Conheça o mais novo telescópio espacial que irá expandir nossa compreensão do universo!
08 de setembro de 2026

Por Nathalia N. J. Fonseca,
Doutora em Física e Assessora do Núcleo de Astronomia do Espaço do Conhecimento UFMG
Em 30 de agosto de 2026, às 8h26 (horário de Brasília), um novo telescópio foi lançado ao espaço, a bordo de um foguete Falcon Heavy da SpaceX, a partir do Centro Espacial Kennedy, na Flórida: Nancy Grace Roman, o primeiro telescópio espacial a receber o nome de uma cientista mulher.
Nancy Grace Roman (1925–2018) foi uma pioneira da astronomia espacial moderna que tornou os telescópios espaciais uma realidade. Ela se juntou à equipe da NASA no início de 1959, seis meses após sua fundação, e logo se tornou a primeira chefe de astronomia e a primeira mulher a assumir uma posição executiva na organização. Parte de seu trabalho na NASA incluía o planejamento de um programa de satélites e foguetes, além de administrar um importante programa de bolsas de pesquisa para apoiar a comunidade astronômica.

Nancy Grace Roman no Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA por volta de 1972. (Crédito: NASA)
Ao longo de sua trajetória, a Dra. Nancy Grace Roman foi uma importante defensora da inclusão das mulheres nas ciências. Provavelmente ela ficaria muito feliz em saber que muitas mulheres estão envolvidas no planejamento, lançamento e nas futuras pesquisas que serão feitas com o telescópio espacial que leva seu nome. Entre elas está uma brasileira, a Dra. Stela Ishitani Silva, que se formou no Bacharelado em Física na UFMG e continuou seus estudos obtendo o título de Mestrado e Doutorado em Física pela Catholic University of America. Atualmente ela é cientista permanente da Infrared Processing and Analysis Center (IPAC), sediado no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), e faz parte do projeto do telescópio. Você pode conhecer mais sobre o percurso dela na ciência no episódio especial do Pílulas do Conhecimento “Da UFMG à NASA: Stela Ishitani”.
Um dos maiores desafios da carreira da Dra. Roman foi conseguir a aprovação do Telescópio Espacial Hubble pelo Congresso dos EUA, o primeiro telescópio óptico de grande escala em órbita no espaço. Foi por meio de seu trabalho nessa missão que ela foi apelidada de “mãe do Hubble” por seus colegas. Após mais de 30 anos em funcionamento, o Hubble revolucionou e continua ampliando o nosso conhecimento sobre o cosmos. Mas ainda há muito mais a ser descoberto, provavelmente muitos fenômenos e objetos que nem sequer imaginamos. É aí que o telescópio espacial Roman entra. Seu espelho primário tem 2,4 metros de diâmetro, o mesmo tamanho do espelho primário do Hubble, mas possui um campo de visão 100 vezes maior. Isso é possível porque o espelho principal do Roman é mais curvo, seu espelho secundário está mais próximo e sua câmera principal é maior. Assim, ele fornecerá imagens em infravermelho com a mesma qualidade que as do Hubble, mas registrando mais do universo de uma só vez, permitindo a descoberta de objetos e eventos cósmicos raros que, de outra forma, poderiam passar despercebidos. Quando o Roman encontrar algo intrigante, outros observatórios e telescópios espaciais podem entrar em ação e observar esses astros e fenômenos mais detalhadamente.

Comparação entre as áreas do céu que os telescópios espaciais Hubble (pequeno quadrado ao centro) e Roman (região maior demarcada em volta) conseguem cobrir com uma única observação. Ao mirar na direção dos Pilares da Criação na Nebulosa da Águia, o Hubble só consegue ver os pilares, enquanto o Roman pode ver simultaneamente grandes partes da nebulosa ao redor. Crédito: L. Hustak (STScI)
Além de seu amplo campo de visão, será possível mudar a mira do telescópio Roman de uma região do céu para outra rapidamente, já estando pronto logo em seguida para fazer o próximo registro. Isso possibilitará aos astrônomos realizarem estudos extensos de forma muito eficiente. Por exemplo, uma pesquisa que levaria um mês para o Roman obter todas as imagens, com o Hubble demoraria um século. Todas as características excepcionais desse novo telescópio permitirão detectar e estudar galáxias do início do Universo, buscar exoplanetas potencialmente habitáveis e fornecer respostas para algumas das questões mais fundamentais da astrofísica, como a natureza da matéria escura e da energia escura.
Ao observar o centro da nossa galáxia, o telescópio Roman irá monitorar a intensidade da luz proveniente de milhões de estrelas ao longo do tempo, podendo assim descobrir mais de 100 mil exoplanetas, incluindo tipos nunca antes vistos. Ele também será capaz de obter imagens diretas de planetas semelhantes aos do Sistema Solar, além de medir pela primeira vez as propriedades dos chamados sub-Netunos ou super-Terras — objetos que outras missões mostraram ser os planetas mais comuns em nossa galáxia, mas que não existem em nosso próprio sistema solar.
Sabemos que a matéria escura e a energia escura existem apenas por seus efeitos sobre a matéria comum, que conseguimos observar. No entanto, esses dois componentes misteriosos constituem 95% do universo. Ao analisar as formas de milhões de galáxias, o telescópio Roman ajudará os astrônomos a mapear com precisão a distribuição de matéria escura no cosmos. O monitoramento de uma grande área do céu pelo Roman também permitirá a detecção de dezenas de milhares de supernovas, usadas pelos astrônomos para medir distâncias cósmicas. A partir delas, é possível medir com precisão a posição e a distância das galáxias, o que permitirá criar um mapa 3D do universo e observar como ele muda em grandes escalas ao longo do tempo. Além disso, os astrônomos poderão medir como o nosso universo se expandiu ao longo do tempo, ajudando a desvendar a natureza e a evolução da energia escura, que parece estar acelerando a expansão do Universo.

A construção do Telescópio Espacial Nancy Grace Roman foi finalizada em 25 de novembro de 2025. (Crédito: NASA/Jolearra Tshiteya)

Um foguete Falcon Heavy da SpaceX foi lançado com o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman a bordo em 30 de agosto de 2026, a partir do Complexo de Lançamento 39A, no Centro Espacial Kennedy da NASA, na Flórida. (Crédito: NASA/Joel Kowsky)
O telescópio Roman levará cerca de três meses para chegar a sua posição final, a 1,5 milhão de quilômetros de distância da Terra. Até lá, o hardware e os instrumentos científicos do Roman serão testados e calibrados para garantir que ele esteja pronto para sua estreia. Todos estão na expectativa para ver as primeiras imagens gigantescas do universo nunca antes vistas e descobrir fenômenos inesperados que desafiarão nossa compreensão do cosmos.
Referências e para saber mais: