Conheça a história dos nomes das crateras de Encélado, a lua de Saturno que tem origem na literatura oriental

 

14 de julho de 2026

 

 

Por Eduardo Pinheiro Ferreira,

graduando em Letras pela UFMG e estagiário de astronomia no Espaço do Conhecimento UFMG

 

Dentre o grande jardim de luas de Saturno, a sexta maior entre elas é chamada Encélado. Batizada com o nome de um gigante da mitologia grega, essa lua foi descoberta por William Herschel em 1789 e é coberta por geleiras e fissuras, orbitando o mais externo, amplo e denso dos anéis. Encélado possui uma geologia bem diversa, algo que começou a ser observado após a passagem da Voyager 2 nos anos 1980, e que foi mais explorado após a passagem da sonda Cassini em 2008, quando foi possível observar com mais detalhes a natureza de Encélado.

 

Foto tirada pela sonda Cassini de Encélado, em 2008, após se aproximar cerca de 25 quilômetros da superfície da lua. (Créditos: NASA/JPL/Instituto de Ciências Espaciais).

 

A partir dessas missões, puderam ser observados e estudados, com mais ênfase, detalhes de sua geografia e composição. Sabe-se hoje que sua superfície, notavelmente lisa, a torna o corpo celeste mais reflexivo do Sistema Solar. Cassini também ajudou a revelar um grande tesouro debaixo do seu manto de gelo, um gigantesco oceano de água salgada líquida. Essa água misturada com partículas de gelo e compostos orgânicos simples, como amônia, é expelida em jatos que chegam a uma velocidade de aproximadamente 400 metros por segundo, formando uma névoa que se estende ao espaço. Ao fazer isso, parte do material ejetado volta para Encélado e outra parte escapa para formar o vasto anel E de Saturno, onde a lua se localiza.

 

Jatos lançando gelo e vapor de água de vários pontos próximos do polo sul de Encélado, lua de Saturno. (Créditos: ASA/JPL-Caltech/Space Science Institute).

 

Com as pesquisas proporcionadas pela passagem da sonda em 2008, possibilitando uma melhor compreensão de sua tênue atmosfera, Encélado se tornou um cenário promissor para a descoberta de vida fora da Terra. Segundo Linda Spilker, cientista do projeto Cassini, “diversas descobertas ampliaram nossa compreensão sobre Encélado, incluindo a pluma expelida de seu polo sul; hidrocarbonetos na pluma; um oceano global salgado e fontes hidrotermais no fundo do mar”. E complementa que todos estes estudos “apontam para a possibilidade de um mundo oceânico habitável muito além da zona habitável da Terra. Os cientistas planetários agora têm Encélado para considerar como um possível habitat para a vida”.

 

Dentre as outras características da sua superfície, podem ser achadas longas e estreitas depressões, conhecidas como fossas, faixas de relevo baixas e sinuosas, planícies, sulcos, penhascos e crateras, as quais têm seus nomes inspirados em diversos personagens d’As Mil e Uma Noites.

 

À esquerda, a cratera Aladdin em Encélado. À direita, a cratera Ali Baba em Encélado. Mosaico feito a partir das fotografias tiradas pelas sondas Voyager 2 e Cassini. (Créditos: NASA/JPL/Space Science Institute).

 

À esquerda, a cratera Shahryar (meio) e Sindbad (acima) em Encélado. À direita, formação conhecida como “Homem de Neve de Saturniano”, composta pelas crateras Dinardzad (embaixo), Sharadzad (meio) e Al-Haddar (acima), fotografadas ao Polo Norte de Encélado pela sonda Cassini. Mosaico feito a partir das fotografias tiradas pelas sondas Voyager 2 e Cassini. (Créditos: NASA/JPL/Space Science Institute).

 

Presente na cultura ocidental desde o século 18, as histórias d’As Mil e Uma Noites circulam nas costas de camelos e na mente de beduínos por uma porção de séculos no Oriente, desde a Turquia até os portos da China. Há muito tempo, estas narrativas entretêm diversas pessoas conforme eram contadas em praças ou para sultões em grandes palácios, reunindo diversos temas e situações, indo do filosófico ao nonsense. Em 1885, o explorador e acadêmico inglês Richard Francis Burton publicou a edição mais completa destes livros. Além de ser usada pela União Astronômica Internacional (IAU) para catalogar e nomear as formações rochosas de Encélado, essa versão se tornou a base para as futuras traduções e expandiu o nosso conhecimento das culturas para além de civilizações clássicas, como Grécia e Roma.

