Descubra como grandes autores usaram a ciência para criar histórias de horror e suspense cósmico

 

 

13 de outubro de 2026

 

Por Eduardo Pinheiro Ferreira,

graduando em Letras pela UFMG e estagiário de astronomia no Espaço do Conhecimento UFMG

 

A vastidão escura do cosmos tem espaço para muitas histórias, mas nem todas elas são seguras para o ser humano. Hoje em dia, quando olhamos para o céu, temos acesso a uma diversidade de objetos, desde estrelas à nebulosas e aglomerados, todos mapeados e nomeados. Sabemos, por métodos científicos e empíricos, as rotas de asteroides e meteoros, a natureza de planetas em outros sistemas solares e a temperatura e tamanho de estrelas distantes. 

 

Porém antes de chegarmos a este conhecimento a respeito do universo e sua ordem, muitas tentativas de deduzir o que estava lá fora foram escritas, as quais hoje sabemos serem superstições ou pura fantasia. Entretanto, estas e outras noções, agora acompanhadas da ciência e dos fatos, tiveram um profundo impacto na literatura de Ficção Científica (FC), criando diversas histórias, em que a ciência e a imaginação se voltam para o macabro, o terror e o horror.

 

No século XIX, mesmo antes da humanidade começar a vagar pelo espaço, já se contavam histórias sobre impérios fora da Terra. Em 1898, o autor britânico H. G. Wells, olhando com horror os processos coloniais ingleses, intolerantes e opressivos em diversas nações, resolveu dar aos colonizadores um gosto do próprio remédio em seu livro “A Guerra dos Mundos”. No enredo acompanhamos a invasão da Terra pelos marcianos, superiores em tecnologias e inteligência. Devido à extinção dos recursos de Marte, os invasores pretendem eliminar a humanidade para usufruir dos recursos terrestres, equipados em máquinas com três pés gigantescos e armados com raios de calor e armas químicas. Entretanto, no fim do livro, os marcianos, seres semelhantes a polvos com rosto humanoides, acabam derrotados após entrarem em contato com as doenças terrestres. Além de ter inspirado diversas histórias, o livro de Wells inspirou profundamente Howard Goddard, que teve um papel fundamental na engenharia aeroespacial e na criação de foguetes como conhecemos hoje.

 

À esquerda, primeiro marciano saindo de dentro do cilindro espacial; à direita, tripés de guerra marcianos destruindo uma casa. | Ilustrações para a edição de 1906 de “Guerra dos Mundos”, de H. G. Wells. (Créditos: Henrique Alvim Corrêa).

 

Outra grande contribuição de terror e suspense no espaço de Wells foi o conto “A Estrela”. Aqui, um objeto que pode ser visto na constelação de Leão perto de Regulus, entra no Sistema Solar e, após perturbar a órbita de Netuno, se funde ao planeta em uma explosão colossal. Os astrônomos da Terra veem os dois objetos formarem uma enorme bola de luz errante e descer em direção ao Sol e à Terra. Conforme o estranho e incandescente objeto se aproxima de nós, além de ficar mais brilhante no céu noturno, começa a interagir com a natureza da Terra, provocando tsunamis, erupções vulcânicas, furacões e terremotos em todo o mundo. Quando a bola de fogo está perto de nos atingir, a Lua desvia o seu trajeto até o Sol e lá é consumida. O conto é um marcante esboço da ciência astronômica da época, com diversas referências aos corpos do Sistema Solar e da nossa Galáxia, e do que se acreditava sobre a sua natureza física e o comportamento humano diante uma situação como a descrita.

 

Ilustração de Luděk Marold para o conto “A Estrela”, de H. G. Wells, na edição de 1897. (Créditos: Reprodução/Classics of Science Fiction).

 

Nos Estados Unidos, relatos sobre objetos peculiares vindo em direção a Terra inspiraram uma história muito mais sinistra. Em “A Cor que Caiu do Espaço”, de H. P. Lovecraft, acompanhamos uma família de fazendeiros após a queda de um meteorito de cor estranha aos olhos e à realidade. Alguns dias depois, o solo e as plantações se tornam venenosas, os animais morrem e a família do fazendeiro enlouquece, muitas vezes só com a lembrança da “cor”, a qual não conseguem identificar e que colapsou suas mentes. Lovecraft seria o primeiro a criar uma “mitologia cósmica” em seus livros, mesclando astronomia ao caos, terror e ao desconhecido que habita além da compreensão humana. Suas obras quase sempre tratam de divindades gigantescas e assustadoras relacionados a magia e ciências ocultas do cosmo.

