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RESULTADOS DE OFICINAS AGITAM DIAMANTINA
18/07/03
Ana Fazito

O Fórum de Arte Contemporânea Limites: Rupturas e Desdobramentos termina neste fim de semana em Diamantina. Além dos eventos programados pela coordenação, a maioria das oficinas, como já é tradição no Festival da UFMG, apresenta o resultado do que foi nelas produzido. De sexta-feira a Domingo, as intervenções artísticas na cidade acontecem a todo momento e em vários lugares.

Na área de artes cênicas, a professora da oficina Performance em Telepresença, Bia Medeiros, preparou uma intervenção em frente à Escola Estadual Leopoldo Miranda às 19h30. Os trabalhos dos alunos serão projetados e eles estarão em contato direto com várias pessoas espalhadas pelo mundo, através da rede mundial de computadores. Já Rita Gusmão, professora da oficina Perfomatividades, fez ao longo da semana três intervenções cênicas nas ruas de Diamantina: um varal poético, a malhação de Judas e por último um fragmento da peça Hamlet.

Os alunos da oficina Corpo, Movimento, Palavras, ministrada por Patrícia Hoffbauer, fazem uma mostra do que aprenderam, no próprio auditório da Escola Leopoldo Miranda, nesta sexta, às 18 horas. Depois, as três professoras e seus alunos se encontram em frente à escola. Patrícia e Rita interferem nas projeções de Bia e fazem uma improvisação.

Artes Plásticas

Intervenções Suburbanas, oficina ministrada pela artista plástica Maria Angélica Melendi, faz também nesta sexta-feira intervenções plástica em vários pontos da cidade, como no Mercado Velho, na Igreja da Matriz e outros lugares do centro.

Leda Catunda, professora da oficina Pintura Contemporânea, expõe os trabalhos de seus alunos na própria escola Leopoldo Miranda, onde as pinturas foram executadas.

A literatura e a mídia arte

Às 18 horas, as escritoras Margo Glantz, do México, e Betty Mindlin, que fala da literatura indígena, estarão no Espaço B, café e livraria de Diamantina, junto com seus alunos para apresentarem os textos que foram produzidos nas oficinas Literatura Mexicana – os limites do feminino e Literatura Indígena. As escritoras também apresentarão suas obras através da leitura de fragmentos de seus livros.

As oficinas de Mídia-Arte Arte Eletrônica: Conceito e Prática, de Lucas Bambozzi, e Mídia Imediata, Arquitetura Instantânea, de José dos Santos Cabral, estarão juntas em um percurso que vai do chafariz da cidade até o mercado. Os alunos da primeira fazem intervenções com projeções dos vídeos que desenvolveram e os da segunda criam os ambientes onde esses filmes serão projetados.

Música no Sábado

O espetáculo resultado da oficina de Vídeo-Improvisação: Live Images, ministrada por Luiz Duva acontece no Sábado às 23h30. Na praça de esportes de Diamantina, os alunos e du-V-a, codinome do professor, interagem com o público através de conversas, conflitos entre imagens , sons e palavras, tudo isso dentro de um ambiente de música eletrônica.

Na música, o professor da UFMG Mauro Rodrigues e seus alunos da oficina Ateliê de Música, Performance e Criação se apresentam no Sábado, às 18h30 no Conservatório Lobo de Mesquita. São pequenas peças musicais, produzidas em grupos em dinâmicas de improvisação.

Na mesma apresentação, os compositores Flo Menezes e Edgar Alandia e seus alunos das oficinas A composição eletroacústica hoje – espacialidade, estruturação e aspectos históricos e Panorâmica das poéticas musicais e problemas da linguagem contemporânea mostram o resultado de seus trabalhos.

 


JORGE MAUTNER E NELSON JACOBINA
TRAZEM O KAOS PARA DIAMANTINA

18/07/03
Carlos Eduardo Freitas

Os eternos tropicalistas Jorge Mautner e Nelson Jacobina se apresentam sábado, dia 19, em Diamantina, no Teatro do Instituto Casa da Glória, a convite do
35º Festival de Inverno da UFMG. O espetáculo, que conta com um repertório de clássicos como Maracutu Atômico e O Vampiro, também apresenta canções do último trabalho de Mautner, Eu não peço desculpa, lançado em 2002, em parceria com Caetano Veloso.

“A apresentação pretende transmitir esperança, mistério e a mensagem do Kaos, mas a leitura é de cada um”, afirma o cantor, em uma referência a seu iivro Mitologia do Kaos, uma reunião completa de sua obra literária, e à presença constante do Kaos em seus trabalhos.

Violino, guitarra, violão e voz dividem espaço no palco que, para Jorge Mautner, continua sendo cenário para um espetáculo antropofágico. “O Brasil é antropofágico por natureza. Quando Ariano Suassuna disse que os tropicalistas não inventamos nada, ele está até certo, já que a antropofagia é o que torna a cultura do Brasil a mais forte do mundo”, afirma o músico.

Parceiro de grandes artistas da música popular brasileira, Mautner já foi gravado por Chico Science, Zé Ramalho, Gilberto Gil, Lulu Santos e muitos outros e mantém até hoje a sólida parceria de 30 anos com Nelson Jacobina, o arranjador, instrumentista e compositor que fica à frente da guitarra e do violão durante a apresentação em Diamantina.

Além da música

Mautner, autor de vários livros e vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura, em 1962, com sua primeira obra, Deus da Chuva e da Morte, também é o criador da filosofia do Kaos. Segundo ele próprio afirma, “existem variadas definições desse kaos com k, que é da quarta dimensão, como quatro personalidades ao mesmo tempo.

A primeira é "Kristo Ama Ondas Sonoras", a segunda é "Kamaradas Anarquistas Organizam-se Socialmente", a terceira "Kolofé, Axé, Otumbá, Saravá" e a quarta, cada um escolhe, isso é muito individual”, filosofa o músico, personagem indispensável para se entender a cultura popular brasileira.

 


UM NOVO OLHAR SOBRE A FOTOGRAFIA
18/07/03
Ana Fazito

A oficina não é técnica, não há limitação quanto ao suporte tecnológico utilizado, desde máquinas fotográficas digitais das mais avançadas até as manuais mais antigas. O objeto a ser captado pela lente das câmeras também não é pré-determinado pelo professor: os alunos têm a liberdade de criar, de apurar o olhar em cima do que será fotografado. Essa é a oficina Fotografia: Arte no Espaço ministrada pelo artista plástico carioca Marcos Chaves (foto) no 35º Festival de Inverno da UFMG.