 

Duas páginas de um manuscrito, datado entre 1450 e 1593, contendo histórias que mais tarde apareceram em As Mil e Uma Noites. (Créditos: Bibliothèque nationale de France [BnF]).

 

As histórias dos livros começam quando um sultão, chamado Shahryar, descobre a traição de sua esposa. Após matá-la junto com o amante, decide se casar toda noite com uma jovem diferente e matá-la ao amanhecer para que ela não tenha oportunidade de traí-lo. A partir disso, o reino de Shahryar entra em um estado de medo e declínio da espiritualidade. É nesse cenário que surge a grande heroína, Sharadzad, filha do grão-vizir (primeiro-ministro do sultão), que decide se apresentar como pretendente à cônjuge de Shahryar, na esperança de acabar com o sofrimento do reino. Para sobreviver, Sharadzad, faz um acordo com a sua irmã mais nova, Dinardzad, no qual toda noite, antes do sultão dormir, a irmã entrará no quarto do casal, dirá que não consegue dormir e pedirá para Sharadzad contar uma história. Sabendo que o sultão estará ouvindo também, no ponto mais crucial da narrativa, Sharadzad para de falar e diz que continuará a contar na próxima noite, assim, salvando sua vida e das demais mulheres do reino.

 

À esquerda, Sharadzad e o sultão, 1880. (Créditos: Ferdinand Keller (1842-1922). À direita, ilustração de Sharadzad, Shahryar e Dinardzad para As Mil e Uma Noites da editora Ford and Longman, 1898. (Créditos: Henry Justice Ford (1860-1947).

 

Apesar de serem muitas as narrativas d’As Mil e Uma Noites, não são realmente mil e uma histórias, porque muitas delas se passam em mais de duas noites e se desdobram em outras enredos. Muitas fábulas maravilhosas que conhecemos hoje vem deste conjunto de histórias, como é o caso de Ali Baba, Sindbad e Aladdin, que não é árabe, como apresentado no filme animado de 1992, mas chinês. Além destas, muitas histórias que existem hoje sobre gênios, sejam saídos de lâmpadas, amigáveis ou trapaceiros, são inspiradas nestes livros.

 

À esquerda, “Aladdin a saudou com alegria”. Ilustração d’As Mil e Uma Noites para a edição da Penn Publishing Company (1928). (Créditos: Virginia Frances Sterrett (1900-1931). À direita, a quinta viagem de Sindbad, o marinheiro. Ilustração d’As Mil e Uma Noites para a edição de tradução em francês por Antoine Galland (1646-1715), 1865. (Créditos: Gustave Doré (1832-1883). 

 

À esquerda, Sindbad e o Gênio. Ilustração para o livro Contos d’As Mil e Uma Noites, de Laurence Housman, pela editora Hodder and Stoughton (1907). (Créditos: Edmund Dulac (1882-1953). À direita, Cassim, irmão de Ali Baba, 1909. (Créditos: Maxfield Parrish [1870-1966]).

 

Diversas histórias criadas por Sharadzad estão agora ressignificadas neste pequeno ponto à 1,7 bilhão de km da Terra, no qual, talvez um dia, podemos encontrar vida. Este fato demarca que a literatura, junto com as ciências naturais, continua sendo um caminho importante para a exploração do espaço e nos fornece o repertório poético e imaginativo necessário para nomear o desconhecido. Provando, assim, que a busca pelo saber científico e o fascínio pela narrativa correm em conjunto. Nomear o que está ao nosso redor é o que cria o mundo e este ato nos faz contar histórias.



Para saber mais

Blog do Espaço | Pelos anéis de Saturno

Blog do Espaço | Aprenda mais sobre as luas do nosso Sistema Solar 

Descobrindo o Céu | Vida extraterrestre no Sistema Solar?

Descobrindo o Céu | Luas do Sistema Solar

 

Referências

Sites:

Cassini em Encélado.

Categories (Themes) for Naming Features on Planets and Satellites.


Livros:
JAROUCHE, M. M. (trad.). As mil e uma noites. Editora Biblioteca Azul, São Paulo, 2005.

SAID, E. Sir Richard Francis Burton. Tradução de Denise Bottmann. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 1991.