Conheça obras da artista Mayara Ferrão, que confronta apagamentos históricos por meio do afeto, da tecnologia e de imaginários insurgentes
23 de junho de 2026

Por Ana Carolyna Gonçalves Barboza, mestra em Comunicação Social e assistente de comunicação no Espaço do Conhecimento UFMG
A ausência de diferentes corpos e identidades em registros históricos, bem como a reprodução de narrativas que naturalizam opressões e desigualdades, está profundamente vinculada à perpetuação de apagamentos e controles hegemônicos. Isso porque as trajetórias de grupos minorizados foram sistematicamente retratadas a partir de discursos universalizantes e colonizadores, capazes de fomentar histórias únicas (Adichie, 2019) e violentas. Em contrapartida, a pluralidade de perspectivas se torna uma forma de reparação que indica caminhos possíveis para relembrar e reconstruir a dignidade e as vivências desses sujeitos.
É nesse contexto que surge a série de fotografias Álbum de Desesquecimentos (2024), da artista visual e diretora criativa Mayara Ferrão, com a proposta de reverberar repertórios visuais emancipatórios. Diante do incômodo provocado pelo silenciamento e pela desumanização encontrada em arquivos oficiais, Ferrão constrói uma coleção de imagens que representam o amor entre mulheres negras e indígenas no período colonial do Brasil. A artista, natural de Salvador (BA), realiza pesquisas e utiliza Inteligência Artificial (IA) para a criação das fotos, que buscam suscitar imaginários relacionados a pessoas deslegitimadas e privadas do reconhecimento de suas próprias existências.

Álbum dos Desesquecimentos (Album of Unforgetfulness), 2024. (Créditos: Mayara Ferrão, Acervo MoMA).
Situados na interseção entre memória, arte e tecnologia, os desesquecimentos envolvem temas de afeto e ancestralidade, atravessando categorias de gênero, sexualidade, território e raça, em um gesto que mistura a realidade e a ficção. As fotografias retratam cenas de casamentos e celebrações, e de momentos românticos cotidianos que, apesar de parecerem comuns e banais, são amplamente negados às pessoas LGBTQIAPN+. Nesse sentido, ao representar essas mulheres como protagonistas de suas realidades, a artista reivindica a autodefinição e a legitimidade, se opondo ao que foi pré-determinado pelo projeto colonial (Kilomba, 2019).

A artista Mayara Ferrão. (Créditos: Camila Tuon/CLAUDIA).
Em entrevista à Folha de S.Paulo, Ferrão afirma que a IA não era capaz de recriar imagens que representassem pessoas negras felizes ou com expressões alegres, por exemplo. Tal situação demandou que a artista treinasse a ferramenta com representações e referências positivas, sem associação com condições de sofrimento ou dor. Existem inúmeros aspectos que perpassam a discussão sobre o uso de inteligência artificial, sobretudo no campo da arte, incluindo questões de regulação, autoria, letramento digital, responsabilização das empresas (Parreiras, 2025) e consequências socioambientais. Para que esse debate se torne ainda mais qualificado e complexo, também é necessário superar a dicotomia que o classifica em positivo/negativo ou que assume uma posição extrema relacionada tanto ao seu uso acrítico quanto à sua anulação completa em todas as áreas e processos.
As obras da artista soteropolitana evidenciam possibilidades que não delegam a intencionalidade e o pensamento crítico do trabalho criativo à tecnologia. Partindo de uma perspectiva política, Ferrão subverte a lógica assimétrica e discriminatória da inteligência artificial, que provém das estruturas sociais de poder. Há, portanto, uma tentativa de encontrar lacunas para instaurar mudanças e causar rupturas e reinvenções nas narrativas dominantes por meio da apropriação dos recursos fornecidos pelas ferramentas tecnológicas.

Álbum dos Desesquecimentos (Album of Unforgetfulness), 2024. (Créditos: Mayara Ferrão, Acervo MoMA).
Na medida em que entrelaça suas experiências com as das mulheres que vieram antes de si, Ferrão compreende a ancestralidade como o princípio que inter-relaciona todas as temporalidades (Martins, 2021): o passado, o presente e o futuro. Conforme abordado pelas pesquisadoras Laura Guimarães Corrêa, Pâmela Guimarães-Silva, Mayra Bernardes e Lucianna Furtado, em artigo sobre a produção de intelectuais negras, essa é uma oportunidade de:
“[…] evidenciar as relações entre as experiências individuais de sujeitos subalternizados e as estruturas de poder que organizam a sociedade em sua dimensão coletiva” (Corrêa et al., 2018, p. 156).
A memória é um campo em constante disputa e quando narrativas contra-hegemônicas ganham visibilidade emerge o convite para desesquecer o que foi mantido fora da história. Imaginar representações mais diversas para o passado é também uma maneira de fortalecer as histórias de amor escritas no presente por pessoas, que, com muito orgulho, continuarão a resistir, persistir e sorrir.
Referências
Álbum de desesquecimentos – Revista ZUM.
Amor e memória: A arte de Mayara Ferrão.
Como fotógrafa usa IA para retratar paixões entre mulheres negras nunca vistas.
Mayara Ferrão, quando a cultura visual e tradição cruzam-se com Inteligência Artificial.
ADICHIE, C. N. O perigo de uma história única. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. 64 p.
CORRÊA, L. G.; GUIMARÃES-SILVA, P.; BERNARDES, M.; FURTADO, L. Entre o interacional e o interseccional: Contribuições teórico-conceituais das intelectuais negras para pensar a comunicação. Revista Eco-Pós, [S. l.], v. 21, n. 3, p. 147-169, 2018.
KILOMBA, G. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Cobogó, 2019. 248 p.
MARTINS, L. M. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. 1. ed. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021. 256 p.
PARREIRAS, C. Inteligência artificial em perspectiva crítica: contribuições antropológicas e imaginários tecnológicos. GIS – Gesto, Imagem e Som – Revista De Antropologia, São Paulo, v. 10, n. 1, p. 1-8, 2025.
SILVA, L. G. da. Imagem para desesquecer: afeto, inteligência artificial e autodefinição na obra de Mayara Ferrão. In: Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais – ANPOCS. 49º Encontro Anual da Anpocs. Anais. Campinas: ANPOCS, 2025. p. 1-19.