Quando as tendências se tornam cada vez mais mutáveis, é possível estabelecer um estilo único e autêntico?

 

15 de setembro de 2026

 

 

Por Vitória Stefany da Silva,

estudante de Artes Visuais pela UFMG

 

Por que você está usando a roupa que está usando?”. A pergunta simples que Bella Freud faz aos seus convidados, em seu podcast sobre moda e psicanálise, não trata-se somente de tecidos ou marcas – envolve sua identidade. 

 

Em meio ao ritmo desenfreado de consumo, impulsionado pelo desejo de tornar-se parte de tendências das redes sociais, surge um debate inevitável: estaria o estilo pessoal morrendo? Por que parece tão complicado conciliar ter um estilo “único” com o desejo de fazer parte de uma tendência passageira?

 

Claro, as tendências sempre estiveram presentes em nosso mundo. Ao olharmos para trás, percebemos ciclos na história da moda, como a paixão pelos cloches nos anos 20 e as tão temidas skinny jeans dos anos 2000. A verdadeira questão, portanto, vai além da existência das tendências: diz respeito, sobretudo, a como as microtendências vêm sendo usadas para a criação de estilos rápidos e efêmeros pelas redes sociais, desencadeando uma crise de individualidade. De acordo com Lanier (Lanier, 2018 apud SCIENTIA ET RATIO, 2025):

 

(…) as redes sociais, inicialmente concebidas como espaços de interação pessoal, tornaram-se ambientes controlados por algoritmos publicitários, nos quais os usuários são produtos de um modelo comercial fundamentado na coleta e venda de dados pessoais. Essa estrutura é sustentada por mecanismos que visam captar a atenção e manipular desejos, o que compromete a autonomia decisória dos consumidores.

 

Assim, o consumo exacerbado impulsionado pelo desejo de estar por dentro das microtendências é, em grande parte, sustentado pelo próprio algoritmo que se consome de forma constante. Tudo gira em torno de capturar a atenção, moldar os desejos e influenciar a autonomia para que possa decidir “o que realmente combina com você”. A ânsia por adquirir itens para se inserir em uma nova trend torna-se cada vez mais constante, deixando pouco espaço para escolhas que realmente reflitam quem somos.

 

Estaria a individualidade pessoal desaparecendo?

Na realidade, a crise talvez esteja menos atrelada à sua “extinção” e mais na dificuldade crescente de encontrar algo que realmente o defina. É crucial entender que cultivar um estilo pessoal não implica na obrigação de criar algo único e novo. Trata-se, sobretudo, de autenticidade: vestir-se de forma que reflita quem você é, mesmo que isso dialogue com referências existentes.

 

Imagine o seguinte cenário: você é um artista inserido no modernismo, ainda dedicando-se a dominar o tenebrismo de Caravaggio, quando surge Monet ao lado, revolucionando a pintura com pinceladas marcadas e camadas de cores vibrantes bem aparentes em suas obras com uma proposta totalmente oposta da sua. O desenvolvimento do estilo pessoal não implica descartar tudo o que foi cultivado por todo esse tempo para inventar o inédito; resume-se em valorizar a  individualidade em sua expressão, o seu processo.

 

E é exatamente aqui que o recado consciente de Vivienne Westwood ganha força: “Compre menos roupas e mantenha vestindo as coisas que você realmente escolheu porque amou (…)”. Priorize as peças escolhidas com convicção. Essa postura crítica torna-se uma escolha fundamental sempre que as redes sociais bombardeiam os usuários com produtos desnecessários. 

 

Vale destacar que o desenvolvimento do estilo pessoal não trata-se de seguir e estar por dentro de microtendências constantemente, nem inventar o inédito, mas sim afirmar a sua identidade. Estilo pessoal é o ato de compreender a sua personalidade, conhecer-se profundamente antes de qualquer coisa. Iris Apfel, ícone de estilo, evidenciava que o estilo pessoal é, antes de tudo, refletir a própria individualidade (VOGUE, 2021):

 

O que você diria a alguém que quer aprender a se expressar autenticamente?

Primeiro, eles precisam se encontrar. Você precisa saber quem você é e depois trabalhar nisso. Estilo é uma questão de atitude, atitude, atitude, mas você precisa ter individualidade para ter atitude. Você não pode ser como todo mundo e copiar o que todo mundo está fazendo. Você precisa saber quem você é e se manter fiel a isso, sem ficar mudando de ideia a cada três segundos. Você verá que é um trabalho árduo no começo, mas vale a pena. As pessoas devem celebrar sua originalidade e não querer fazer parte de um rebanho.

 

Iris Apfel. (Créditos: Reprodução/Instagram).

 

Referências

What if my personal style isn’t so personal.

Iris Apfel Has A Century’s Worth of Advice on How To Define Your Own Style.

De que maneira a moda e a arte se conectam?

Você precisa de um Labubu? O consumismo nas redes sociais