 

Capa da revista Amazing Stories, na qual “A Cor que Caiu do Espaço” foi publicada pela primeira vez em 1927. (Créditos: J. M. de Aragon)

 

Mas apesar de Lovecraft ter inovado a literatura fantástica e inspirado diversas gerações de obras de ficção científica, é importante lembrar que todo o seu trabalho antagoniza diversos tipos de minorias, marcando seu profundo preconceito, reforçando estereótipos racistas e xenofóbicos. Entranhado em seu trabalho, as diversas referências a etnias não-anglosaxãs são descritas como cruéis, primitivas e perigosas, tais como os monstros de suas histórias.

 

Nos anos 50, junto com a Corrida Espacial, extensas e revolucionárias pesquisas do desenvolvimento científico trouxeram para a perspectiva do ser humano um novo entendimento sobre o universo. Estes mesmos conhecimentos influenciaram muitas narrativas de suspense e mistério relacionados ou vindos do espaço. 

 

Escrito em 1968, “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de Arthur C. Clarke, nos faz viajar no tempo até as origens da humanidade, quando um monólito extraterrestre interage com a mente dos antigos primatas e propulsiona nossa evolução cognitiva. Milhares de anos depois, um segundo monólito é encontrado na Lua, emitindo um sinal em direção a Júpiter e Saturno. A partir disso é criada uma exploração para chegar à fonte do sinal, porém a missão é posta em risco quando o computador HAL 9000 se volta contra os astronautas. Ao alcançar a raiz do sinal do monólito, os astronautas passam por um Portal das Estrelas, onde a noção do tempo, espaço e biologia evaporam diante de uma inteligência ancestral incomparável. Tanto a adaptação, dirigida por Stanley Kubrick, como o livro tiveram grande influência nos campos da tecnologia, como na inteligência artificial e no desenvolvimento de celulares, e da exploração espacial. Em 1945, Clarke publicou uma artigo onde propôs o uso de satélites artificiais em órbita geoestacionária para serem utilizados em telecomunicações em escala global. Hoje essa faixa é chamada de “Órbita de Clarke”.

 

À esquerda, Arthur C. Clarke (1917-2008). (Créditos: James Vaughan) | À direita, poster do filme “2001: Uma Odisséia no Espaço” de 1968. (Créditos: Robert McCall/Metro-Goldwyn-Mayer).

 

Já em “O Enigma de Andrômeda”, escrito em 1969 por Michael Crichton, acompanhamos um grupo de cientistas centrados na pesquisa da natureza de um microorganismo alienígena e que infectou uma cidade rural inteira, deixando vivos apenas um bebê e um idoso. Lançada no mesmo ano em que a Apollo 11 chegou na Lua, a obra buscava conscientizar o público e as agências espaciais sobre a importância da Proteção Planetária contra possíveis problemas de saúde provindos de ambiente extraterreno. Em suas obras sobre exploração e ciência, assim como “O Parque dos Dinossauros”, Crichton falou dos limites do controle humano sobre a natureza e a complexidade biológica dos organismos, algo estudado pela astrobiologia.

 

Apesar de todas as narrativas citadas serem ficções, elas ilustram como histórias de terror ou suspense podem aparecer em qualquer lugar e que junto dos monstros, terrores e sustos pode existir uma lógica e um argumento racional. Quando embarcamos nesse tipo de história, parafraseando Rod Serling, entramos “em um ponto intermediário onde a superstição e a ciência coexistem, e situa-se entre o abismo dos medos humanos e o ápice do conhecimento”. Esta é a dimensão da imaginação.

 

Referências

Livros

CLARKE, A. C. 2001: uma odisseia no espaço. Editora Aleph, São Paulo, 2015.

CRICHTON, M. O enigma de Andrômeda. Editora Aleph, São Paulo, 2018.

LOVECRAFT, H. P. A cor que caiu do espaço. Editora Hedra, São Paulo, 2011.

ROBERT, A. A verdadeira história da ficção científica: do preconceito à conquista das massas. Editora Seoman, São Paulo, 2018.

WELLS, H. G. A guerra dos mundos. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2025.

WELLS, H. G. O país dos cegos e outras histórias. Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2014.

 

Sites

Arthur C. Clarke – He never grew up – but he never stopped growing.

Michael Crichton’s Wisdom of Life: Embracing Uncertainty, Curiosity, and the Stories That Shape Us.

Rockets and Robert Goddard.