Em um primeiro momento da oficina, que integra a programação do Fórum internacional de arte contemporânea, os alunos saíram as ruas de Diamantina fotografando o que quisessem. A partir da observação do resultado dessa atividade, Chaves “pescou” o que se repetia e sugeriu um desenvolvimento desse repertório.

“O objetivo era ajudar a localizar onde estava o imaginário de cada um”, diz o professor. Figuras humanas em objetos abstratos, palavras, fotos que se parecem com pinturas e temáticas sensuais, são alguns dos objetos captados. “Aqui na oficina ninguém está fazendo retrato, não é a fotografia como papel, mas sim como arte que vai à parede”, observa Chaves.

Ana Carolina Antunes, estudante de comunicação da UFMG, fala que a oficina não é uma aula de fotografia, é uma experimentação do olhar. “Escolhemos objetos que achamos que é arte para colocar na fotografia”.

Apesar de Chaves acreditar que o trabalho dos alunos não para por aí, e que eles podem desenvolver ainda mais as temáticas observadas em seus repertórios de fotos, ele propõe como produto final da oficina uma exposição dos trabalhos já realizados. “A última etapa dessa experiência é estudar como inserir expor os trabalhos desenvolvidos, na busca de qual seria a melhor realização da idéia no espaço”, diz Chaves.

Segundo ele, várias pessoas pensam a fotografia como pintura e é isso que essa etapa propõe. “Pode ser uma ampliação, um título para a foto ou até uma combinação de trabalhos que criaria uma frase, ou seja, a melhor maneira de as fotos serem vistas”, conclui o artista.


A sensualidade das fotos de Ana Carolina e as palavras de Juliana Cordeiro, alunas da oficina de fotografia

 


OFICINA PROPÕE RECRIAR ESPAÇOS ARQUITETÔNICOS
17/07/03
Mariana Paulino

Pela primeira vez, o Festival de Inverno da UFMG oferece uma oficina voltada para a arquitetura. Mídia Imediata, Arquitetura Instantânea é ministrada por José dos Santos Cabral e Maurício Leonard. “Recebemos o convite como um desafio de investigar, dentro da proposta da área de mídia-arte, como as novas mídias estão chegando ao espaço arquitetônico”, explicam os professores.

A idéia é trabalhar a mídia expandida, tendo a arquitetura como suporte. “Os alunos são levados a pensar uma arquitetura projetada para receber a mídia de uma forma mais integrada”, conta Cabral. Eles observam que foi criado um impasse, a partir do momento em que as demandas da comunicação se incrementaram, com as novas tecnologias. “A arquitetura tem que dar conta de responder a essas demandas e tirar vantagem disso”, observa Maurício.

Neste sentido, a oficina procura potencializar a comunicação, “espacializando” os meios através do espaço arquitetônico. “Estamos criando espaços de interação comunicacional, pensando uma verdadeira comunicação entre espaços diferentes, refletindo como a pessoa pode estar em um espaço tendo a sensação de outro”, exemplificam.

Mas para que serviria essas pesquisas? “Para expandir a experiência corporal de forma enriquecedora, contrariando o conceito de permanência da arquitetura e da falta de materialidade dos meios, e trabalhar a poética dos espaços, indo além da funcionalidade”.

Como instrumentos, eles utilizam desde ferramentas sofisticadas, como sensores e captura de imagem em alta resolução, até baixas tecnologias. “A Vesperata, por exemplo, é uma explosão em termos de espacialidade. Ela inverte platéia e artistas, cruza vários elementos”, completam Cabral e Maurício.

Ambientes republicanos

Mestre e PhD pela University of Sheffield, José dos Santos Cabral, através da Faculdade de Arquitetura da UFMG, está desenvolvendo três CDroms para o Museu da República, do Rio de Janeiro. Os trabalhos estão sendo desenvolvidos em parceria com a professora do Departamento de História da UFMG, Heloísa Starling.

Eles têm como objetivo documentar a história da República em Minas Gerais, Pará e Rio Grande do Sul. “Estou criando interfaces, ambientes diferentes que conjugam vídeos, sons, imagens e textos, para que os usuários possam ter caminhos variados para a informação”, diz Cabral. “Várias personalidades da época se encontram dentro do CD. É um samba do republicano doido”, finaliza.

 


COMPOSIÇÕES DE BRECHT E WEILL RECRIAM
CLIMA DE CABARET NO FESTIVAL DE INVERNO DA UFMG
17/07/03
Carlos Eduardo de Freitas

As composições de Bertold Brecht e Kurt Weill tomam conta do teatro do Instituto Casa da Gloria, em Diamantina, através das interpretações vigorosas de Suzana Salles, Lincoln Antônio e Camilo Carrara, na pocket-opera Concerto Cabaré. O espetáculo, que já percorreu o Brasil e a Alemanha, será apresentado quinta-feira, dia 17, como parte da programação da segunda semana do 35º Festival de Inverno da UFMG.

Idealizado pela cantora Suzana Salles, a peça une piano, violão e voz para dar vida aos maiores sucessos da dupla Brecht-Weill que, desde 1927, agradam público e crítica com seu trabalho atemporal. “Mesmo sendo apresentado em alemão, o repertório clássico da dupla é compreendido pelo público brasileiro, graças ao vigor e à contundência das composições”, garante Suzana Salles.

Cabaré

“A primeira vez que ouvi as canções que integram a peça foi no Teatro Oficina, com José Celso Martinez Corrêa, na década de 1970. Desde aquela época sou apaixonada pelas obras da dupla”, afirma a cantora, que também dedica seu tempo à música popular brasileira e está preparando um CD de canções caipiras.

Camilo Carrara, violonista que acompanhou a cantora Zizi Possi por mais de quatro anos e participa pela primeira vez de Concerto Cabaré, afirma que a interação com os músicos da peça é muito boa. “Minha formação inclui incursões pela música expressionista alemã e também e pela música popular brasileira, daí acho que vem a nossa afinidade musical”, afirma Carrara.

O pianista Lincoln Antonio, formado em música pela Unesp e antigo parceiro de Suzana Salles, diz o que o público pode esperar do espetáculo. “Canções dramáticas, feitas para o palco, que tratam de personagens marginais, prostitutas, maus caracteres e excluídos. Esses elementos compõe o universo que interessava a Brecht”, afirma o pianista, que também se dedica à pesquisa da música popular regional brasileira como embolada, caribó, congada e maracatu.

Brecht-Weill

Personagem marcante da história literária e política do século 20, o dramaturgo, poeta, ensaísta e romancista Bertold Brecht desafia a sociedade burguesa com suas críticas e faz o público rir e se emocionar com suas idéias controversas. Weill, seu parceiro de grandes sucessos, compôs as melodias eternizadas em trabalhos como a Ópera dos Três Vinténs e Ascensão e Queda de Mahagony, que estão presentes no repertório de Concerto Cabaré.

