneira mecânica, ano após ano, sem perceber a dimensão humana e muitas vezes emocional que atravessa a vida universitária, o desfecho desse processo torna-se previsível. Não defendo, evidentemente, que o professor assuma o papel de assistente social ou de psicólogo. Defendo apenas que haja humanidade no exercício da docência, que se acolham os estudantes em seus momentos de dificuldade e que se procure agir com bom senso e flexibilidade diante de situações reais que fazem parte da vida de qualquer pessoa. Muitas vezes, um pouco de compreensão e diálogo são suficientes para que um estudante supere obstáculos momentâneos e consiga retomar o caminho da aprendizagem.

Mas seria um equívoco atribuir ao professor toda a responsabilidade por esse processo. A aprendizagem não é algo que possa ser simplesmente transferido de uma mente para outra; ela depende, em última instância, do esforço individual do estudante. O aluno precisa, antes de tudo, estar convencido da escolha que fez. Não são poucos os casos de estudantes que fracassam simplesmente porque descobriram, tarde demais, que o curso escolhido não corresponde às suas verdadeiras aptidões ou interesses. Em muitos desses casos, a reprovação não decorre de falta de inteligência, mas de uma profunda falta de sintonia entre o talento do estudante e a área de conhecimento à qual ele se propôs dedicar alguns anos de sua vida.

É verdade que muitos alunos, ao serem reprovados, tendem inicialmente a responsabilizar o professor. Antes disso, porém, talvez seja útil que façam um exercício sincero de autocrítica, procurando identificar quais fatores, de fato, contribuíram para aquele resultado.

Mesmo quando a escolha do curso é acertada, outros fatores podem comprometer o desempenho acadêmico. A ausência de uma base sólida de formação anterior, a falta de um método de estudo bem estruturado ou a tendência, cada vez mais comum, de assumir um número excessivo de disciplinas e atividades podem levar o estudante a uma sobrecarga difícil de administrar. Ainda como aluno de licenciatura aprendi algo que nunca mais esqueci: a importância de ter um primeiro contato com a matéria antes mesmo da aula. Quando o estudante chega à sala já tendo visto, ainda que superficialmente, os conceitos que serão apresentados, a aula deixa de ser um momento de simples descoberta e passa a ser um espaço de esclarecimento e aprofundamento. Da mesma forma, estudar apenas alguns dias antes de uma prova dificilmente produz bons resultados. Assim como nenhum atleta olímpico se prepara apenas no mês que antecede a competição, o estudante precisa cultivar um ritmo contínuo de estudo para que o conhecimento se consolide de maneira duradoura.

É verdade que muitos alunos, ao serem reprovados, tendem inicialmente a responsabilizar o professor. Antes disso, porém, talvez seja útil que façam um exercício sincero de autocrítica, procurando identificar quais fatores, de fato, contribuíram para aquele resultado. Por outro lado, também é justo reconhecer que o estudante que cumpriu seriamente o seu papel e ainda assim foi prejudicado por falhas evidentes no processo de ensino ou de avaliação tem razões legítimas para se indignar. Talvez, nesse caso, pudesse ser ele próprio o autor daquela faixa que encontrei na entrada do prédio.

Em última análise, portanto, a aprendizagem não é responsabilidade exclusiva do professor, assim como a reprovação tampouco pode ser atribuída apenas ao estudante. O processo educativo nasce do encontro entre duas vontades: a de ensinar e a de aprender. Quando essas duas forças se encontram em harmonia – mediadas por seriedade intelectual, respeito mútuo e genuíno compromisso com o conhecimento – a universidade realiza plenamente a sua vocação. Nesse cenário, a aprovação deixa de ser um objetivo em si mesma e passa a ser apenas uma consequência natural de algo muito mais importante: o aprendizado verdadeiro.

Talvez aquela faixa pudesse ter sido colocada por um estudante inconformado com uma reprovação que lhe pareceu injusta. Talvez tenha sido obra de um professor inquieto diante de um problema que atravessa gerações. Pouco importa quem a tenha colocado. O que realmente importa é que ela nos recorda que a universidade só cumpre plenamente sua missão quando professores e estudantes reconhecem que a aprendizagem é uma construção compartilhada – um trabalho paciente, exigente e, ao mesmo tempo, profundamente humano.

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