Conheça a pesquisa de mestrado que buscou compreender como as visitas agendadas podem contribuir para a formação de novos públicos em museus
25 de agosto de 2026

Por Jonathan Philippe Fernandes barboza dos Santos
Assistente do Núcleo de Ações Educativas e Acessibilidade
Mestre em Educação e Docência pelo Programa Promestre da Faculdade de Educação da UFMG
Adriana Mortara Almeida
Professora adjunta da Escola de Ciência da Informação da UFMG
Professora do Programa de Mestrado Profissional da FAE-UFMG
Coordenadora da Rede de Museus e Espaços de Ciências e Cultura da UFMG
Quem são os públicos que visitam museus? Como esses públicos se reconhecem nas instituições museais? E como eles se transformam em um público contínuo desses lugares?
As pesquisas de público realizadas no Espaço do Conhecimento UFMG mostram que o público espontâneo que visita o museu é um público predominantemente feminino, de alta renda, e alta escolaridade, e que reside em regiões de alta concentração de renda na cidade de Belo Horizonte. Diante desse cenário, a pesquisa “O potencial do agendamento de visitas: estratégias para a formação de novos públicos para os museus” desenvolvida no Programa de Mestrado Profissional (Promestre) da Faculdade de Educação da UFMG, sob orientação da Profª Adriana Almeida Mortara (ECI-UFMG), buscou compreender justamente como o processo de agendamento de visitas escolares pode contribuir para a formação de novos públicos em museus, ou seja, como um processo gratuito e democrático pode ter impacto na diversidade do público espontâneo.
O PROMESTRE, segundo o site institucional do programa, é o “Mestrado Profissional em Educação da UFMG”. Sua missão é “contribuir na melhoria da educação brasileira, em especial da rede pública de ensino da educação básica, com produção de conhecimentos e aprimoramento de profissionais da educação.” Nesse sentido, o estudo toma como base a experiência do processo de agendamento realizada no Espaço do Conhecimento UFMG, localizado no Circuito Liberdade, em Belo Horizonte, na Regional Centro-Sul.

Espaço do Conhecimento UFMG. (Créditos: Luis Felipe Amaral).
Por meio do agendamento de visitas gratuito, o museu recebe estudantes de terça a sexta, nos turnos da manhã e tarde, nas quartas-feiras à noite e aos sábados pela manhã. Assim, expandem-se as experiências e o acesso de alunos de escolas públicas e periféricas de Belo Horizonte e Região Metropolitana. Trazendo ao museu pessoas que corriqueiramente nunca saíram de seus bairros, ou nunca visitaram um museu.
É importante frisar que a parceria entre escola e museu é de suma importância para que esse potencial educacional seja alcançado, pois os professores que se submetem ao processo de agendamento, buscam proporcionar ao seus alunos experiências para além da sala de aula, contribuindo para uma expansão de visão não apenas intelectual, mas também de apreciação e apropriação de outros espaços. E é de grande interesse dos museus que novos públicos sejam formados, e que a partir das experiências com corpos e pensamentos diversos o museu consiga atingir uma parte mais significativa das pessoas, contribuindo para, especificamente no caso do Espaço do Conhecimento UFMG, democratizar o acesso à ciência e a cultura produzidos não somente na Universidade, mas pela sociedade como um todo.
Para realizar essa pesquisa foram utilizadas metodologias tanto quantitativas, quanto qualitativas, para entender quem era o público que já frequentava o museu espontaneamente, e também quem eram os professores, alunos e instituições que visitavam o Espaço. O recorte temporal dos dados utilizados foi dos anos 2019 a 2024, período este em que o Espaço do Conhecimento UFMG adotou o atual processo de agendamento realizado em duas etapas: inscrição via formulário e um sorteio público realizado ao vivo pelo YouTube para o preenchimento de vagas. Mais informações sobre esse processo de agendamentos de visitas podem ser conferidas aqui.
A partir desses dados foi possível concluir que o público que visitou o museu via agendamento de visitas, no período de 2019 e 2024, foi majoritariamente advindo das instituições públicas, estaduais e municipais, em sua maioria grupos escolares, com faixa etária de 12 a 14 anos, advindos da regional Pampulha de Belo Horizonte.
A equipe do Espaço do Conhecimento UFMG, possui um diferencial, uma vez que seus mediadores, são alunos de diferentes cursos de graduação da Universidade, trazendo visões e experiências das mais variadas para os visitantes. Muitos alunos de escolas periféricas e públicas de Belo Horizonte e da Região Metropolitana, ao terem contato com os mediadores, enxergam outras possibilidades de habitarem o mundo, vislumbrando contextos semelhantes aos seus, percebem a possibilidade de entrarem em uma Universidade, ou de se sentirem representados por esses corpos dentros dessas instituições que muitas vezes não os retrata.
A pesquisa contou ainda com entrevistas semi-estruturadas a cinco professores dos níveis de ensino da rede Educação básica de Belo Horizonte, Infantil, Fundamental I e II, médio e a Educação de Jovens e Adultos (EJA), para entender quais são as dificuldades e potencialidades que os professores têm ao proporcionar para seus alunos experiências em museus.
Essas entrevistas podem ser consultadas na revista: “Museus na prática Educacional: Uma revista para potencializar experiências’’, fruto dessa dissertação, como um recurso educacional que buscou trazer informações sobre a educação museal, relatos de professores que realizaram visitas ao Espaço do Conhecimento UFMG contando suas vivências, e assim, incentivando outros professores realizam essas visitas em outros espaços.

