Conheça algumas das primeiras e mais importantes narrativas fantásticas que definiram nosso imaginário e inspiraram nosso conhecimento sobre a Lua

 

09 de junho de 2026

 

 

Por Eduardo Pinheiro Ferreira,

graduando em Letras pela UFMG e estagiário de astronomia no Espaço do Conhecimento UFMG

 

Durante a história da vida na Terra, os seres vivos olharam para a mesma Lua, mas somente o ser humano enxergou-a com cultura. Várias civilizações ao redor do mundo possuem alguma história à respeito dela, seja atribuída a uma divindade, mito ou poder. Na maioria destas narrativas, nosso satélite natural é tratado como um lugar inalcançável e onde poucos poderiam, ou seriam dignos, de chegar. O mais cativante é ver que estas ideias de viagens à Lua já eram exploradas e pensadas muito antes da existência da primeira lente do primeiro telescópio.

 

A literatura é umas das ferramentas que usamos para pensar o futuro. É a forma como o ser humano consegue sonhar acordado e, muitas vezes, criar cenários lúdicos com bases reais, nos quais a Lua já é protagonista há bastante tempo. Um dos mais notáveis autores a tratar sobre viagens lunares foi Luciano de Samósata, que viveu por volta do século II d.C. Nascido na ilha grega de Samos, Luciano escreveu, entre 160 e 180 d.C., um livro chamado A história verdadeira, em que acompanhamos uma viagem marítima pelo Atlântico, na qual os tripulantes passam por várias adversidades. Em certo momento da narrativa, o navio é pego por um redemoinho e os marujos são arrastados, por sete dias e noites, até o que eles chamam de um “grande país no céu, brilhante, circular e irradiando luz”. Essa “ilha celeste” é a Lua, que na história possui uma monarquia, aranhas gigantes e habitantes que travam guerras contra o rei do Sol.

 

Ilustração das aranhas lunares gigantes descendo pelas teias no ar entre a Lua e a Estrela da Manhã. (Créditos: William Strang para a edição de 1894 d’As narrativas verdadeiras de Luciano).

 

Na mesma época de Luciano, outro autor já tinha escrito sobre uma exploração lunar, porém sem artifícios fantásticos. Em As maravilhas além de Thule, Antônio Diógenes faz seus protagonistas empreenderem uma viagem além do mundo conhecido, partindo da Sicília até Thule – um termo grego usado para retratar a região do extremo Norte do mundo, sendo uma possível referência à Islândia ou Escandinávia, e o Círculo Ártico. Lá encontram uma passagem que leva diretamente até a Lua, descrita como uma “terra imaculada, pura e limpa”. 

 

Estas narrativas são pequenos recortes da imaginação dos antigos que tinham um profundo fascínio pelos fenômenos naturais ao seu redor, mas serviram também para catalisar e cativar o conhecimento provindo da astronomia, o conhecimento do universo e dos corpos celestes. Para apresentar às pessoas essa ciência, uma das formas mais lúdicas e versáteis de introduzi-la ao público foi aliando-a aos livros literários e recheando-os com histórias fantásticas, o qual apenas seguiu se aprimorando. Esse fascínio viria a alimentar um gênero literário que eclodiu sutilmente no meio do século 19 e se fortaleceu no século 20 chamado de Ficção Científica, uma literatura com vastos limites de conteúdos e com profunda valorização pela curiosidade, ciência e possibilidade que cercam a mente humana em contato com tudo o que nos rodeia, especialmente o cosmos. Nesse período, três autores foram responsáveis por reimaginar nossas perspectivas de jornada, “alunissagem” e pesquisa lunar até a atualidade.

 

Em 1835, Edgar Allan Poe, escritor, crítico e poeta americano, conhecido por sua proficiência na escrita que explora o gótico e o macabro, escreveu o conto A aventura incomparável de um certo Hans Pfaall. O personagem principal, o qual dá nome ao conto, projeta um balão de ar quente inovador junto a um dispositivo que comprime o vácuo do espaço, convertendo-o em ar respirável. A partir deste dispositivo, Hans Pfaall consegue viajar até a Lua, fugindo assim dos seus problemas com dívidas e das autoridades terrestres. Em solo lunar, o protagonista faz duas descobertas: que existe vida na Lua, seres humanóides de sessenta centímetros e sem orelhas, e que toda a sua superfície é dominada por vulcões. Esta é considerada uma das primeiras narrativas de ficção científica, pois é construída sobre mais temas científicos do que fantasiosos, mesmo se inspirando bastante em Luciano e Antônio Diógenes.