 


RODRIGO MATHEUS VOLTA AO FESTIVAL DE INVERNO COM GRAVIDADE ZERO
17/07/03

Circo e teatro, risco e representação, limites entre a vida e a morte. Esses são desafios que enfrenta, a cada espetáculo, o artista paulista Rodrigo Matheus, este ano de volta ao Festival de Inverno da UFMG com Gravidade Zero, evento programado para dia 18 sexta-feira, no teatro do Instituto Casa da Glória, em Diamantina. Rodrigo é o criador e principal ator da Cia. Circo Mínimo, que contabiliza um amplo repertório já visto em várias cidades brasileiras e também no exterior.

Texto inédito escrito por Mário Bortollotto, especialmente para Rodrigo Matheus, o espetáculo Gravidade Zero é um monólogo que se desenvolve num cenário que lembra um canteiro de obras. Suspenso no ar, este cenário serve de apoio ao personagem, que insiste em não por os pés no chão.

Bastante irônico e ao mesmo tempo ácido e atual, o texto questiona aquilo que é considerado aceitável em uma sociedade carente de ideologias coletivas. O resultado da direção de Elias Andreatto é um belo, simples e forte poema visual.

Circo Mínimo

“Do espaço aéreo dominado pelas técnicas circenses, a Cia. Circo Mínimo extraiu conceitos básicos que passaram a ser signos do trabalho: a falibilidade física que exige excelência de execução; a responsabilidade e confiança entre parceiros”, diz Matheus.

”Desde sua criação em 1988, a identidade da companhia está profundamente ligada a essas técnicas e esses signos, transformados em sua linguagem cênica, aprofundada e aperfeiçoada de acordo com as exigências do conteúdo dos espetáculos de seu repertório, que dão unidade a trajetória do Circo Mínimo”, ele completa.

Confira na entrevista abaixo o que Rodrigo Matheus pensa sobre a expressâo teatral, de maneira geral, e seu trabalho em particular.

Pergunta - Pode-se chamar "acrobático" o gênero de teatro que você pratica, ou prefere outra designação?
Rodrigo Matheus - Prefiro teatro de imagens, ou mesmo circo-teatro, mas acrobático (entre aspas) não é errado. Acho apenas um pouco depreciativo, tipo 'sem profundidade', o que pode até ser o caso, mas não intencionalmente.

Por que você escolheu esse gênero, ao contrário do palco convencional. Seria pelo caráter espetacular que lhe é próprio?
Não é ao contrário do palco convencional, não tenho nada contra ele, e de tempos em tempos faço espetáculos assim. Mas digamos que escolhi essa linguagem por puro prazer de fazer as coisas que o circo propõe, ou possibilita. Mas desde antes de entrar para a escola de circo, eu já gostava de um tipo de teatro que criava imagens, mais do que por atores 'declamando' um texto. Junte-se o circo, e você tem o Circo Mínimo.

Você achar possível traduzir, sem perda da essência da expressão teatral, a representação do palco para o trapézio (ou outro suporte acrobático que use)?
Sim, claro. Mas não tudo. Há textos, ou cenas, que pedem a simplicidade, o pé no chão. E outras que 'pedem', ou ficam mais interessantes, com algum suporte acrobático. Cada caso é um caso. Gravidade Zero foi um presente do Mário Bortolotto para mim. E foiescrito para ser encenado por mim, suspenso. Acho difícil imaginar outra encenação

Qualquer peça pode ser assim transcrita (Romeu e Julieta, por exemplo)? Que dificuldade essa transcrição oferece?
Não, mas eu tenho um projeto de espetáculo que é baseado em Romeu e Julieta. E as batalhas podem ser feitas com acrobacia e malabares, a cena do balcão pode facilmente ser realizada num trapézio, e assim por diante. Eu acho que, no momento que buscamos o significado por trás do que está escrito, pode ser que encontremos uma imagem apoiada no circo. Como a morte, sempre presente no circo, e sempre presente no teatro. Mas essa transição exige uma linguagem e uma técnica específica. É uma busca contínua, no meu caso, a de achar imagens mais interessantes que o próprio texto, e não simplesmente enxertar algo espetacular.

A exigência de uma preparação física especial não tornaria o seu teatro próximo da ginástica ou de outra prática esportiva?
Pelo amor de Deus, não! Do circo talvez, mas o circo é arte, e não esporte. Há pessoas que tentam aproximar o teatro do esporte, mas eu odeio isso (como jogos de improvisação, com vencedor e tudo). Todo ator precisa de uma preparação física especial, ainda que só a voz. E o bailarino...

Como o público tem reagido à sua proposta de trabalho, em cada novo espetáculo?
Muito bem, em geral. O circo traz um aspecto mais popular, mais espetacular, sem dúvida, o que facilita a comunicação. E, além disso, o fato de eu sempre usar imagens de atores susensos faz com que o riscoi, inerente ao teatro, seja mais real, mais impactante. E, naturalmente, inusitado. Mas raramente acontece de atrair a atenção do espectador mais do que o necessário, disvirtuando a informação, eu acho. Aos críticos o julgamento...

 


TRADUÇÕES, LEITURAS E INTERPRETAÇÕES DA LITERATURA MEXICANA
16/07/03
Ana Fazito

A escritora mexicana Margo Glantz traz ao Festival de Inverno e à cidade de Diamantina uma pitada da simpatia característica do povo de seu país e um punhado de seu conhecimento sobre literatura latino-americana feminina. Acompanhada da tradutora oficial de suas obras para o português, Paloma Vidal, Margo ministra a oficina Literatura Mexicana – o Limite do Feminino, onde, para a surpresa da escritora e dos alunos, está se desenvolvendo um trabalho árduo de tradução de fragmentos de sua obra.

Ao chegar em Diamantina, Margo, que é também professora da Universidade Nacional Autônoma do México, não imaginava que iria encontrar alunos tão cultos, interessados e dispostos. "Com o desenrolar da oficina, nos propusemos a desenvolver como produto final traduções de partes do meu conto Zona de derrumbe (zona de deslize) e isso tornou meu trabalho mais interessante e menos esgotador", comenta a escritora. Ela ainda observa que, ao se estudar as possibilidades de cada língua, suas matizes e construções, entra-se mais na estrutura do texto do que em uma simples leitura.

Aline Midori é estudante de Belas Artes em Belo Horizonte e com um certo pezar constata que os participantes do Festival costumam se matricular em oficinas da mesma área em que atuam profissionalmente. “No Festival temos a chance de conhecer uma ótica diferenciada e aproveitar dessa integralização, por isso resolvi fazer a oficina da Margo”, diz Midori. Para ela a oportunidade de se deparar com uma visão literal da história mexicana mais intimista e afetiva é única, “faz com que a gente se sensibilize muito mais”.

