Voltar para o Início Ir para o rodapé
Obituário

Morre o professor aposentado Valdir de Castro, do Departamento de Comunicação da Fafich

Ele foi o primeiro docente titular da história do departamento, que ajudou a estruturar e no qual atuou por quase três décadas

Por Ewerton Martins Ribeiro

Valdir de Castro Oliveira, professor aposentado da Fafich, com microfone na mão, sobre um palco
Valdir de Castro Oliveira teve atuação de destaque no meio acadêmico e na comunidade de Brumadinho
Foto: Câmara Municipal de Brumadinho | Redes Sociais

Morreu no último domingo, 4 de janeiro, Valdir de Castro Oliveira, professor aposentado do Departamento de Comunicação Social da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich). Valdir foi o primeiro professor titular da história do Departamento, que ajudou a estruturar. Seu velório ocorreu nesta segunda-feira, 5, na Câmara Municipal de Brumadinho; o sepultamento se deu em seguida, no cemitério de Conceição de Itaguá, distrito em que nasceu. O professor tinha uma doença renal, que combatia há vários anos por meio de diálises. Morreu de complicações decorrentes da doença, mas seguiu intelectualmente ativo até o fim.

Valdir ingressou na UFMG em 1979 como professor auxiliar. Em 1984, tornou-se assistente e quatro anos depois, adjunto. Em 1992, alcançou o posto de professor titular, abrindo caminhos. Em 2007, aposentou-se da Universidade, e, desde então. colaborou em diferentes instituições – em particular, na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), onde atuou a partir de 2009. Na instituição, foi professor e pesquisador do Programa de Pós-graduação em Informação e Comunicação em Saúde (PPGICS) do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (ICICT).

Em sua época de UFMG, Valdir editou e apresentou, de 2002 a 2006, o programa Mídia em pauta, produzido semanalmente junto a alunos do Curso de Comunicação Social da Universidade, com coprodução da TV UFMG. No programa, com duração de meia hora, especialistas, jornalistas e professores comentavam e analisavam – sempre ancorados por um estudante-apresentador – temas da atualidade relacionados à atuação dos meios de comunicação.

Mais tarde, de 2005 a 2011, Valdir trabalhou como editor na Associação de Defesa do Meio Ambiente e Desenvolvimento do Vale do Paraopeba (Asmap), que tem sede em Brumadinho, em uma de suas tantas frentes dedicadas à região em que nasceu. De sua trajetória profissional, merece registro ainda a atuação que teve na PUC Minas e na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) mais no início de sua carreira, na virada dos anos 1970 e 1980.

Lembrança de colegas, parceiros e alunos
Para a jornalista Valéria Said, Valdir foi um homem de “múltipla generosidade”, sempre interessado em acompanhar e incentivar a trajetória acadêmica de estudantes e parceiros, noção que é reiterada por diferentes pessoas com as quais o professor conviveu. Nas lembranças de Valéria, que se aproximou dele em 2008, no âmbito do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJPMG), Valdir era “sempre acolhedor, alegre, disposto a colaborar com debates afins à nossa categoria, no âmbito acadêmico”.

“Valdir foi meu professor no Programa de Pós-graduação em Comunicação Social (PPGCOM) da UFMG há 23 anos”, lembrou também Sônia Caldas Pessoa, hoje professora do Departamento de Comunicação Social da Universidade. “Ele me deu a primeira chance de conhecer a pós-graduação em comunicação da UFMG em 2002, quando solicitei matrícula em uma disciplina isolada, porque gostaria de tentar o mestrado. Naquele ano, ele me acolheu na disciplina como uma colega”, ela lembra. “Em seguida, participou da minha banca de mestrado – de lá para cá, ele passou a me acompanhar, mantendo contato pelas redes sociais. Tenho muito gratidão pela relação iniciada ali.”

De então em diante, relembra Sônia, ela passou a manter contato com o professor – e ele sempre a incentivando na carreira. “Valdir demonstrava muito orgulho pelo trabalho que realizamos mais tarde no Departamento de Comunicação Social, com a criação do Laboratório de Experimentações Sonoras e da Web Rádio Terceiro Andar da Fafich. Certa vez, ele me disse ter sido um sonho realizar algo assim, já que era um apaixonado por rádio. Nas suas aulas, transitava com gentileza e cuidado por temáticas sensíveis de mobilização social, saúde e vulnerabilidades. Sua generosidade e apoio vão nos fazer falta, mas sua memória será preservada.”

“Valdir sempre teve uma atuação muito grande em sua comunidade, em Brumadinho. Ele foi um intelectual interessado em estudar suas origens: uma pessoa do interior, que guardou suas raízes, e que esteve sempre voltado para trabalhar com as comunidades em defesa dos direitos humanos e sociais”, conta Ivone de Lourdes Oliveira, professora do Departamento de Comunicação Social da PUC Minas. A professora era comadre de Valdir, tendo batizado sua filha. “Valdir entrou para a universidade para produzir conhecimento a partir da sua história de vivência com a terra e com a comunidade. É uma pessoa que deixou um legado muito grande”, diz a professora.

Vários outros amigos e ex-alunos prestaram homenagens públicas ao professor no início desta semana. Soraya Fideles, jornalista do Centro de Comunicação (Cedecom) da UFMG que foi orientada por Valdir no mestrado, lembrou do professor por “sua orientação marcada pelo afeto, pelo rigor científico com sensibilidade ética e humildade”. Já Mirian Chrystus, professora aposentada da UFMG, colega de Valdir no Departamento de Comunicação Social por quase três décadas, lembrou dele como uma “pessoa extremamente gentil”, representante de toda uma geração.

