Descubra como diferentes ações provocam mudanças no enredo do famoso jogo de aventura

 

21 de julho de 2026

 

 

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Por Vitória Stefany da Silva,

estudante de Artes Visuais pela UFMG e bolsista de comunicação no Espaço do Conhecimento UFMG

 

No jogo Life is Strange, lançado em 2015 pela Dontnod Entertainment, somos estimulados a deduzir que pequenas ações podem gerar grandes consequências. Esse fenômeno gira em torno da teoria do caos e do efeito borboleta.

Imagine o seguinte cenário: um homem decide sair de casa para buscar sua esposa no restaurante onde ela trabalha. No caminho, acaba sofrendo um acidente fatal. Nesse cenário trágico, se ele não encontrasse as chaves ou optasse por outro meio de locomoção, o acidente não teria acontecido e ele seguiria sua rotina habitual, embora com outras consequências decorrentes da não ocorrência desse evento inicial. Perceba como pequenas mudanças podem alterar completamente um resultado. Essa é a ideia por trás do efeito borboleta.

Em um viés científico, quando Isaac Newton formulou suas leis da mecânica clássica, estabeleceu uma base para uma visão determinista e previsível do universo. Segundo essas leis, se conhecemos completamente o estado inicial de um objeto, como sua posição, velocidade e as forças que atuam sobre ele, é possível prever seu comportamento futuro. Levando essa ideia ao extremo, Pierre-Simon Laplace apresentou, em 1814, no Essai philosophique sur les probabilités, um experimento mental que mais tarde ficou conhecido como “Demônio de Laplace”. Segundo essa hipótese, se existisse uma inteligência capaz de conhecer, em um determinado instante, a posição e a velocidade de todas as partículas do universo, bem como todas as forças que atuam sobre elas, seria possível calcular com precisão absoluta todo o passado e todo o futuro do universo.

“Podemos considerar o presente estado do universo como resultado de seu passado e a causa do seu futuro. Se um intelecto em certo momento tiver conhecimento de todas as forças que colocam a natureza em movimento, e a posição de todos os itens dos quais a natureza é composta, e se esse intelecto for grandioso o bastante para submeter tais dados à análise, ele incluiria numa única fórmula os movimentos dos maiores corpos do universo e também os dos elementos átomos mais diminutos; para tal intelecto nada seria incerto e o futuro, assim como o passado, estaria ao alcance de seus olhos.”

A partir desta hipótese, todas as nossas ações já seriam pré-determinadas, não existindo o livre arbítrio.

 

Demônio de Laplace. (Créditos: Flickr, via Medium PETComp – UNIOESTE Cascavel).

 

Retomando para tempos mais recentes, em 1961, o meteorologista e matemático Edward Lorenz vivenciou, na prática, o princípio que daria origem ao estudo do efeito borboleta. Enquanto realizava mais uma simulação climática, decidiu reiniciá-la a partir de um ponto intermediário, em vez de começar do zero. Para isso, inseriu manualmente no computador os dados correspondentes àquele estágio da simulação. Já acostumado com os resultados das execuções anteriores, passou a acompanhar a evolução esperando obter o mesmo comportamento.

A simulação evoluiu para um resultado completamente diferente do esperado. Inicialmente, Lorenz verificou se havia ocorrido algum erro nos dados inseridos ou no computador em que trabalhava, mas tudo parecia estar funcionando corretamente. Após investigar mais a fundo, percebeu que havia, de fato, uma pequena diferença: os valores utilizados na nova simulação haviam sido arredondados para três casas decimais, em vez de seis. Essa alteração aparentemente insignificante foi suficiente para produzir um resultado completamente distinto. Tratava-se de uma mudança mínima nas condições iniciais, mas capaz de provocar consequências radicais ao longo da simulação. Essa ideia deu origem à metáfora de que o simples bater de asas de uma borboleta poderia gerar uma pequena perturbação na atmosfera e, em uma cadeia de eventos, contribuir para a formação de uma tempestade em outro lugar. Embora esse princípio tenha surgido no estudo de sistemas climáticos, ele ultrapassou os limites da ciência e passou a inspirar diversas obras da cultura pop

 

O efeito borboleta no universo de Life is Strange

Em Life is Strange, somos apresentados, nos primeiros minutos da trama, a uma cena impactante que muda totalmente o decorrer da história. A personagem principal, Max Caufield, tem o poder de rebobinar o tempo e alterar pequenas ações que causam situações maiores e irreversíveis no decorrer do enredo. Essas situações podem ir desde uma planta morrer ressecada por você não se lembrar de regar, ou até não conseguir salvar uma das personagens por não se atentar às informações sobre a vida dela. O simbolismo presente no jogo é uma borboleta que sempre que bate as asas, indicando que uma escolha foi feita e terá um peso na história.

 

Personagem e cenário do jogo Life is Strange. (Créditos: Reprodução/Life is Strange).

 

Já em Life is Strange: Before the Storm, o segundo jogo da saga, os jogadores são desafiados a viver o passado sem poder alterar o futuro. Isso porque agora jogamos com a Chloe, outra personagem que, ao contrário da Max, não pode rebobinar as ações. Somos estimulados a usar argumentos para conseguir alcançar os objetivos da trama, desta vez tendo uma única chance para conseguir alcançá-los. Já sabemos o que acontecerá no futuro e somos desafiados a olhar a história acontecer sem poder influenciar no percurso. Assim, a franquia transforma um conceito científico em uma experiência interativa, mostrando que, na ficção como na vida, decisões aparentemente insignificantes podem desencadear mudanças profundas. Nem sempre é possível prever o alcance de nossas escolhas, mas elas inevitavelmente moldam os caminhos que percorremos.