Conheça o projeto “Musicoterapia e Surdez”, realizado pela Escola de Música da UFMG

 

22 de setembro de 2026

 

 

Por Samuel Lacerda,

estudante de música e bolsista no Núcleo de Comunicação do Espaço do Conhecimento UFMG

 

Você já parou para pensar sobre como as pessoas surdas vivenciam a música? É muito comum que a nossa sociedade, estruturada de forma ouvinte, associe a experiência musical exclusivamente à audição. No entanto, quando analisada de forma mais ampla e fenomenológica, percebemos que a música envolve variados sentidos, a partir da vibração que atinge a pele, da visão que acompanha o ritmo, do movimento coreográfico e de uma profunda percepção do nosso próprio corpo no espaço. É nessa quebra de paradigmas e no reconhecimento do som enquanto matéria física que nasce o projeto “Musicoterapia e Surdez”, desenvolvido na Universidade Federal de Minas Gerais. 

Coordenado pelo professor Igor Ortega Rodrigues, da Escola de Música da UFMG, o projeto investiga as dimensões multissensoriais, comunicacionais e terapêuticas da música para pessoas surdas. A pesquisa busca entender como sujeitos com diferentes níveis de surdez (leve, moderada ou profunda) experimentam o fenômeno musical em contextos que integram saúde, educação e inclusão social. O ponto de partida é entender que a falta de audição não significa, de forma alguma, a ausência de musicalidade. Ao contrário, o estudo foca na ideia de que a musicalidade pode se desenvolver e se expressar por vias alternativas de sensibilidade, permitindo que o sujeito surdo se aproprie do universo sonoro de uma maneira única e legítima dentro de sua própria condição.

Dois dos pilares centrais desta investigação são a “visualidade musical” e a “percepção vibrotátil”. Durante as sessões de musicoterapia propostas pelo projeto, os participantes não são colocados como ouvintes passivos, mas como agentes ativos que interagem com o som por meio de estímulos táteis e visuais. Os pesquisadores utilizam tecnologias e instrumentos específicos que potencializam a vibração sonora, permitindo que o corpo sinta a pressão e a frequência das notas musicais. A Língua Brasileira de Sinais (Libras) também entra no processo como forma de tradução e parte essencial da expressão rítmica, conectando o sentido dos sinais ao movimento corporal e à pulsação da música para criar uma experiência estética integrada e acessível. 

A pesquisa utiliza uma abordagem metodológica mista, que combina a coleta de dados quantitativos com análises qualitativas profundas, realizadas por meio de entrevistas, questionários e registros detalhados de cada sessão terapêutica. Ao unir o rigor da ciência com a sensibilidade da prática clínica, o projeto busca preencher uma importante lacuna no conhecimento acadêmico, provando que a presença da música no desenvolvimento cognitivo e emocional pode ocorrer ao longo de caminhos inesperados ou inexplorados. Tal gesto científico é fundamental e urgente, pois ainda há uma grande escassez de estudos que relacionam a musicoterapia e a surdez, especialmente no campo da integração sensorial e das tecnologias assistivas.

 

Musicoterapia na UFMG. (Créditos: Reprodução/TV UFMG).

 

Mas quais são as repercussões reais e práticas de um trabalho como esse? O objetivo final do estudo vai muito além dos muros da Universidade: espera-se desenvolver protocolos terapêuticos inclusivos e validados que possam ser replicados em diversas instituições de saúde e ensino em todo o país. Além da produção de conhecimento acadêmico e de materiais pedagógicos inéditos, o projeto tem um forte viés social, buscando fortalecer as políticas públicas voltadas à comunidade surda e combater o preconceito de que a música seria um território proibido para quem não a ouve. Em última análise, trata-se de reafirmar que o acesso à arte, à cultura e à saúde é um direito humano universal, promovendo uma verdadeira inclusão social por meio do poder transformador da música.

Ao final desta jornada, fica uma provocação que nos convida a repensar nossa própria percepção. Se a música pode ser sentida pela pele, vista pelo movimento e compreendida pelo silêncio dos sinais, o que mais deixamos passar por estarmos presos a definições limitadas dos nossos sentidos? Talvez, a barreira mais profunda não esteja na ausência da audição biológica, mas na nossa incapacidade de ouvir o mundo com o corpo inteiro. 

Se o som é vibração e o universo é feito de átomos em constante movimento, não seria a própria vida uma grande composição musical que todos nós, ouvintes ou não, estamos tocando juntos? O projeto do professor Igor nos mostra que a música não precisa de ouvidos para existir; ela precisa, sobretudo, de um encontro entre a vibração do mundo e a sensibilidade humana.