As traduções realizadas na oficina serão apresentadas no Espaço B, um café de Diamantina, na próxima sexta-feira, dia 18, às 18 horas. Margo também estará lá, para ler um de seus trabalhos.

O erotismo do feminino

Na oficina, os alunos fazem a leitura, em conjunto e individualmente, de contos das escritoras mexicanas Nellie Campobello, Elena Garro e da própria Margo. Não muito conhecidas do público brasileiro, as três apresentam em suas obras características únicas de um erotismo bem latino-americano. Campobello, artista do início de século XX, escreveu sobre a Revolução Mexicana (1910-1920), mais precisamente sobre o conflito de Chihuahua no norte do país. De acordo com Margo, esta escritora não foi reconhecida em seu tempo por causa da literatura essencialmente política, mas que ao mesmo tempo apresenta uma erotização da luta.

Elena Garro, uma personagem complicada da história do México, escandalizava em sua conduta, apesar de ser bela, simpática, elegante e sedutora, segundo Margo. A escritora, que dizia ter conhecido o suposto assassino de Kennedy e denegria a imagem do movimento estudantil, foi casada com o também escritor Otávio Paz, com o qual travou uma relação tormentuosa, onde se agrediam publicamente, inclusive em seus livros.

A tradução de Paloma

Já Margo define seu livro Aparições como uma novela erótica, onde se observa duas formas diferentes de erotismo, a dos corpos, retratada pela relação violenta da paixão de um casal. Eles estão sendo observados por uma menina enigmática que se encontra sempre dentro da cena, mas que não se define como uma personagem ou uma narradora. A outra forma de erotismo é a mística, entre duas freiras. Há também uma relação de erotismo, de paixão com a escrita na novela, pois a mulher do casal é uma escritora e escreve sobre freiras e é, exatamente, quando ela está escrevendo que acontece o que Margo chama de aparições, "as histórias se entrelaçam e não existe um claro limite entre as estórias", diz Paloma Vidal.

Paloma ainda comenta do trabalho torturante, mas ao mesmo tempo gratificante que é traduzir alguém como Margo Glantz. "É uma escrita difícil e transgressora, uma escrita feminina, mas não panfletária, que eu me identifico e gosto de trabalhar". Aparições é o segundo livro de uma série de traduções que Paloma está fazendo para a coleção Leituras Latino-Americanas da Editora Autêntica. E é justamente esta novela que Paloma e Margo estarão autografando nesta 5a feira, às 12h30 na livraria Diadorim em Diamantina.

 


AFINADOR DE PIANOS É VETERANO NO FESTIVAL
16/07/03
Ana Fazito

Os 37 anos do Festival de Inverno da UFMG não seriam os mesmos se não fosse a dedicação de um elenco de colaboradores, funcionários ou não da Universidade. Um deles é o afinador de pianos Guido Franco, que ao longo deste período já esteve em Ouro Preto, São João del-Rey, Belo Horizonte e, agora, Diamantina – o que soma 15 de seus 60 bem vividos anos.

Profissional autônomo, Franco já afinou instrumentos para a execução de artistas como Sandra Loureiro, Tânia Mara, Adalmario Pacheco, Irio Júnior, Guida Borghoff, dentre outros pianistas nacionais e internacionais.

Para ele, trabalhar em um evento da envergadura do Festival de Inverno da UFMG constitui sempre uma atividade prazerosa. "Afinar os pianos de músicos de alto nível, eleva o trabalho do técnico", comenta o especialista. Ele não se considera um pianista, mas defende que o trabalho do afinador é uma arte, apesar de cansativa. "É muito gratificante ouvir os concertos tocados em instrumentos que afino. Melhor ainda quando recebo um elogio dos pianistas".

Guido Franco aprendeu o ofício de afinador há 33 anos, com o tio Afonso Franco, que herdou a profissão do maestro italiano Mário Pastori. Ele lamenta que seus filhos não tenham se interessado pela arte de fazer com que as notas saiam suaves e afinadas dos pianos para continuar a tradição da família. Ainda assim, se orgulha muito do que faz.

 


FESTIVAL GANHA AS RUAS DE DIAMANTINA
16/07/03
Mariana Paulino

Performatividades é o nome da oficina que alterou a rotina de quem passou pela Praça JK, em Diamantina, nesta tarde de quarta-feira. Nesse dia, a turma da oficina parou os transeuntes para perguntar o que eles tinham a dizer sobre o 35º Festival de Inverno da UFMG. Pessoas de todas as idades escreveram suas impressões em blusas que depois foram dependuradas em um Varal poético.

"Vó Efigênia", 77, que deixou sua lembrança em uma das blusas, comenta que adora estar no meio dos jovens, brincando, e lamenta não ter idade para participar do evento. Fernanda Neves, 16, escreveu "Adoro Diamantina. O Festival é bom demais".

Ministrada pela professora Rita Gusmão, a oficina tem como objetivo promover uma interface prática e teórica entre a linguagem teatral e a performance. Rita explica que performance é um conceito muito confuso, adotado para tudo que não se consegue classificar.

Na aula, "estamos refletindo a origem histórica, a importância e a multiplicidade que se encerra na atividade performática", diz Rita, destacando que, na performance, "o artista é sua própria obra".

Impacto

Pensando sobre o impacto e os possíveis resultados de uma performance, Rita sugeriu ao grupo a criação de intervenções na cidade histórica. Eles nomearam os lugares a serem ocupados, escolheram três tipos de atuação, preparam o script e discutiram como lidar com as mais diversas reações do público.

"A perfomance é uma linguagem que trabalha no limite, desloca a percepção do participante, coloca em jogo valores e sensações", resume, antevendo um pouco uma gama de resultados possíveis a cada apresentação.

Júlia Cseko, estudante de Belas Artes do Rio de Janeiro, afirma que, através da intervenção, é possível dialogar com a pessoas cujas reações ela não imagina quais seriam. "E o mais interessante é que, aqui, os moradores não têm muito contato com arte. A performance, durante o Festival, cria uma estranheza, a partir do momento em que não é teatro", completa.

Até o sexta-feira, dia em que se encerram as atividades da segunda semana do Festival, haverá mais duas intervenções diferentes pela cidade.

 


LUCAS BAMBOZZI PROVA QUE FESTIVAL É CELEIRO DE
PROFISSIONAIS RECONHECIDOS INTERNACIONALMENTE
16/07/03
Mariana Paulino

Lucas Bambozzi é um veterano do Festival de Inverno. Formado em jornalismo pela UFMG e mestrando em filosofia pelo Centro Caii-A STAR, de Londres, um dos mais conhecidos artistas de mídia-arte de sua geração, reconhece que o evento tem uma grande importância em sua trajetória profissional.