 

Ilustração do equipamento usado por Hans Pfaall. (Créditos: Yan Dargent para o conto A aventura incomparável de um certo Hans Pfaall de Poe a pedido de Jules Verne).

 

O conto de Poe, alguns anos depois, inspirou uma das maiores narrativas de viagem à Lua já escritas. Dividida em dois livros, Da Terra à Lua e Ao redor da Lua, o autor francês Jules Verne conta a história de um clube de entusiastas que constrói um enorme canhão para propulsar uma cápsula de pesquisa espacial, chamada Columbia, até a Lua. O mais impressionante nesta obra são as minuciosas pesquisas feitas pelo autor para trazer veracidade à sua ficção. Verne calculou o tamanho e a força que um canhão deveria ter para realizar esse feito no mundo real, assim como o material mais resistente que a cápsula deveria ser feita. Esta história de Jules Verne serviria de modelo para Georges Méliès escrever e dirigir o filme A viagem à Lua de 1902, resgatando a imaginação e a ciência criadas por Verne e imortalizando-as no cinema.

 

Ilustração do lançamento da cápsula Columbia. (Créditos: Henry de Montaut para a edição de 1872 de Da Terra à Lua de Jules Verne).

 

Em 1951, o escritor inglês Arthur C. Clarke publicou o conto Se eu esquecer de ti, ó Terra, o qual traz uma abordagem diferente dos citados anteriormente. Nele, a humanidade esgotou os suprimentos da Terra, causando um cataclisma ecológico, tornando nosso planeta inabitável e fazendo com que os últimos sobreviventes se refugiassem na Lua, na forma de uma pequena colônia agrícola. O conto é narrado pelo olhar de uma criança, que, em seu aniversário de dez anos, é levado pelo pai para fora da colônia lunar para observar a Terra devastada, enquanto ouve-o falar sobre os grandes esforços e tentativas, inúteis, de recuperá-la. Clarke, que explorou em seus livros o potencial tecnológico que desenvolvemos e como isso nos ajudou a evoluir nossa civilização, nos apresenta uma imagem diferente aqui: agora é a Terra, e não a Lua, que é hostil à nossa natureza e o propósito humano não é mais chegar à Lua, mas reconquistar o nosso planeta.

 

Cerca de quase oito anos depois, em 1959, com o avanço da corrida espacial entre União Soviética e Estados Unidos, os primeiros passos sólidos para uma viagem lunar foram tomados, com o lançamento de sondas e foguetes na órbita da Terra. Finalmente, em 1969, a Apollo 11 furou a bolha de contato imaginário entre nós e a Lua, quando Neil Armstrong, citado diversas vezes nas obras de Verne, representou seu papel de extraterrestre em nome da humanidade por quase três horas. Em abril de 2026, a missão Ártemis II realizou o mais recente sobrevoo lunar, nos relembrando a beleza, magnitude e o poder, físico e inspirador, junto com toda a ficção e fantasia contidas nestas e em outras obras, que este corpo celeste sempre exerceu sobre nós. Em todas estas, e em outras várias narrativas, o elemento da curiosidade e do “buscar compreender o que não conseguimos alcançar” está sempre presente, pois mesmo contemplando a mesma Lua, continuamos a sonhar com ela de maneiras diferentes e inesgotáveis.

 

Referências

CLARKE, Arthur C. Contos completos. São Paulo: Editora Aleph, 2026.

POE, Edgar A. Ficção completa, poesia e ensaios. São Paulo: Editora Nova Aguilar, 2021.

ROBERT, Adams. A verdadeira história da ficção científica: do preconceito à conquista das massas. São Paulo: Editora Seoman, 2018.

VERNE, Jules. Da Terra à Lua; Ao redor da Lua. São Paulo: Editora Aleph, 2025.