Semana de Saúde Mental: dados preliminares de censo são apresentados em mesa de encerramento
Mais de 12 mil estudantes aderiram ao levantamento feito em parceria com a WUN; resultados vão subsidiar estratégias de combate ao sofrimento mental na comunidade
Por Ewerton Martins Ribeiro
A maior parte dos estudantes da UFMG relata ter preocupações moderadas com sua saúde psicológica. Estudantes negros e não binários da Universidade apresentam maior grau de depressão que os demais. Pessoas que estudam e trabalham são menos depressivas que aquelas que apenas estudam e que aqueles que estudam e fazem estágio. O mesmo ocorre com pessoas que têm dependentes, em relação aos estudantes que não os têm.
Esses foram alguns dos dados preliminares do Censo de Saúde Mental da UFMG apresentados pela professora Janaina Soares, da Escola de Enfermagem, nesta sexta-feira, 16, na mesa de encerramento da Semana de Saúde Mental e Inclusão Social da UFMG. Integrante da Comissão Permanente de Saúde Mental, Janaina compartilhou esse primeiro compilado de dados durante a mesa-redonda Saúde mental nas universidades: desafios globais, ações locais na UFMG, realizada no auditório B106/107 do Centro de Atividades Didáticas 3 (CAD 3).
A pesquisa sobre a saúde mental dos estudantes da UFMG foi desenvolvida de janeiro a março deste ano, em um processo de adesão voluntária. A relevância do tema para a comunidade universitária foi corroborada pelo alto índice de participação na investigação. Inicialmente, 41,8 mil estudantes foram convidados a aderir ao censo. Desses, 13.019 acessaram proativamente o questionário e 12.569 contribuíram efetivamente com a pesquisa, resultando em participação da ordem de 30%.
Ansiedade, depressão, uso abusivo de álcool
A pesquisa foi feita em parceria com a World Universities Network (WUN), rede que congrega 24 instituições de todos os continentes, da qual a UFMG faz parte. O questionário indagou sobre temas como ansiedade, depressão e uso abusivo de álcool, fenômenos que têm crescido de forma expressiva na faixa etária da população universitária. Os resultados completos ainda estão sendo compilados para ser apresentados oportunamente. Eles vão balizar o direcionamento das estratégias da Universidade no combate ao sofrimento mental, no âmbito de sua Política de Saúde Mental.
A mesa-redonda reuniu dois pesquisadores estrangeiros vinculados à WUN que são referência mundial no campo da saúde mental: a médica Memory Muturiki, diretora do Serviço de Bem-estar Estudantil e presidente do Comitê de Supervisão da Política de Saúde Mental Estudantil da Universidade da Cidade do Cabo (UCT), na África do Sul, e o psicólogo Myles-Jay Linton, coordenador de programa de pesquisa sobre saúde mental de estudantes na Universidade de Bristol, na Inglaterra.
Em suas conferências, eles repercutiram os primeiros achados do censo realizado pela UFMG em parceria com a entidade, destacando a importância do levantamento para uma articulação global e transinstitucional de combate ao sofrimento mental nas universidades mundo afora.
‘Coleção incrível’
Médica com MBA em gestão da saúde, Memory Muturiki destacou a importância do censo realizado pela UFMG para uma construção coletiva de conhecimento acerca da saúde mental dos estudantes universitários do mundo. “A coleção de dados produzida por vocês é incrível”, destacou a médica. “Nos dados preliminares que nos foram apresentados, podemos ver muitas similaridades com os dados de outras universidades”, disse ela, apontando particularmente a semelhança dos dados coletados pela UFMG com os apurados pela WUN na UCT, instituição onde ela também supervisiona os serviços integrados de saúde e psicologia estudantil. Memory integra a Worldwide Universities Network (WUN) como copresidente do grupo consultivo de saúde mental estudantil, mesma função exercida, na WUN, por Myles-Jay Linton.
Memory disse que a WUN trabalha sobretudo para produzir dados que sejam comparáveis internacionalmente e de forma interinstitucional, de modo a possibilitar que universidades compartilhem entre si “boas práticas”: soluções criadas em um local, mas que possam ser adaptadas e replicadas em outros ambientes, em sinergia transnacional. Com esse intuito, a WUN criou ferramenta que possibilita que universidades conectem suas pesquisas realizadas sobre a saúde mental.
Inteligência artificial e assistência
O levantamento realizado pela UFMG foi construído para contemplar os parâmetros dessa ferramenta. “Sabemos que a saúde mental dos estudantes está piorando nas universidades, e muitos não procuram ajuda em razão do estigma. Precisamos combater a estigmatização, normalizando a questão da saúde mental”, defendeu Memory Muturiki. Em sua comunicação, ela informou que o plano da WUN para seu simpósio do próximo ano é analisar as possibilidades de utilizar a inteligência artificial no campo da assistência: “Queremos discutir como a inteligência artificial pode interagir com intervenções em saúde mental”, adiantou.
Psicólogo com doutorado em economia, Myles-Jay Linton aplica uma abordagem que combina ciências quantitativas da saúde populacional com ciências sociais qualitativas para compreender a prevalência e a experiência de dificuldades de saúde mental entre jovens adultos, como se explica em seu minicurrículo.
Respaldado por essa formação, ele lembrou da importância de se manter sempre, em última instância, uma abordagem humanista dos dados coletados sobre saúde mental – mesmo quando eles são produzidos em perspectiva quantitativa. “É muito fácil a gente pensar nos dados apenas como números, mas precisamos lembrar que, por trás de todos esses números, há sempre indivíduos, que estão compartilhando conosco suas experiências. Sabemos que existe um estigma muito grande em saúde mental; que [o cenário] está melhorando, claro, mas o fato é que a jornada de desestigmatizar apenas começou. Todos estamos sujeitos a precisar de suporte em saúde mental em algum momento. Se não desenvolvermos um movimento coletivo, a gente nunca conseguirá chegar na ação”, convocou.
Fatores que impactam a saúde mental
Em sua apresentação, Myles-Jay listou os vários fatores relevantes para a saúde mental universitária, como o ganho acelerado de independência que é próprio do período estudantil, a incorporação abrupta de responsabilidades, o rápido desenvolvimento intelectual e até mesmo o aumento no uso de drogas lícitas e ilícitas, que é comum nessa fase da vida. “Sabemos, por exemplo, em razão de estudos, que a ansiedade e a depressão são questões muito importantes no Brasil, mas também estamos vendo essas questões em outros países, então precisamos pensar essas questões coletivamente”, opinou.
“Será que o que funciona no Brasil vai funcionar nos EUA? A gente quer comparar os nossos dados justamente para saber isso”, revelou o psicólogo. “Na WUN, estamos particularmente interessados na questão dos alunos de graduação. Há diferenças importantes entre as questões vividas pelos alunos de graduação e pelos de pós-graduação”, pontuou Myles-Jay.
As palestras realizadas nesta sexta-feira podem ser recuperadas na gravação abaixo, que conta com tradução simultânea para o português.
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