Saiba mais sobre o musical que reconta histórias antigas para abordar as questões sociais do presente

 

28 de julho de 2026

 

 

Por Millena Gonçalves, estudante de Museologia e estagiária do Núcleo de Ações Educativas e Acessibilidade do Espaço do Conhecimento UFMG

 

Hadestown, originalmente lançado em 2010, é um concept album (álbum conceitual) da cantora e compositora norte-americana Anaïs Mitchell que foi adaptado para os palcos de teatro musical em maio de 2016. Seu enredo revisita duas histórias gregas conhecidas: Orfeu e Eurídice, e Hades e Perséfone, para construir uma reflexão sobre o tempo que se distancia da lógica linear e progressiva. A obra organiza sua narrativa a partir de uma temporalidade cíclica, utilizando histórias antigas para pensar a persistência de estruturas sociais e afetivas no presente.

Antes de chegar aos palcos da Broadway, Hadestown surgiu como um álbum conceitual independente criado por Anaïs Mitchell. Essa origem musical é importante porque influencia diretamente a estrutura narrativa da obra, de repetição de refrões e motivos melódicos que reforçam a sensação de circularidade temporal presente no musical. Diferente de peças concebidas inicialmente para o teatro, Hadestown nasce da música e do ato de narrar por meio da canção, aproximando-se de tradições orais e populares nas quais histórias são constantemente retomadas, modificadas e compartilhadas coletivamente. 

O musical revisita o momento em que Perséfone é levada para o submundo por Hades. A ausência da filha faz com que Deméter, deusa da agricultura e das estações do ano, fique desolada e abandone o cuidado com a terra. Como acordo, Perséfone passa metade do ano no mundo dos vivos, trazendo calor e  florescimento, e a outra metade no submundo, período marcado pelo frio do luto de Deméter, estabelecendo o ciclo das estações. Já na outra história, Orfeu é um poeta capaz de encantar até mesmo os deuses, que se apaixona por Eurídice, ninfa dos bosques e das florestas. Após a morte de Eurídice, Orfeu desce ao submundo para buscá-la e consegue a permissão de Hades para levá-la de volta, sob a condição de não olhar para trás. No entanto, ele olha e a perde para sempre. Ao articular essas duas narrativas, Hadestown constrói algo que parece, ao mesmo tempo, distante e extremamente atual, nos levando a refletir por que essas histórias continuam sendo contadas, relidas e adaptadas, e por que ainda fazem sentido mesmo após tanto tempo. 

O desenvolvimento do musical ocorre em um contexto marcado pelas consequências da crise econômica de 2008, com início nos Estados Unidos (EUA), fator que atravessa a construção estética e política, especialmente em sua representação do trabalho, da pobreza e da desigualdade social. Assim, os contos são adaptados em um cenário inspirado em Nova Orleans e o submundo assume a forma de um ambiente industrial, marcado por trabalho pesado e repetitivo, alienação e controle dos trabalhadores. Nesse cenário, a obra estabelece paralelos com questões contemporâneas, como o capitalismo, a exploração do trabalho e as crises ambientais, incorporando-as a estruturas narrativas muito mais antigas.

 

Cena do espetáculo Hadestown. Fotografia de Matthew Murphy. (Créditos: BroadwayWorld, 2025).

 

Em Hadestown, o submundo deixa de ser apenas o lar dos mortos e transforma-se em uma indústria marcada pela vigilância, pela produtividade incessante e pela perda de individualidade. Os trabalhadores operam de maneira mecanizada, repetindo movimentos e canções em um fluxo contínuo de produção. A obra aproxima o inferno não da punição sobrenatural, mas da alienação cotidiana produzida pelo trabalho industrial e pela exploração. Hades, por sua vez, assume a figura de um empresário e administrador paranoico, obcecado pela construção de muros e pela ideia de segurança e liberdade, se assemelhando a dinâmicas atuais, especialmente em relação a precarização do trabalho, à lógica produtivista e ao medo constante de escassez.

A adaptação também altera significantemente a figura de Eurídice. Enquanto em versões tradicionais do conto sua morte frequentemente ocorre de maneira acidental e pouco desenvolvida, em Hadestown sua ida ao submundo é resultado da fome, do frio e da precariedade. Eurídice não é conduzida ao inferno por destino trágico ou intervenção divina, mas pelas condições materiais às quais está submetida. Essa mudança acaba provocando uma reflexão sobre vulnerabilidade social e sobrevivência, ao invés de ser uma tragédia puramente romântica.

 

Cena do espetáculo Hadestown. Fotografia de Matthew Murphy. (Créditos: BroadwayWorld, 2025).

