Uma mistura que vai além do Brasil e do Egito, reunindo diferentes países ao redor do mundo

 

11 de agosto de 2026

 

 

Por João Victor Lima Evangelista, 

Assistente do Núcleo de Astronomia do Espaço do Conhecimento UFMG

 

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, nos acostumamos com notícias da exploração espacial, como o lançamento de sondas, satélites, estações espaciais e até mesmo pouso na Lua. Cada vez mais, essas conquistas saíram do imaginário rumo à realidade. Durante o período da Guerra Fria, essa exploração foi liderada por duas nações, Estados Unidos e União Soviética, que realizaram mais de 2 mil missões bem sucedidas entre 1957 e 1991. A fim de comparação, no período seguinte, entre 1992 e 2025, registraram-se cerca de 3 mil lançamentos considerando todos os países com programas espaciais.

Esse alto número feito pelas duas nações durante a Guerra Fria tem uma explicação simples: a corrida espacial era uma questão política, uma vez que o avanço no espaço demonstrava poder e superioridade. Após o final deste período, os lançamentos espaciais tinham um caráter mais científico e desenvolvimentista. O sistema GPS, por exemplo, foi projetado pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, para utilização militar. Atualmente, no entanto, é um serviço gratuito utilizado em quase todo o mundo, com 62 satélites lançados, mas apenas 31 em operação.

 

Primeira reunião do Comitê para Usos Pacíficos do Espaço Sideral (COPUOS), em dezembro de 1958. (Créditos: ONU).

 

Desde o início da exploração espacial, a Organização das Nações Unidas (ONU) tem uma participação importante na discussão sobre o uso do espaço como um ambiente pacifico, internacional e para fins científicos. A criação do Comitê para Usos Pacíficos do Espaço Sideral (COPUOS) após o lançamento do Sputnik 1, em 1958, representou um marco importante para a discussão dos limites das atividades no espaço. 

Logo depois, em 1959, esse comitê passou a ser permanente na ONU, com 24 membros. Desde então se tornou um ambiente para formulação de parcerias entre governos e organizações não-governamentais para uma exploração conjunta do espaço. Além disso, foi importante para a criação da Resolução 1721 (XVI), aprovada pela Assembleia Geral da ONU em 1961, marco da formalização da parceria entre Estados para utilização do espaço para expandir as capacidades humanas em diversas áreas.

Regionalmente, outros fóruns de cooperação se formaram para discutir o tema ou formar agências espaciais de forma unificada entre os países, como a Agência Espacial Europeia (ESA), a Agência da União Europeia para o Programa Espacial (EUSPA) e a Organização para Cooperação Espacial da Ásia-Pacifico (APSCO).

Da NASA à ROSCOSMOS e da ESA à AEB, diversas agências espaciais foram criadas para defender os interesses dos países à frente da exploração espacial. O ápice da cooperação entre Estados é a Estação Espacial Internacional (ISS). Com 25 anos de existência, o projeto envolve 15 países e 5 agências, além de já ter acolhido mais de 290 astronautas de 26 nacionalidades diferentes.

 

A Estação Espacial Internacional é possivelmente um dos maiores projetos de cooperação internacional. (Créditos: NASA).

 

Após 25 anos, essa parceria está literalmente próxima de afundar, com o lançamento de uma nova Estação Espacial Russa e com a União Europeia procurando parceiros na indústria para fazer o mesmo. A NASA anunciou que em 2030 a ISS será oficialmente desativada, tendo sua reentrada na atmosfera terminando com um mergulho no fundo do Oceano Pacífico, uma vez que a ISS possui o tamanho aproximado de um campo de futebol e um custo inviável para sua desmontagem por completo. Apesar de ainda restarem a CSA (Agência Espacial Canadense) e a JAXA (Agência de Exploração Aeroespacial Japonesa), apenas estas duas, juntamente com a NASA, não serão capazes de sustentar um projeto tão caro.

O bloco econômico BRICS+, formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, entre outros, apesar de não possuir uma agência unificada, realiza encontros entre os presidentes de suas agências espaciais. No último encontro, foi discutida uma utilização sustentável do espaço e órbita terrestre e a redução dos detritos em missões espaciais. Além disso, a ideia de construir uma constelação de satélites para georreferenciamento e telecomunicação do BRICS+ está bem próxima de se concretizar. 

 

Chefes e altos funcionários das agências espaciais posando para uma foto oficial durante as reuniões de junho de 2026. (Créditos: BRICS+).

 

Paralelo a isso, a construção da Estação Internacional de Pesquisa Lunar (ILRS), fundada pela parceria China-Rússia, conta com a participação de outros membros do BRICS+, como África do Sul, Paquistão, Belarus, Egito, dentre outros. Atualmente, os países membros  possuem diversos espaço-portos, satélites, sondas, foguetes e, somados, realizam em torno de 100 lançamentos por ano, demonstrando a importância da cooperação do bloco em diversas áreas, incluindo a exploração espacial.

 

Entrada do Centro Europeu para Aplicações Espaciais e Telecomunicações. (Créditos: Harwell Campus).

 

A formação de parcerias internacionais se demonstra importante em diversas áreas, além da exploração espacial. A criação de fóruns, agências e outros mecanismos de cooperação são parte importante do progresso científico, e exemplos como o CERN (European Organization for Nuclear Research), o Svalbard Global Seed Vault (Cofre Global de Sementes Svalbard) e as bases científicas na Antártida são provas dessa importante cooperação.

Apesar de parecer distante da realidade da maioria das pessoas, a exploração espacial ao longo de quase 70 anos trouxe frutos importantes para o dia a dia, como alimentos desidratados, métodos de purificação de água, ferramentas alimentadas por baterias e outras mais famosas, como GPS e métodos de telecomunicação.  

 

Referências e Para saber mais:

Estação Espacial Internacional 

Inteligência artificial na astronomia e exploração espacial 

Como a exploração espacial afeta a vida das pessoas? 

Pesquisas da Estação Espacial Internacional