Desde 1989, época em que começou a participar efetivamente do Festival de Inverno da UFMG, Bambozzi vem trabalhando com diferentes formatos de vídeo, em várias mídias e suportes, tendo construído um corpo de obras em vídeo, filme, instalação, site-specific, projetos interativos, Internet e CD-ROM. "Eu circulo entre cinema, vídeo experimental, vídeo-arte, novas mídias: Internet, meios interativos e no circuito da arte", relata, para situar seu trabalho.

Em seus trabalhos, freqüentemente premiados e com exibições em mais de 20 países, identifica-se uma transposição do conceito do portrait para imagem em movimento. Bambozzi costuma retratar as particularidades da vida privada cotidiana, em seus paradoxos e antagonismos, inseridas no contexto do caos urbano e dos espaços de convívio coletivo.

Em sua última produção, chamada 4Walls, realizada durante o mestrado em Londres e apresentado na exposição Intimidade, em São Paulo, o mineiro desenvolveu interfaces interativas para instalações. A obra, comandada por um sensor que detecta a presença do visitante, é composta por vídeos projetados em uma janela.

"Eu me interesso pelas formas de converter sinais analógicos em digitais e digitais em analógicos. Coisas que acontecem no espaço físico possam intervir no computador, e o que está acontecendo no computador possa acionar o que está no espaço real", explica.

Bambozzi também realizou, ao lado dos colegas Beto Magalhães e Cao Guimarães, O Fim do Sem Fim, documentário em longa–metragem vencedor de vários prêmios, entre eles o GNT de Renovação de Linguagem. Participando da 35ª edição do Festival de Inverno da UFMG como professor da Oficina Arte Eletrônica: Conceitos e Prática, o artista fala um pouco sobre sua trajetória e adianta, nesta entrevista, alguns dos trabalhos que vai lançar em breve.

 

Qual a importância do Festival de Inverno da UFMG, em sua 35ª edição, na perspectiva da sua trajetória profissional?

O Festival de Inverno foi fundamental para estimular, afirmar e conduzir muito do que aconteceu com o vídeo, na minha geração. Minha geração não seria exatamente a geração do Éder (Santos), apesar de não existir uma diferença grande de idade, mas uma turma que se formou basicamente através de festivais e cursos. Eu tive aulas com Rafael França, quando o Festival de Inverno foi realizado em Belo Horizonte, fui monitor da Joan Logue. Informalmente, eu já ajudei a indicar muitos professores, como John Gilles, Carlos Nader, Patrick De Geetere. Eu sempre estive perto de alguma forma, tentando colaborar com o Festival, porque acho fundamental para a formação e o debate do vídeo e das mídias afins.

 

Confira aqui a entrevista na íntegra

 


OFICINA DE MÚSICA DISCUTE EXPERIÊNCIAS
E MÉTODOS DE COMPOSIÇÕES CONTEMPORÂNEA
16/07/03
Ana Fazito

Levantar questões sobre a composição contemporânea, sem o objetivo de respondê-las neste momento, é uma das propostas da oficina Panorâmica das Poéticas Musicais e Problemas da Linguagem na Música Contemporânea, ministrada pelo boliviano Edgar Alandia Canipa, compositor e professor de Composição do Conservatório de Música de Perugia, na Itália.

Até sexta-feira, os alunos da oficina - que integra o Fórum internacional de arte contemporânea Limites: rupturas e desdobramentos, no 35o Festival de Inverno da UFMG - recebem informações do que se passa, principalmente na Europa, sobre a a técnica composicional e têm a oportunidade de aplicar esses conhecimentos em suas próprias composições.

Segundo Alandia, a oficina pode ser dividida em três partes. Na primeira, o aluno fica sabendo sobre o desenvolvimento das novas técnicas dos instrumentos acústicos e sua aplicação nas linguagens da música atual. Num segundo momento, o compositor boliviano discute métodos do fazer musical, seus próprios e de outros musicistas.

Experimentos

Por último, Alandia comenta os trabalhos que os alunos trouxeram para a oficina. "Quem sabe eles não podem começar um projeto para desenvolver posteriormente?", comenta o professor. Ele ainda acrescenta: "Nesta curta oficina a intenção é perder tempo e ganhar experiência, que será útil".

André Rocha, estudante de violão da UFMG, escutou algumas das composições e das experiências de Alandia na oficina. "Sou uma pessoa que vai no coração da música e pela fala do professor a gente percebe que ele tem uma visão poética do que faz, ele ouve o som", diz André.

Ainda dentro da programação do Fórum Internacional de Arte Contemporânea, o músico boliviano faz, quarta-feira, uma palestra sobre o Objeto Musical na Sociedade Global Contemporânea. Para ele, a obra de arte se transformou hoje em objeto a ser consumido. "Fala-se muito de globalização, que é uma mentira. A maioria das pessoas se encontra na porta, nunca entra para participar do banquete", comenta Alandia.

Ele completa afirmando que a qualidade de um objeto artístico depende do parâmetro de referência. "Se o parâmetro é comercial, a obra é boa porque vende mais". Contra isso, na opinião do musicista, compositores, músicos, artistas plásticos têm que se tranqüilizar e fazer arte a título de experiência individual"

 


A ESCRITORA LÚCIA CASTELLO BRANCO VAI AO PALCO
PARA TRADUZIR SEUS TEXTOS EM MELANCOLIA

15/07/2002
Carlos Eduardo Freitas

Pela primeira vez no palco, a escritora Lúcia Castello Branco é a boa novidade da agenda de eventos do 35º Festival de Inverno da UFMG, em Diamantina. Nesta quarta-feira às 21h, ela se apresenta no espetáculo Melancolia, ao lado da pianista Guida Borghoff, da cantora lírica Luciana Monteiro e da atriz Júlia Castello, para uma leitura de textos seu livro de contos A Falta.

No espetáculo, piano, canto lírico, leitura e expressão corporal contribuem para criar uma atmosfera estritamente feminina em uma apresentação de uma hora de duração, onde canções de Elza Cameu, compositora do início do século 20, que musicou poemas de Helena Kolody e Florbela Espanca, fornecem o clima intimista necessário ao evento cênico.