 

Entretanto, o elemento mais interessante talvez esteja na própria organização da narrativa. A história não é apresentada como um evento único, mas como algo que já aconteceu repetidas vezes e que certamente acontecerá de novo. Diferente da visão progressiva do tempo, a temporalidade da obra se aproxima de uma espiral, na qual os personagens caminham para frente, mas as estruturas de opressão e os erros os trazem de volta ao ponto de partida. Os personagens têm consciência disso e o espetáculo assume essa repetição como uma parte central e explícita, sobretudo por meio de seu narrador: Hermes, o deus mensageiro. 

Além dele, as Moiras (ou Parcas), desempenham um papel fundamental nessa construção: elas reforçam a imutabilidade das circunstâncias às quais os personagens são submetidos e a sensação de inevitabilidade, funcionando quase como uma materialização da dúvida, do destino e das forças que empurram os personagens para decisões já conhecidas. Elas personificam a força do tempo e do destino, sugerindo que a mudança pode ser ilusória dentro de um sistema industrial sustentado pela repetição. Sua presença intensifica a tensão entre escolha e determinação, como se a história estivesse sempre sendo conduzida para o mesmo desfecho. Essa lógica aparece de forma explícita na música Road to Hell (Reprise), quando Hermes afirma: “É uma canção triste, mas cantamos mesmo assim. Porque é o seguinte: saber como termina e ainda assim começar a cantar de novo, como se dessa vez pudesse dar certo. Aprendi isso com um amigo meu” (Mitchell, 2019, faixa 39, tradução livre da autora), marcando o recomeço da narrativa e evidenciando a consciência do fim, mesmo diante da insistência em contá-la.

A metalinguagem em Hadestown manifesta-se novamente na figura de Hermes. Ao dizer que “vamos cantar de novo e de novo”, ele quebra a “quarta parede” da narrativa. O musical deixa de ser apenas sobre Orfeu e os deuses e passa a ser sobre o ato de contar a história deles. Essa estrutura também se relaciona com a própria natureza do teatro musical: a cada apresentação, a obra é revivida, reforçando a ideia de repetição. O público é convidado a ser cúmplice: mesmo sabendo que Orfeu olhará para trás, há a possibilidade de acreditar na música dele a cada nova performance. A trajetória de Orfeu e Eurídice, então, deixa de ser apenas uma tragédia individual e passa a funcionar como um ciclo de tentativas que falharam, mas que continuam sendo refeitas. Há uma tensão constante entre inevitabilidade e esperança, entre saber o fim e, ainda assim, desejar que ele seja diferente. Nessa adaptação, insistir em contar essa história novamente parece quase um gesto de resistência, em que os personagens, os músicos e o público escolhem acreditar mais uma vez.

 

Cena do espetáculo Hadestown. Fotografia de Matthew Murphy. (Créditos: BroadwayWorld, 2019).

 

Talvez seja justamente por isso que Hadestown continue se conectando com tantas pessoas diferentes ao redor do mundo. O musical, embora inspirado em histórias antigas, conversa diretamente com questões dos dias atuais: trabalho exaustivo, desigualdade, medo do futuro, crises ambientais e a dificuldade de manter a esperança em tempos difíceis. E pode ser por isso também que tantos fãs brasileiros estejam acompanhando os rumores sobre uma futura montagem nacional do musical. Considerando o diálogo com temas sociais tão presentes na realidade brasileira, imaginar uma adaptação nacional é pensar em possibilidades muito interessantes de aproximação entre o musical e o público daqui.

Enquanto isso, as músicas de Hadestown seguem disponíveis em plataformas como YouTube Music, Spotify e Apple Music. Uma versão filmada oficial do espetáculo (o chamado pro-shot) foi anunciada recentemente e chegará aos cinemas norte-americanos em julho de 2026. Ainda não há confirmação sobre possíveis expansões da exibição para outros países ou sobre sua chegada aos catálogos de streaming, mas, como o próprio musical ensina, é importante não abandonar a esperança. Afinal, o ato de recontar essa e tantas outras histórias antigas sugere que, mesmo dentro da repetição, existe espaço para a expectativa, para a mudança e para imaginar novos desfechos. 

 

Referências

LAPERTOSA, L. R. A modernização do mito e as figurações de Orfeu e Eurídice: Hadestown, música popular e distopia capitalista. 2025. 87 f. Monografia (Graduação em Letras). Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal de Ouro Preto, Mariana, 2025.

MITCHELL, A. “Road to Hell (Reprise)”. Em: Hadestown: The Myth. The Musical. 2019.

SANTOS, A. G. C. dos S. Hadestown e o mundo do trabalho. Revista Paideia do Colégio Estadual do Paraná, [S. l.], v. 27, n. 1, 2025. Disponível em: <https://www.seer-ojs.pr.gov.br/index.php/paideia-cep/article/view/240\>. Acesso em: 16 abr. 2026.

ZUCCHETTO, J. C. A arte como objeto político: uma análise dos aspectos políticos e culturais do musical “Hadestown”. 2022. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Psicologia). Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2022.