Conheça a história do movimento drag que nasceu no Brasil

 

16 de junho de 2026

 

 

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Por Fernando Silva,

relações-públicas e assessor de comunicação do Espaço do Conhecimento UFMG

 

No instante em que o corpo gira, o pescoço conduz um movimento único. Os cabelos, que atravessam o ar, acompanham o giro, e a inércia newtoniana deixa de ser conceito e se torna real. É neste momento que a música parece ganhar outra dimensão. Nas ruas, em diferentes boates, concursos de performance e teatros do Brasil, é este o movimento capaz de transformar a energia de um ambiente. O bate-cabelo, conhecido por sua intensidade, se tornou uma das expressões mais marcantes da cultura transformista e drag brasileira, atravessando gerações e se consolidando como linguagem artística e corporal que alcançou o mundo. O bate-cabelo carrega memória. Sua história se conecta diretamente às experiências de artistas que construíram espaços de re-existência e visibilidade para diferentes corpos em contextos marcados pela exclusão social e pela violência. 

Em um dos textos anteriores do Blog do Espaço, você pôde entender o porquê montação é resistência. Entender que a performance drag encontrou no exagero e na teatralidade formas de reivindicar direitos básicos. No Brasil, a montação nasceu com as transformistas. Nesse contexto, o bate-cabelo surgiu como continuidade dessa potência. E uma importante artista se tornou precursora e referência fundamental dessa expressão no Brasil, a Márcia Pantera.

 

Movimento bate-cabelo realizado pela Drag Queen Márcia Pantera. (Créditos: Fernando Silva).

 

Considerada uma das precursoras da técnica no país, a artista ajudou a consolidar uma estética drag marcada pela força física e pelo impacto visual das performances. Você possivelmente já deve ter visto alguma cena do tipo: o corpo gira em velocidade, o pescoço segue o movimento e os cabelos parecem cortar o ar no ritmo da música. E apesar de o bate-cabelo ter se tornado muito marcante, Márcia conta que o movimento surgiu de forma inesperada. No início da carreira, durante uma apresentação de uma música de Michael Jackson, um passo saiu diferente do planejado. Ao lançar os cabelos de um lado para o outro em meio à coreografia, acabou criando, sem perceber, o gesto que mais tarde se transformaria no movimento. Com o tempo, ele foi sendo aperfeiçoado até ganhar a técnica conhecida hoje, baseada no giro contínuo dos cabelos em formato de oito. 

A popularidade dessa performance atravessou décadas. Nos anos 1990 e 2000, concursos de transformistas e apresentações drags chegaram até mesmo aos auditório da televisão brasileira, ampliando a visibilidade dessa cultura para além das boates LGBTQIAPN+. Em projetos como o Domingo Legal, Programa Raul Gil, Programa Silvio Santos e outros, artistas transformistas apareciam em quadros de calouros, competições e performances que ajudaram a apresentar ao grande público elementos hoje marcantes da cultura drag brasileira.

Antes mesmo de a cultura drag conquistar esses espaços na televisão, nas redes sociais e na indústria do entretenimento, Márcia já transformava o próprio corpo em um verdadeiro manifesto de resistência. Seu pioneirismo está relacionado a popularização do bate-cabelo, e principalmente está no fato de ter ajudado a construir caminhos para uma arte que, naquele período, ainda existia majoritariamente às margens. Em uma época em que a performance drag sequer era amplamente difundida no Brasil, Pantera ajudou a consolidar referências estéticas e performáticas que atravessariam gerações.

 

Márcia em processo de montação. (“Eu sou… Márcia Pantera” – Reprodução: YouTube)

 

Há quase quatro décadas nos palcos, Márcia Pantera, personagem criada pelo artista Carlos Márcio José da Silva, iniciou sua carreira. Ainda jovem, em São Paulo, encontrou nas boates LGBTQIAPN+ um espaço de descoberta e pertencimento. Foi nesse ambiente que começou a construir uma estética própria, marcada por uma ruptura com referências mais tradicionais da cena transformista da época. A experiência ajudou a moldar a artista que, aos 56 anos, continua como uma das maiores referências do bate-cabelo no país. “”Eu acredito que sou a primeira drag queen do Brasil e comecei aos 18 anos. Quando cheguei, havia gente já nos 40 anos, mas sempre reproduziam alguém [transformistas]: Alcione, Gal Costa e as vedetes dos anos 50. Elas usavam vestido, plumagem, e eu cheguei com uma calça de vinil, bota preta, maiô de onça e uma personalidade totalmente nova. Eu vi essa chavinha virar”, relatou a artista ao G1.

 Esse legado tem continuidade também em novas gerações. Natasha Princess (SP) e Mellody Queen (BH), filhas drags de Márcia Pantera, seguem ampliando as possibilidades do bate-cabelo em diferentes contextos contemporâneos.  Na cultura queer, esse vínculo entre artistas é chamado de “família drag”, uma relação de troca e aprendizado dentro da cena LGBTQIAPN+, em que performers mais experientes compartilham referências, técnicas, caminhos e até mesmo looks e acessórios.

 

Márcia Pantera, Natasha Princess e Mellody Queen, da esquerda para a direita. Juntas, as artistas representam diferentes gerações da cultura drag brasileira e a continuidade do legado do bate-cabelo. (Créditos: Natasha Princess/YouTube).

 

Décadas depois de seus primeiros passos nos palcos, Márcia Pantera segue como um dos nomes mais importantes da história queer brasileira. Em uma época em que artistas LGBTQIAPN+ ainda ocupavam espaços marcados pela marginalização, Pantera criou referências que atravessaram gerações. Porque antes de ecoar pelo mundo, o bate-cabelo nasceu aqui, no Brasil. E foi o rugido ensurdecedor de uma Pantera que marcou para sempre a história da arte drag brasileira.

 


Márcia Pantera em 2026. (Créditos: Fernando Silva).

 

Referências e para saber mais:

Blog do Espaço:  Montação é resistência!

Instagram:  @marciapanteraoficial

G1:  Pioneira na arte drag, Márcia Pantera revisita carreira

Quem: Marcia Pantera, a precursora do bate-cabelo: ‘Caí, levantei, mas não deixei de sonhar’

Mídia Ninja: A rainha do bate-cabelo, o grito maior: entrevistamos Marcia Pantera