“Valdir de Castro Oliveira foi um grande professor, cidadão de primeiríssima linha. Um homem bom, generoso, honesto, sincero, que carregava arraigada no peito a alma do povo”, registrou Paulo Roberto Saturnino Figueiredo, ex-diretor e professor aposentado da Fafich.

Livro 'Réquiem para o Inhotim' (All Print, 2010)
Livro ‘Réquiem para o Inhotim’, de Valdir de Castro Oliveira
Imagem: Reprodução de capa

Cidadão ilustre de Brumadinho
Nascido em 1947 em Conceição de Itaguá, distrito de Brumadinho, Valdir de Castro Oliveira foi uma referência intelectual para a cidade e sua região. Lá, ao longo de toda a vida, colaborou com diversos jornais locais, muitas vezes voluntariamente. “A cidade perde não apenas um jornalista e historiador, mas um homem íntegro, de pensamento crítico, cultura vasta e amor incondicional por sua terra natal”, anotou o jornal Circuito Notícias, em editorial. Valdir atuou no periódico de Brumadinho como colunista e analista político, contribuindo para sua consolidação editorial, como fez com vários outros.

“Valdir foi um intelectual de destaque, reconhecido por sua inteligência diferenciada, sólida formação acadêmica e, acima de tudo, pela simplicidade, humildade e generosidade com que tratava a todos. Sempre atencioso, era conselheiro, amigo leal e uma pessoa permanentemente disposta a colaborar com causas coletivas, especialmente aquelas ligadas à preservação da memória, da história e da política de Brumadinho”, registra o periódico. Essa atuação ficou eternizada nos livros que o jornalista publicou.

Capa do livro 'Notícias e narrativas a contrapelo sobre um lugar e um não-lugar: Inhotim: 1856-2013', de Valdir de Castro Oliveira
Livro ‘Notícias e narrativas a contrapelo sobre um lugar e um não-lugar’, de Valdir de Castro
Imagem: Reprodução de capa

Retratos da ‘Macondo da vida real’
Em 2010, Valdir publicou Réquiem para o Inhotim (All Print, 2010), livro que narra poeticamente “a história, a saga e o desvanecimento” da comunidade rural homônima. Como se sabe, em 2006, foi erguido em sua região o museu Inhotim, hoje um dos maiores espaços culturais do mundo. Como consequência, a comunidade que vivia na região – cerca de 300 pessoas, segundo o autor, numa ocupação que foi de meados do século 19 à entrada do século 21 – se espraiou.

“A história deixa o vencido esquecido nos escombros, é sempre contada pelo vencedor”, lembrou o autor em uma entrevista. “Infelizmente para o museu e felizmente para a comunidade, ela me tinha como jornalista e militante”, afirmou na ocasião. “As pessoas vinham me procurar, porque achavam que eu, como jornalista, aguentaria transpor em palavras aquela memória coletiva. Fui transformando em poesias e publicando nos jornais. Isso fez com que crescesse em mim um conhecimento muito grande sobre a história e o sentimento da comunidade.”

Em Cem anos de solidão, Gabriel García Márquez cria a cidade ficcional de Macondo, que em dado momento é acometida por um vendaval que varre a cidade do mapa. Reunidas no livro, as poesias de Valdir imaginam a comunidade de Inhotim como uma espécie de Macondo da vida real – cidade que teve o advento do museu de arte contemporânea como o vendaval causador de seu fim. Uma das críticas feitas no livro é ao modo como o museu não buscou preservar a memória coletiva do local em que se instalou, senão apenas pela manutenção de um nome.

Capa do livro 'Cuidados paliativos: comunicação e histórias de vida', de Valdir de Castro Oliveira e Juliana Felipelli Bernardes
‘Cuidados paliativos: comunicação e histórias de vida’, último livro de Valdir de Castro Oliveira
Imagem: Reprodução de capa

Mais tarde, Valdir de Castro Oliveira lançou os livros Mídias Locais: História de Desenvolvimento de Brumadinho (1910-2013) (2022, Prefeitura de Brumadinho) e Notícias e narrativas a contrapelo sobre um lugar e um não lugar: Inhotim: 1856-2013 (Dialética, 2022), obras que repassam o mesmo tema do fim da comunidade local, mas agora sob perspectiva mais ensaística. Os livros têm como objeto e ponto de partida para a reflexão os jornais que reportaram a emergência do museu e o fim da comunidade.

A escritora e editora Leida Reis, da Literíssima Editora, também fez um obituário nas redes sociais, no qual conta que Valdir chegou a tirar do prelo o livro inédito Cuidados paliativos: comunicação e histórias de vida, em que vinha trabalhando nos últimos tempos junto à enfermeira Juliana Felipelli Bernardes. Segundo Leida, a edição da obra foi concluída, e o autor felizmente teve tempo de receber um exemplar em casa, onde estava em tratamento. “Ele ficou bastante satisfeito, pois planejava há tempos essa publicação, para contar a experiência com a hemodiálise, falar do tratamento oncológico e também do rompimento da barragem em Brumadinho, onde morava”, afirmou Leida.

Já disponível, o livro será uma última oportunidade de amigos e alunos, colegas e admiradores de Valdir de Castro Oliveira conhecerem os últimos anos da história do professor, que expõe, no livro, relatos de luta e superação.

Categoria: Pessoas

Mais lidos

Semana

Notícias por categoria

Escolha a categoria:
Pessoas