Capa do recurso educacional produzido para a pesquisa.
Esse recurso educacional foi desenvolvido em formato de revista digital, em tamanho A4. O material evidencia processos internos de organização do Espaço do Conhecimento UFMG voltados ao acolhimento dos grupos visitantes, como forma de inspirar outros educadores e espaços culturais, e compartilhar as expectativas dos professores nesse contexto.
A partir do recurso educacional elaborado, buscamos expandir as experiências positivas e incentivar que mais professores escrevam projetos para levarem seus alunos a museus, considerando todas as etapas da educação museal pré-visita, a visita e o pós-visita, e manter uma relação mais próxima dos museus, aberta ao diálogo, ao feedback e à construção de novas práticas, para que seus alunos da rede pública básica se vejam representados e se reconheçam no que é produzido não só no museu, mas por eles próprios e consigam relacionar seus contextos sociais, com a cidade e com seus equipamentos culturais.
Para a elaboração do material, foram realizadas cinco entrevistas com professores dos cinco níveis de ensino, a partir de questões como: o que o museu significa para eles e para seus alunos? Como os professores vivenciaram a experiência? E o que fazem para superar as dificuldades relacionadas às visitas?
O que significa um museu para você? Professora B:
“(…) um espaço que deve receber as crianças, falo museus, em geral. Todas as oportunidades que eu tive de visitar museus, foi na escola, não tive oportunidades de visitar os museus, como um passeio mesmo da minha casa. No meu contexto escolar, então eu acho que as crianças têm que ter essa oportunidade, acho que é um ambiente rico em contextos, rico em, assim, vivências mesmo para crianças, acho super necessário.”
O que você acredita que museu significa para seus alunos? Professora B:
“Eu acho que é um ambiente muito rico para as crianças, muito rico, muito estimulante, ótimo para o capital cultural delas. Então, assim, acho que é um eco muito grande para ser algo só isolado, para ser algo só num dia’’.
Para a professora C, o museu:
“(..) é um espaço educativo, para pensar na educação no sentido mais amplo. Então, para mim, museu, eu penso muito quando eu olho em museu, eu olho em um lugar, que tenha uma preocupação de ampliar o horizonte da pessoa que está indo lá, mas de uma forma que tenha uma preocupação pedagógica também, que seja acessível, que [não] seja uma coisa que meia dúzia de pessoas vão entender.”
A professora C acredita que para os alunos dela o museu significa:
“(…) uma abertura de horizonte muito grande. E eu percebo que amplia muito a realidade deles, assim, quando é uma visita legal.(…) eu acho que, para eles, o museu tem muito disso, de ter acesso a uma coisa nova, ter acesso a um novo. E eu acho que também representa muito essa coisa de eles poderem conhecer a cidade que eles moram.”
Além desse momento de escuta, as entrevistas serviram para ancorar e subsidiar o recurso educativo (revista).
Ao final, a pesquisa aponta que o interesse pelas visitas mediadas ao Espaço do Conhecimento UFMG continua alto, especialmente entre escolas públicas. Professores seguem mobilizando esforços para garantir que seus estudantes tenham acesso a experiências culturais fora da sala de aula.
Segundo Silva e Possato (2025), a pesquisa com o público espontâneo do Espaço do Conhecimento UFMG em 2024-2025 mostrou que “Cerca de 11% dos entrevistados já haviam visitado o Espaço com a escola antes, onde vivenciaram a experiência completa de uma visita mediada”. O desafio agora é ampliar esse movimento, e incentivar que mais professores levem seus alunos para realizarem visitas a museus, de forma gratuita e que essa experiência possa causar nos alunos uma identificação e possível pertencimento a esses lugares.
Essa vivência aproxima pessoas que fazem parte de uma parcela muito mais diversificada da população (em comparação ao público espontâneo do museu), e que muitas vezes não têm acesso aos espaços culturais, por questões de renda, acessibilidade, distância geográfica, entre muitos outros motivos, incluindo a sensação de não-pertencimento e o desconhecimento sobre atividades gratuitas ofertadas. O percentual dos visitantes que já estiveram no museu antes com a escola (ou que acompanhavam alguém que já havia visitado) foi maior para os respondentes autodeclarados negros, demonstrando que as ações educativas voltadas para o público escolar são um instrumento de diversificação do público. (Silva; Possato, 2025).
Para que os professores de escolas públicas consigam realizar com mais frequência esse tipo de atividade com seus alunos, isso significaria criar políticas públicas de incentivo, fortalecer a parceria entre escolas e instituições culturais, reduzir barreiras burocráticas e financeiras, bem como oferecer condições reais para que estudantes de diferentes territórios possam ocupar museus, centros culturais e espaços de ciência. Porque democratizar o acesso à cultura científica não é apenas aumentar o número de visitantes, é garantir que mais pessoas possam se reconhecer na cidade, na ciência e nos espaços culturais que historicamente lhes foram negados.
Por fim, a partir da pesquisa foi possível concluir que os professores já procuram bastante o processo de agendamento de visitas ofertadas pelo Espaço do Conhecimento UFMG, e que ficam cientes desse processo por meio da divulgação institucional e por meio de indicação de seus colegas de trabalho.
Portanto, a dissertação produzida buscou alcançar novos professores que ainda não vivenciaram nem proporcionaram aos seus alunos experiências educacionais e de lazer a partir da relação museu-escola. Para ter acesso à dissertação na íntegra você pode acessar a midiateca virtual do museu, assim como o recurso educacional produzido.
Referências
SANTOS, J. P. F. B. dos. O potencial do agendamento de visitas: estratégias para a formação de novos públicos para os museus. Orientadora: Adriana Mortara Almeida. [2026]. Dissertação (Mestrado Profissional em Educação e Docência) – Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, [2026].
Pesquisa de Público 2017 – Espaço do Conhecimento UFMG.
Um mergulho na pesquisa de público do Espaço do Conhecimento UFMG.