“Eu confio muito na mãe Terra. Sou pedaço dela, sou chão dela. Ela é meu chão de vida. Tudo o que temos, ela dá. Por isso, não envenenamos a Terra. Quem sabe viver com a Terra, quem conhece o seu sonho, vive com ela de coração. A Terra é minha mãe. O meu sonho é tirar as cercas que colocaram nela. E eu sei que ela também sonha com isso.” (Liça Pataxoop)

 

“A Terra sonha com a gente. E a gente, quando vive direito, sonha com ela também.” (Kanatyo Pataxoop)

 

22 de abril de 2026

 

 

Por Sarah Costa e Rachel Borges, estudantes de Arquitetura e Urbanismo e bolsistas do Núcleo de Expografia do Espaço do Conhecimento UFMG

 

A roça é a mãe do mundo: laço entre gerações, semeada pelos mais velhos como herança para o futuro. 

 

A instalação ‘Roça Mãe do Mundo’, parte do projeto de renovação da exposição ‘demasiado humano’ do Espaço do Conhecimento UFMG, buscou colocar em evidência a confluência dos povos afro-indígenas brasileiros, seus modos de existir e de se relacionar com a terra.

 

Assim como O rio e seus Seres, essa instalação dialoga com os saberes tradicionais dos modos de vida envolvidos com o mundo, desta vez, questionando as dinâmicas antropogênicas predatórias com impactos irreversíveis à natureza. Contrapondo a lógica da monocultura, a diversidade representa a interação entre diferentes espécies e povos que produzem caminhos para a perpetuação da vida e dos saberes ancestrais. 

 

“Roça Mãe do Mundo” foi inspirada nos valiosos conhecimentos sobre os modos de vida ancestrais, cujo cuidado e reverência com a terra garantem a permanência das “roças de abundância, beleza e fartura”. Também nos guiamos pelas ideias de Ailton Krenak, Antônio Bispo dos Santos e de mestres e mestras de saberes tradicionais com título de doutores por Notório Saber, concedido pela UFMG.

 

Buscamos proporcionar aos visitantes uma experiência multissensorial do viver a roça, utilizando de ilustrações, bordados, palavras, objetos, vídeos e paisagens sonoras como formas de demonstrar as ideias centrais da instalação.

 

Nesta roça expográfica, conjuntos de tecidos impressos pairam sobre o espaço revelando ilustrações de espécies vegetais, animais, espíritos e interações de manejo da terra. Em diferentes ângulos, sobreposições e interações entre si,  elas oscilam ao vento à medida em que os visitantes permeiam o espaço. Algumas opacas em tecido begônia, posicionadas em pontos de destaque, compõem ilustrações maiores; outras, translúcidas em tecido voil, em escala reduzida e gravadas com as mesmas temáticas. Todos os desenhos foram produzidos à mão por mulheres de diferentes vivências que buscaram representar seus próprios vínculos com a terra. 

 

As ilustrações maiores representam as roças de diferentes povos, suas ideias de diversidade e seu envolvimento com o mundo, são elas: o Têhey* “Roça do Sonho Pataxoop”, desenhado exclusivamente para a instalação, de Liça Pataxoop.  As roças Ticuna foram produzidas por Mutchique’ena. A roça Pataxó foi ilustrada por Japira Pataxó. A roça Tikmũ’ũn Maxakali” é de autoria de Sueli Maxakali, Eliana Maxakali, Isaiane Maxakali, Juana Maxakali, Marinete Maxakali. E as ilustrações de Mariana Oliveira representam a roça urbana da região metropolitana de Belo Horizonte.

 

Instalação Roça Mãe do Mundo – Exposição demasiado humano. (Créditos: Núcleo Audiovisual Espaço do Conhecimento UFMG).

 

Já as ilustrações menores em tecido voil são composições de plantas e animais, desenhos feitos por Mariana Oliveira durante sua pesquisa intitulada “A Beleza da fartura na Região Metropolitana de Belo Horizonte” e dos livros “O que tem na Roça” e “Saberes dos Matos Pataxó”, das mesmas autoras da “Roça Maxakali” e de Japira Pataxó, respectivamente. 

 

Compondo essa diversidade, também estão expostos bordados feitos por mulheres do Quilombo do Cortume, tamboretes de palha de milho do Quilombo da Faceira, objetos indígenas do povo Ticuna (pau de chuva e tipiti) e palavras germinantes que exibem os nomes das espécies vegetais semeadas por diferentes povos, algumas em suas respectivas línguas e outras em português.

 

Instalação Roça Mãe do Mundo – Exposição demasiado humano. (Créditos: Núcleo Audiovisual Espaço do Conhecimento UFMG).

 

Como complemento do conteúdo, estão expostos nas paredes laterais da instalação vídeos filmes, animações e depoimentos de mestras e mestres. Caixas de som reproduzem cantos ticuna, yanomami, maxakali e quilombolas que envolvem o visitante em uma paisagem sonora e reforçam a íntima relação com a terra: semear, adubar, germinar, cuidar e colher, curar…

 

A partir de todos esses elementos, o Espaço do Conhecimento UFMG busca, em uma roça de muitos povos e muitas línguas, celebrar a possibilidade de indissociação entre a terra e os povos envolvidos com o mundo. Valorizando a essência dos conhecimentos ancestrais, tão relevantes quanto o conhecimento científico tradicionalmente exposto nos museus. 

 

Referências

COSTA, S.; BORGES, R. O rio e seus seres. Espaço do Conhecimento UFMG, 10 mar. 2026.

LIMA, D.; MARQUEZ, R. Sonhar a Terra. Belo Horizonte: Espaço do Conhecimento UFMG, 2026.

SANTOS, A. B. A terra dá, a terra quer. PISEAGRAMA. Belo Horizonte, 2023.

SOUZA, M. O. e. A beleza da fartura na região metropolitana de Belo Horizonte. Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2024.

*Têhey é o nome atribuído por Liça Pataxoop a desenhos criados por ela a partir da metodologia indígena de ensino Têhey. Eles representam histórias e valores de seu povo com propósito pedagógico e artístico. O nome vem de um instrumento de pesca Pataxoop, fazendo alusão a uma “pescaria do conhecimento”. Universidade Federal de Minas Gerais. Artista e educadora Liça Pataxoop inaugura mural na Faculdade de Educação da UFMG. Belo Horizonte: 03 dez. 2025.