UFMG tem quatro novos membros na Academia Brasileira de Ciências
Ana Paula Fernandes (Farmácia) e Antônio Carlos Pedrosa Soares (IGC) são integrantes titulares; Raquel Zanatta (Face) e Danilo Iglesias (Engenharia) são os novos afiliados
Por Teresa Sanches
Pesquisadoras e pesquisadores cujas trajetórias são marcadas por destacada atuação científica e notória liderança nacional em suas áreas de conhecimento, radicados no Brasil, avaliados, indicados e eleitos por seus pares. Esses são alguns dos critérios exigidos para ocupação de assento na Academia Brasileira de Ciências (ABC). O rigor do processo de indicação expressa a representatividade dos professores Ana Paula Sales Moura Fernandes, da Faculdade de Farmácia da UFMG, e Antônio Carlos Pedrosa Soares, do Instituto de Geociências da UFMG, eleitos como membros titulares da entidade. Também passam a integrar a ABC, como membros afiliados para o mandato 2026–2030, Raquel Zanatta Coutinho, da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, e Danilo Iglesias Brandão, da Escola de Engenharia da UFMG, representantes, respectivamente, das categorias de jovens pesquisadores e de mulheres mães.
Criada em 1916, na cidade do Rio de Janeiro, como Sociedade Brasileira de Sciencias, a ABC tem cinco categorias de membros (titulares, correspondentes, colaboradores, afiliados e institucionais associados), reunidos em dez áreas do conhecimento: Ciências Agrárias, Ciências Biológicas, Ciências Biomédicas, Ciências da Saúde, Ciências da Engenharia, Ciências da Terra, Ciências Físicas, Ciências Humanas, Ciências Matemáticas e Ciências Químicas.
A diplomação dos novos 19 membros titulares ocorrerá durante Reunião Magna da ABC, entre 5 e 7 de maio de 2026, no Rio de Janeiro. Já a diplomação dos 30 novos membros afiliados, eleitos para o quinquênio 2026-2030, mandato não renovável, será realizada durante os simpósios regionais, que estão previstos para a primeira quinzena de setembro, na Região Minas Gerais e Centro-Oeste.
Força feminina
A entrada das mulheres nesse seleto grupo de cientistas só ocorreu quase quatro décadas após a fundação da entidade, com as matemáticas Maria Laura Mouzinho e Marília Chaves Peixoto, em 1951. Com a eleição, em 2025, de dez mulheres e nove homens como membros titulares, a representação das eleitas “torna-se motivo de muito orgulho e de uma responsabilidade ainda maior”, na avaliação da professora Anna Paula Fernandes.
“A Academia Brasileira de Ciências é uma instância muito significativa no contexto das intervenções da ciência e tecnologia, por sua atuação política e compromisso na defesa das instituições científicas. E, especialmente, considerando o contexto mundial, em que muitos governos têm questionado de forma muito significativa o papel e a importância da ciência na sociedade, como na Argentina, em que o Ministério da Ciência e Tecnologia foi desfeito e transformado em apenas uma secretaria”, observa.
“A eleição para a ABC é motivo de muito orgulho, porque reconhece as contribuições relevantes de seus membros e é feita por pares, de forma muito transparente e baseada em critérios objetivos. É o reconhecimento pelos meus anos de dedicação à ciência, pela qual me apaixonei, desde que ingressei na UFMG. Comecei a iniciação científica pelas mãos de professores e meus orientadores, a quem também dedico essa conquista – o professor Sebastião Baeta Henriques e a professora Maria de Lourdes Petrilo Peixoto”, acrescentou.
Sobre sua trajetória, a professora faz questão de reconhecer o caminho percorrido na UFMG, que, segundo ela, oferece um ambiente favorável pela excelência de seus pesquisadores. “Devo muito à UFMG, onde fiz graduação, mestrado e doutorado. E quando ingressei como professora, também tive condições objetivas para desenvolver meus projetos e a minha criatividade e pude, realmente, enveredar pela produção acadêmica, formação de recursos humanos de alta qualidade. Além disso, a universidade propicia aos professores e pesquisadores a perspectiva de atuar na área de inovação, tecnologia e empreendedorismo.”
No último dia 12, a professora recebeu, na Argentina, o Prêmio Leloir, em reconhecimento às suas contribuições, ao longo de mais de uma década, desenvolvidas em parceria com o professor Diego Carmelute, da Universidade de Cude, em Mendoza, para o desenvolvimento de vacinas e de testes diagnósticos voltados a doenças negligenciadas, como a doença de Chagas e a leishmaniose. “Essa honraria me traz muito orgulho, porque os indicados foram selecionados pelo consulado argentino entre pesquisadores de alto nível mundo afora. E também agradeço à Diretoria de Relações Internacionais [DRI] da UFMG, que sempre contribuiu para que houvesse esse acordo com a Universidade de Cude, e também à AUGM [Associação de Universidades do Grupo Montevidéu], que possibilitou a nossa mobilidade acadêmica.”