As narrativas de A Falta – conjunto de contos que têm em comum o tema do difícil amor entre mãe e filha, abandono e (re)encontros mediados pela literatura – realizam o que a própria escritora chama de escrita feminina. “A união de música e literatura, combinadas a um trabalho de expressão corporal, resultam em uma apresentação que descortina o universo feminino, a partir de textos do meu livro”, explica Lucia Castello Branco.
“Trata-se de um escritura em que a voz não traz autoridade e saber, mas sendo apenas sopro, balbucia a ausência, a dúvida, o lento desaparecimento da palavra articulada, e deixa aos olhos expectantes uma tênue visão do que poderia ter sido, se não finito. Por isso se trata de uma cena em que fulgura a escritura: voz consumida na letra, na melancolia”, explica a autora.

O cenário, uma criação do arquiteto de interiores, Augustin de Tugny, único homem envolvido na produção do espetáculo, remete às anunciações de Virgem Maria, a partir de imagens pictóricas do fenômeno bíblico. “As referências às anunciações de Maria concedem uma atmosfera mística, que juntamente com outros elementos como bambus, flores e tecidos fornecem o necessário para que as mulheres brilhem em cena”, diz o cenógrafo.
Com direção de Rosângela Pereira de Tugny, o espetáculo pretende “levar ao público a melancolia, por meio da dúvida, da ausência e do sopro, em contraposição à voz que se pretende sábia e autoritária”, afirma a diretora.

 


MÁQUINA DE PINBALL TRAZ A CULTURA POP AO FESTIVAL
15/07/2003
Carlos Eduardo Freitas

A cultura pop é o tema do monólogo Máquina de Pinball, uma adaptação da obra homônima de Clarah Averbuck para o palco, num espetáculo que vai ser mostrada em Diamantina nesta terça-feira, dentro da programação de eventos do 35º Festival de Inverno da UFMG.

No primeiro livro dessa escritora gaúcha de 24 anos, que é fã da geração beatnik e não deixa de lado sua coleção de CDs de rock`n roll, a contemporaneidade é mostrada pela visão da jovem Camila, uma escritora que não se satisfaz com as opções medíocres que a vida pode lhe reservar.

A peça, dirigida por Antonio Abujamra, um das principais personalidades do teatro brasileiro, e pelo jovem Alan Castelo, tem trilha sonora da banda de rock novaiorquina Strokes e também está em cartaz no Rio de Janeiro, até dia 27 de julho, no Teatro Glória.

A atriz e bailarina Patricia Niedermeier ocupa a cena acompanhada apenas de músicas e projeções de vídeo, nessa que é a primeira grande incursão de Abujamra pela cultura pop. “Trabalho com Abujamra há seis anos, como ator, assistente de diretor e diretor, e este é um trabalho que têm nos dado muito prazer em realizar juntos”, afirma Alan Castelo.

O pensamento de uma geração está expresso nessa peça, que utiliza os elementos que ocupam a mente da juventude contemporânea: rock, sexo, transgressão. “O texto fala de rock porque ele é uma referência cotidiana desta geração, e a música é utilizada para garantir o clima necessário à peça”, explica Alan.

“O espetáculo trabalha com o universo do jovem e, por isso, ele se identifica com a protagonista, contudo, essa peça é feita para todas as gerações”, garante o jovem diretor.

A atriz Patrícia Niedermeier, que já trabalhou com diretores consagrados como Gerald Thomas e Rubens Correia, se sente desafiada pelo papel. “Assim que li o livro de Clarah, me identifiquei com o desejo expresso por sua personagem de viver intensamente e correr riscos. Entretanto, um monólogo é sempre desafiador.”

 


BETTY MINDLIN TRAZ AO FESTIVAL A ‘LITERATURA’ DOS ÍNDIOS BRASILEIROS
15/07/2003
Carlos Eduardo Freitas

A antropóloga Betty Mindlin, que desenvolve, desde 76, um trabalho de pesquisa junto aos índios brasileiros, é um dos destaques da área de Literatura e Cultura do 35º Festival de Inverno da UFMG. A pesquisadora ministra, ao longo desta semana, a oficina Literatura Indígena, que, segundo a coordenadora da área, Lúcia Castelo Branco, “trabalha com uma narrativa que rompe os limites da literatura contemporânea e inova a cena cultural”.

Da agenda da antropóloga no Festival, contam também uma participação no Fórum Internacional - Limites: rupturas e desdobramentos, quinta-feira (17), com a palestra As Narrativas indígenas como literatura, e uma manhã de autógrafos para lançamento de seu livro infanto-juvenil O primeiro homem, na Livraria Diadorim.

Oralidade e literatura

Na oficina que ministra, Betty demonstra o seu processo de criação e coloca seus alunos em contato com os registros orais que mantêm arquivados. “Espero que os participantes, ao final dos trabalhos, conheçam e ajudem a preservar os valores dos índios brasileiros”, explica a antropóloga que dedica sua vida à disseminação e proteção da cultura nativa do Brasil.

Betty teve a oportunidade de conhecer a cultura indígena in loco, antes que a invasão do mundo capitalista alterasse o modo de vida das tribos do norte do país. “Trabalhei na construção de programas de saúde e educação e na defesa da demarcação das terras indígenas”, afirma a antropóloga que em 1987 fundou a ONG Instituto de Antropologia e Meio Ambiente (Iama), organização defensora da cultura dos índios, onde trabalhou até 1997.

Enquanto se dedicava à causa indígena, a pesquisadora manteve contato com mais de 60 povos diferentes, dos quais recolheu mais de mil narrativas. Esse trabalho de registro dos mitos colhidos em diversas línguas nativas rendeu-lhe uma série de obras literárias, inclusive Muqueca de Maridos, em que a narrativa das índias, com forte conteúdo erótico, sai da oralidade e toma conta das páginas.
“Os meus livros têm dupla autoria, os direitos são divididos com os índios e, na maioria das vezes, eles compram comida e alguma roupa com o que é arrecadado”, conta a autora, que trabalha com um universo simbólico muito diferente do que conhecemos.

‘Reino dos sonhos’

A sofisticação simbólica dos povos indígenas rende histórias peculiares, segundo ela própria afirma: “Com o dinheiro arrecadado pela venda dos livros, a viúva de um importante pajé foi, pela primeira vez, a um restaurante e, ao perceber a grande quantidade de comida que lhe era oferecida, comparou o local ao ‘Reino dos Sonhos’, terra mitológica onde são oferecidos os mais variados e deliciosos pratos”.

Na oficina que ministra, Betty demonstra o seu processo de criação e coloca seus alunos em contato com os registros orais que mantêm arquivados. “Espero que os participantes, ao final dos trabalhos, conheçam e ajudem a preservar os valores dos índios brasileiros”, explica a antropóloga que dedica sua vida à disseminação e proteção da cultura nativa do Brasil.



LÁPIS DA NATUREZA LEVA A CURRALINHO FOTOS DE BERNADO MAGALHÃES
15/07/2003

Em evento paralelo ao 35º festival de Inverno da UFMFG, o fotógrafo Bernardo Magalhães expõe seu mais recente trabalho no Centro Cultural Dona Zeca Ferreira, em Curralinho, distrito de Diamantina.

