Uma breve apresentação da importância de registrar e preservar nossa própria história

 

 

30 de junho de 2026

 

Por Eve Reis, 

estudante de Letras da UFMG e estagiária do Núcleo de Astronomia do Espaço do Conhecimento UFMG

 

“Às vezes você precisa criar sua própria história. The Watermelon Woman é ficção.”

Cheryl Dune, 1996. 

 

No filme The Watermelon Woman, seguimos Cheryl em sua busca por resquícios da vida de Fae Richards, uma atriz cuja trajetória misteriosa e seus registros, e ainda mais a falta deles, permeiam toda a narrativa. Movida por essa ausência, Cheryl busca reconstruir a imagem da atriz, criando ao final uma biografia íntima de Fae, reunindo os registros encontrados para finalmente contar sobre a vida de uma atriz negra lésbica em Hollywood nos anos 30 e 40.

 

O longa nos apresenta um elemento real e bastante comum dentro da cultura lésbica: os arquivos de fotos, vídeos e documentos históricos. Com o objetivo de preservar o passado, lésbicas, como um grupo que vive em uma constante luta por reconhecimento, respeito e acesso aos direitos humanos, mantêm suas vidas, experiências e existência registradas, marcando sua presença no mundo a partir de sua própria visão estética e artística. Em The Watermelon Woman, vemos a importância desses registros na frustração de Cheryl, ao perceber que a vida e os feitos de Fae Richards se encontram dispersos e contraditórios, dando brecha para múltiplas narrativas serem criadas sobre a atriz. 

 

Uma frustração parecida pode acontecer caso, hoje em dia, alguém tente procurar arquivos e coleções lésbicas. Infelizmente, muitos dos arquivos atuais, em especial os nacionais, têm falta de recursos, visibilidade e apoio para se manter. Parte do que faz um arquivo ser tão importante é sua capacidade de manter vivo o passado e de construir, por meio de seu conteúdo, uma memória coletiva. Essa memória age como “dispositivo na criação de laços, de um senso de hereditariedade, assume feição de resistência às tentativas de apagamento” (Silveira-Barbosa, Oliveira, 2024).

 

Conhecer, promover e apoiar arquivos lésbicos é também um ato de resistência. Preservar e valorizar os registros que compõem nossa memória coletiva é fundamental, pois eles carregam histórias de luta, sofrimento, conquistas e, principalmente, de felicidade ao percorrer um mundo que tantas vezes buscou apagar essas existências.

 

Então, como parte deste ato de resistência, aqui estão alguns arquivos e coleções lésbicos para você conhecer:

 

Arquivo Lésbico Brasileiro

(https://www.arquivolesbicobrasileiro.org.br/)

O Arquivo Lésbico Brasileiro foi fundado em 2020, seguindo o objetivo de compartilhar e preservar registros, documentos e outros materiais de maneira gratuita e digital. 

 

Lesbian Herstory Archives 

(https://lesbianherstoryarchives.org/)

O Lesbian Herstory Archive é um arquivo de base estadunidense fundado em 1974, quando Joan Nestle e Deborah Edel fizeram de seu apartamento um arquivo físico e aberto. Hoje, realocado em um espaço mais amplo e menos doméstico, o LHA disponibiliza tanto fisicamente quanto digitalmente coleções, documentos e mídias de lésbicas dos Estados Unidos, mas também de outros lugares pelo mundo. 

 

Letters from Ger

(https://new.express.adobe.com/webpage/I4zt8m2dZyGJr/)

Letters from Ger é uma exposição digital disponibilizada pelo Queer Indonesian Archive, destacando junto de cartas e documentos digitalizados a vida de Ger van Braam, a primeira lésbica a estar na capa de uma revista lésbica nos EUA. Reunindo suas cartas, revistas editadas por ela, fotos e documentos de sua vida, a exposição cria um conjunto biográfico de seus feitos e vida.

 

Exploring Black and Asian American Lesbian Archives: Aché and Phoenix Rising

(https://aaww.org/exploring-black-and-asian-american-lesbian-archives-ache-and-phoenix-rising/)

O artigo “Exploring Black and Asian American Lesbian Archives: Aché and Phoenix Rising” age tanto como uma contextualização histórica dos anos 80 e 90, a partir dos jornais Aché e Phoenix Rising, tanto como coleção de referências dos dois jornais dos anos que marcaram a interseção entre lésbicas negras e asiáticas americanas, suas diásporas e nuances. 

 

Por fim, neste último dia do mês do orgulho, indico as redes sociais e álbuns de fotos de lésbicas que você conheça, pois são também pequenos e individuais arquivos da vida lésbica, que registram seus dias, suas lutas e sua própria história. 

 

Referências

Silveira-Barbosa, P., & Oliveira, A. S. de. (2024). Arquivo Lésbico Brasileiro (ALB): : o “levante da memória” e a construção de uma rede dissidente. Cadernos De Gênero E Diversidade, 9(4).

Monego, S.; Guarnieri, V. (2012). “A fotografia como recurso de memória.” Revista Cadernos do Ceom 25.36 : 71-87.

Cvetkovich, Ann. (2003). “An Archive of Feelings: Trauma, Sexuality, and Lesbian Public Cultures.” Duke University Press. Pg. 269-271.

Arquivo Lésbico Brasileiro.

Lesbian Herstory Archives.

Letters from Ger. Queer Indonesian Archive.

Exploring Black and Asian American Lesbian Archives: Aché and Phoenix Rising.