Universos fantásticos que contribuem para a comunicação, a empatia e a interação

 

03 de março de 2026

 

 

Por Samuel Lacerda,

estudante de Música e bolsista do Núcleo de Comunicação do Espaço do Conhecimento UFMG

 

Se você acompanha o Blog do Espaço, provavelmente já deve ter lido o nosso texto sobre a Origem do RPG e descoberto como essa modalidade de jogos envolve, sobretudo, a interpretação e o uso da imaginação. Hoje voltaremos a esses universos fantásticos para abordar de que modo a prática do RPG, cada vez mais popular entre públicos de diferentes idades, tem sido utilizada como recurso terapêutico e também no aprendizado de estudantes.

O universo dos RPGs vai muito além dos estereótipos de masmorras, dragões, guerreiros e magos, e do cenário medieval ao qual costuma ser associado. As sessões, conduzidas por mestres que acompanham jogadores, abrem espaço para diversas temáticas, desde mundos assustadores, civilizações futuristas ou até mesmo um escritório cotidiano. A mágica acontece quando qualquer cenário fictício passa a ser adaptado e interpretado entre as pessoas. 

Há um bom tempo, terapeutas e educadores já haviam percebido a relação que esses jogos estabelecem com o desenvolvimento dos sujeitos, seja no aprendizado escolar ou no autoconhecimento.

“Ao escolherem a vivência de um personagem heróico e, então, determinado tipo jogo, os sujeitos respondem a uma necessidade pessoal de desenvolvimento, pois optam por um personagem representativo da ampliação de consciência e fortalecimento egóico, e um jogo que permite trabalhar a etapa da jornada heróica na qual se encontram, de modo a poderem evoluir em seus processos de individuação. Desse modo, a escolha e vivência de jogos de RPG viabilizam o progressivo caminhar rumo a si mesmo” (Guimarães, 2010, p. 5).

 

Uso de tabuleiro de RPG no ambiente escolar. (Créditos: Paulo Fehlauer/Instituto Rodrigo Mendes).

 

Terapeutas também utilizam o RPG como ferramenta de socialização para jovens com Transtorno do Espectro Autista (TEA). As sessões unem imaginação, acolhimento e cuidado, interpretando as subjetividades dos pacientes e criando um ambiente seguro para cada um. Cada sessão estimula autonomia, criatividade e expressão emocional.

Outra aplicação vem de Germano Henning, psicólogo e mestre pela Universidade de São Paulo (USP), que fundou, em 2013, o Grupo D20. A iniciativa utiliza o RPG para promover a psicoterapia coletiva, ajudando crianças, adolescentes e adultos a desenvolverem competências como comunicação e empatia em um ambiente colaborativo.

Chegando na atmosfera educacional, os benefícios do RPG também não ficam para trás. Ao serem orientados por profissionais instruídos, os alunos conseguem aprender desde a literatura e filosofia até as ciências exatas. Um bom exemplo é o de Franciela Zamariam, doutora e mestre em Estudos de Linguagens pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), que realizou uma pesquisa sobre a relação de adolescentes com a leitura. Os depoimentos dos alunos confirmaram que as leituras impostas e as provas sobre os livros só os afastavam ainda mais da literatura, fazendo com que memorizassem informações sobre o enredo e as personagens, ao invés de compreendê-las. Como sugestão, a maioria dos estudantes entrevistados afirmou que a leitura de obras literárias poderia ser feita de modo mais dinâmico e criativo, na própria sala de aula. E aí entra o RPG, ampliando as possibilidades criativas da leitura!

 

Projeto de RPG na Escola Técnica Estadual (Etec) de Santa Fé do Sul (SP), coordenado pelo professor José Paulo Codinhoto. (Créditos: José Paulo Codinhoto/G1).

 

Os RPGs vêm se tornado algo cada vez mais popular entre públicos de todas idades e retomar essa atividade lúdica tão presente na infância traz diversos benefícios. Ficou curioso para viver novas aventuras? Então, prepare sua espada e escudo, ou melhor… sua caneta e papel e embarque nessa fantasia!

 

Para saber mais

GUIMARÃES, P. P. V. RPG S Sagas de rpgistas: um estudo junguiano acerca do encontro com o herói via Role Playing Games. 2010. 237 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2010.

ZAMARIAM, F. S. Cartas à mesa: o ensino da leitura literária através do RPG. 2018. 180f. Dissertação (Mestrado em Estudos da Linguagem) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2018.

Grupo D20.