São 15 imagens de uma pesquisa tendo como base os trabalho do pioneiro da fotografia William F. Talbot. Lápis da Natureza, esse é o título que Talbot deu ao seu livro, o primeiro ilustrado com fotografias, em 1844. Nele são apresentadas 24 imagens e textos onde ele reconta a trajetória de seus pensamentos e pesquisas químicas.

A inauguração acontece dia 17 de julho, às 19 horas, e a mostra fica em cartaz até dia 31, aberta à visitacão de terça a sexta-feira de 14h às 19h, e nos sábados e domingos de 14 às 18 horas. O Centro Cultural Dona Zeca Ferreira fica na rua do Rosário, 92, em Curralinho (Diamantina/MG).

O inspirador

Talbot, cientista, astrônomo, botânico e lingüista trabalhava diretamente com o papel que ele mesmo sensibilizava. O processo era “simples”: o objeto, folhas, penas ou tecidos, era colocado sobre o papel sensibilizado, comprimindo-o em contato contra um vidro, expondo à luz do dia e depois revelando.
Obtinha-se assim um “calótipo”, um negativo, que por sua vez era copiado, de novo por contato, para se obter um positivo: foi a invenção da técnica negativo-positivo e que possibilitava a reprodutibilidade da imagem.
Nessa pesquisa Bernardo recupera o processo de Talbot, mas acrescenta uma novidade: a obtenção de um positivo direto. É um trabalho ao nível da emulsão sensível. Subvertendo quimicamente a trajetória programada para o papel fotográfico a imagem surge com uma beleza estranha.

O que vemos é: o negativo e o positivo de uma imagem, mas este não é a cópia daquele. É um positivo obtido diretamente, através de uma reversão química. Imagem única, pois toda vez que se repetir o processo as variações serão inevitáveis e a reprodutibilidade não se afirma. Depois foram as viragens e manipulações em sépia e cobre.

O artista

Bernardo Magalhães tem uma longa trajetória na fotografia. Já trabalhou na grande imprensa em São Paulo e na Europa. Participou da Bienal de São Paulo com uma pesquisa sobre a Pré-história no Brasil, e em 1999 foi o curador da mostra Minas:minas - Memorial e Contemporânea apresentada em São Paulo. Por uma ironia do destino, ou falta de sensibilidade de patrocinadores e do poder público Minas:minas nunca foi apresentada em Minas Gerais. Foi a maior reunião de imagens da produção de fotografia em Minas Gerais jamais reunida: acervos e coleções históricas dos maiores museus de Minas e de particulares e a produção contemporânea de 45 fotógrafos.

Morador de Diamantina há 3 anos Bernardo participou dos Festivais de Inverno da UFMG em 2001 como professor e em 2002 com o espetáculo de encerramento “Rede de Pedras”, uma encenação pelas ruas da cidade com a participação dos artistas locais e um espetáculo multimídia na cadeia velha da cidade.

O lugar

Curralinho fica a 8 kms do centro de Diamantina. Conhecida no século XVII como Extração, nome oficial do lugar, ele já foi centro diamantífero da maior importância. Lá foi construída a primeira hidroelétrica da região, na cachoeira das andorinhas, e que alimentava as minas da Serrinha e da Boa Vista que pertenciam aos ingleses. Local acolhedor rodeado de serras e picos e uma igreja setecentista: Nossa Senhora do Rosário, com belas imagens barrocas.

A Associação Pró-desenvolvimento de Extração fundada nos anos 70 é uma instituição voltada para o desenvolvimento social, visando a cultura, a educação e o resgate da história da população local. O Centro Cultural Dona Zeca Ferreira, mantida pela Associação, leva esse nome em homenagem à Dona Zeca, conhecida parteira e enfermeira com mais de 1300 partos na região, inclusive de trigêmeos. Natural de Curralinho D. Zeca foi atuante por mais de 60 anos na profissão, figura muito querida e respeitada por todos.

Telefones para contato
Beco, em Curralinho:
para informações sobre o local e a Associação: (031) 9667 9186
Bernardo: para informações sobre a exposição: (38) 3531 7349

 


PINTURA DE LEDA CATUNDA É TEMA DE PALESTRA
E OFICINA NO 35º FESTIVAL DE INVERNO DA UFMG

14/07/2003
Mariana Paulino

Quando lançou-se profissionalmente, aos 24 anos, com uma exposição individual no Rio de Janeiro, respaldada pela participação na 18ª Bienal Internacional de São Paulo, a artista plástica Leda Catunda foi recebida com entusiasmo pela imprensa e pelo circuito das artes plásticas em todo o país.

“Foi uma surpresa agradável, pois pude ampliar meu trabalho, minha produção, investir em mim”, relembra Catunda, que participa do 35º Festival de Inverno da UFMG, em Diamentina, onde, além de oferecer ao longa desta semana a oficina Pintura contemporânea, também dá a palestra Trajetória da artista e a arte contemporânea hoje, na terça-feira (15).

Nessa palestra, em que resgata sua própria trajetória, a pintora relembra que, naquela época, as artes plásticas estavam na moda, por isso a Geração 80 (de Leonilson, Sérgio Romagnolo, Alex Fleming, Daniel Senise, entre outros), da qual faz parte, conseguiu um espaço que talvez hoje não conseguiria.

O fato é que este grupo foi responsável por uma renovação nas artes plásticas brasileira, que se caracterizou pela disposição em rever linguagens, experimentar novos suportes e discutir, sobretudo, os caminhos e descaminhos da pintura.

Relendo a pintura

Hoje, 18 anos depois e doutora em poéticas visuais, Leda é considerada uma das mais importantes pintoras brasileiras da atualidade. Seu trabalho busca uma ampliação da tradicional noção de pintura, através de diferentes materiais e suportes. Há uma pesquisa, nas criações de Leda Catunda, assim definida por ela: “Na minha obra, a matéria prima já traz alguns significados”. Na palestra desta terça-feira, Catunda remete também à sua tese de doutorado, em que trata da estética da maciez, definição para a “pintura macia, não agressiva”, presente em sua obra.

A oficina que ministra, de Pintura Contemporânea, foi uma das mais procuradas de todo o Festival. Nela, Leda introduz a discussão der conceitos da história da arte moderna e contemporânea através de exercícios de pintura, procurando colocar em questão as diferentes atitudes presentes na arte da atualidade.
Perguntada sobre as críticas às artes contemporâneas disparadas por intelectuais como Affonso Romano de Sant’Anna e Ferreira Gullar, ela responde que considera as críticas infundadas. “Não houve ainda uma pesquisa séria, com publicações organizadas, que tenha investigado realmente o trabalho da Geração de 80. Ainda é cedo para julgá-lo”, justifica. Na sua opinião, os museus, instituições e universidades brasileiras não estão preparados para absorver a arte enquanto ela acontece.