Jovem cientista e mãe
“Nós, pesquisadores, especialmente da área de sociais, vivemos em meio aos nossos temas de estudo. Experimentamos e refletimos sobre a sociedade o tempo todo, pois ela é o nosso laboratório. Isso também significa que estamos sujeitos às mesmas forças dessas estruturas. Como mulher e mãe, essa conquista assume um significado ainda mais especial, pois, assim como eu, há muitas pesquisadoras mães que equilibram múltiplas responsabilidades, enfrentam desafios e, ainda assim, contribuem de forma decisiva para o avanço da ciência. Mas, em nosso país, raramente se consegue um equilíbrio, e o resultado disso são trajetórias acadêmicas ou reprodutivas interrompidas, menor produtividade ou talentos desperdiçados”, pondera Raquel Zanatta Coutinho, mãe de dois filhos e eleita membro afiliado, atendendo ao critério de “jovem pesquisadora até 40 anos, ou, se mãe, com o limite de idade correspondente a um ano para cada filho”, conforme estatuto da ABC.
Em 2023, a professora do Departamento de Demografia da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG (Face) recebeu os prêmios IUSSP Early Career Awardee for Latin America, concedido pela International Union for the Scientific Study of Population, e Docência: sucessos do ofício, outorgado pela Pró-reitoria de Graduação e Diretoria de Inovação e Metodologias de Ensino (GIZ/UFMG).
“Agradeço aos vários profissionais, colegas e alunos que me inspiram, abrem portas e dividem suas descobertas e saberes. E à UFMG, essa instituição que me formou, me inspirou e continua a orientar minha prática científica. Sinto-me imensamente feliz em levar nossa instituição, o Departamento de Demografia, o Cedeplar e o Programa de Pós-graduação em Demografia para esse espaço de excelência acadêmica, onde espero contribuir para um ambiente mais rigoroso e inovador, que também discuta as origens e a manutenção dos desequilíbrios de gênero no meio acadêmico.”
Sentimento parecido é manifestado pelo professor Danilo Iglesias Brandão, da Escola de Engenharia, eleito jovem pesquisador na categoria membro afiliado, instituída em 2007, para reconhecer os jovens pesquisadores promissores das seis regiões definidas pela ABC.
“É uma grande satisfação ter o reconhecimento de colegas de diversas áreas do conhecimento, corroborando o trabalho realizado. Isso gera confiança e motivação para a continuidade desse trabalho, porque na área Ciências da Engenharia prezamos pela transferência de conhecimento, seja para os alunos de graduação e pós-graduação, seja para o setor industrial, com o desenvolvimento tecnológico”, afirmou.
Professor do Departamento de Engenharia Elétrica e do Programa de pós-graduação da Escola, Danilo Brandão orientou a tese vencedora do Prêmio Capes de Teses 2025, de autoria de João Marcus Soares Callegari, que apresenta soluções inovadoras para o controle de microrredes de energia.
Ciências da Terra
Representando a área Ciências da Terra, o novo membro titular da ABC, o professor aposentado do Departamento de Geologia do Instituto de Geociências (IGC) Antônio Carlos Pedrosa Soares, dedica essa “tão importante honraria” aos familiares, estudantes, colegas e colaboradores. Segundo ele, todo o apoio recebido durante sua carreira, inclusive os financiamentos de suas pesquisas, realizados por instituições públicas e privadas, contribuíram para viabilizar a sua contribuição para a produção de conhecimento e qualificação de recursos humanos.
Antônio Pedrosa, que atua como professor voluntário, credenciado como docente permanente pelo Programa de Pós-graduação em Geologia e pesquisador-colaborador do Centro de Pesquisa Professor Manoel Teixeira da Costa (órgão complementar do IGC), também estende seu agradecimento à própria UFMG e à Sociedade Brasileira de Geologia (SBG), onde, décadas atrás, iniciou sua “duradoura participação em organizações científicas e por meio da qual participei de muitos eventos científicos, nos quais tive a oportunidade de apresentar trabalhos e palestras”. O professor também dedicou sua nomeação como membro titular da ABC às regiões onde trabalhou e suas populações, “especialmente ao muito querido Vale do Jequitinhonha”.
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