 


AS VÁRIAS POSSIBILIDADES DO TEATRO, DA PERFORMANCE E
DA DANÇA SÃO DISCUTIDAS EM FÓRUM INTERNACIONAL

14/07/2003
Mariana Paulino

A manhã de segunda-feira no Festival de Inverno foi reservada para a reflexão sobre as artes cênicas. A professora da UFMG, Rita Gusmão, começou a palestra do segundo dia do Fórum Internacional de Arte Contemporânea falando sobre as diferenças entre performance e teatro. Ela explicou que a performance aglutina uma série de revoluções na atividade cênica. “A performance distingue-se do teatro ao romper com a hegemonia da palavra, desconstruir o tradicional trabalho do ator, incorporar a cenografia ao ato representativo. Nela, há um compromisso com a improvisação, a participação do público e o grupo”, descreveu.

Falando em seguida, Bia Medeiros relatou sua experiência à frente do Grupo de Pesquisa Corpos Informáticos e caracterizou as artes cênicas, na contemporaneidade, como sendo a arte do “ser com”, “estar com”, do grupo, e não mais a do autor. Com isso, a arte efêmera, da performance e da intervenção urbana são as tendências mais marcantes na atualidade, inclusive pelo uso da tecnologia.

Em seu atividade junto ao Grupo Corpos Informáticos, Bia trabalha a dicotomia entre o corpo e a máquina, explorando os limites entre essas duas interfaces. Na prática, têm-se a telepresença, uma performance à distância, “local onde realmente se cria a intersubjetividade, onde uma rede (como a Internet), de fato, se dá”, esclarece a pesquisadora. As experiências dos “corpos performáticos” podem ser conferidas no site www.corpos.org.
Dança
A dança foi o tema da palestra da bailarina e coreógrafa Patricia Hoffbauer. Brasileira radicada em Nova York, ela deixou claro que suas referências são fruto de sua própria trajetória. “Minha formação foi no Rio no fim da década de 70. Meu aprimoramento, em Nova York. Minha visão não é neutra. Eu me sinto fora de lugar e sempre em confrontação, principalmente depois de 11 de setembro”, observa.
Patricia questionou qual seria a forma de revigorar a dança. “Na década de 60, houve uma ruptura com a formalidade até então vigente na dança. O bailarino passou a ter independência de movimento, ele era a expressão e não mais expressava a intenção de outro. A dança era vista como algo cerebral, que negava a superdramatização. A improvisação o corpo presente e o imprevisível eram os elementos mais valorizados”, disse.

Para ela a crise chegou com a década de 80, quando a dança vira um produto. “Nos EUA é preciso de um produtor ou um teatro para comprar a dança. Alguns artistas criam para agradar a um público”, destacou. E a situação continua mais ou menos a mesma, até hoje, ela confirma.

A bailarina finalizou sua fala argumentando que “estamos em um momento paralisado” e explicou que uma das formas para seguir em frente seria a “revisão” dos caminhos seguidos até então, por alguns coreógrafos e estudiosos. Como já vem sendo feito por Mikhail Barysnikov, que está resgatando alguns trabalhos de dança em Nova York. “É preciso pensar como a dança se relacionou e vai se relacionar com o mundo”, resumiu.

 


A ESCRITA DO MOVIMENTO DE PATRICIA HOFFBAUER
13/07/2003
Mariana Paulino

A área de artes cênicas do Festival de Inverno da UFMG traz à baila a discussão sobre se a contemporaneidade no teatro pode ir além da utilização da tecnologia. Três oficinas de atualização compõem a programação: em uma delas, Rita Gusmão vai discutir os limites e diferenças entre a performance e o teatro; em outra, Patrícia Hoffbauer vai trabalhar a interdisciplinaridade possível nas artes cênicas, que há muito é a linha de trabalho do próprio Festival; e na terceira, Bia Medeiros vai refletir sobre como as tecnologias estão interferindo no teatro e na dança.

“O teatro não tem como abrir mão do humano, mesmo na arte contemporânea. Temos uma oficina com intervenção na rua, em que o aluno trabalha com lápis e papel, e outra que trabalha com performance em telepresença, com computador. Em ambas, a atuação da pessoa é imprescindível”, destaca Ernani Maletta, Coordenador da área e mediador da palestra sobre o tema, que aconte no dia 14 (segunda-feira).

Estrela
Considerada uma mistura de Carmem Miranda, Lenny Bruce e Tina Turner, pelo jornal The New York Times, a carioca Patricia Hoffbauer é uma das maiores “estrelas” deste Festival. Trabalhando em Nova York desde 1985 como coreógrafa e performer, Patricia desenvolve, ao lado do escritor e performer George Emilio Sanchez, um trabalho de pesquisa em linguagens e elementos cênicos, financiado pelo por fundações norte-americanas.

Artista independente, Patricia explica que faz parte de uma geração que tem uma proposta cultural diferente, que trata da “política de identidade”. “Busco mostrar como o artista fora do lugar define sua identidade”, diz. Para isso, faz um trabalho crítico, com paródia, que busca elementos na chanchada, em referências de fora do seu ambiente. E ainda agrega outras linguagens, como a performance e a literatura.

A coreógrafa chama a atenção para o fato de que na dança ainda há um primazia do virtuosismo em relação à idéia. “Nos Estados Unidos há uma linha, na dança, que busca tirar o artifício do movimento. É uma dança ascética, minimalista, que tenta libertar a dança da estrutura musical. Meu trabalho é o contrário, é maximizalista”.

No 35º Festival de Inverno da UFMG, Patricia dá uma palestra, dentro da programação do Fórum Internacional de Arte Contemporânea, e ministra a oficina Corpo, Movimento, Palavras, cujas vagas esgotaram-se logo no segundo dia de inscrição. “Patricia desenvolve um trabalho de dança com performance. E faz uma ponte com a palavra, a literatura. São três interfaces”, explica Maletta.

No curso, a coreógrafa vai passar técnicas dramáticas e performáticas de investigação física, explorando a relação entre diferentes suportes comunicacionais. Texto, movimento, situações teatrais concretas e abstratas, espaço e tempo, movimento individual do performer e o material coreográfico proposto.

“Vou trabalhar a improvisação, desenvolver o movimento, propor a libertação através do movimento e do ato de escrever”. Para ela, trata-se de um trabalho de autor: “através da palavra, o bailarino se envolve mais”, afirma a coreógrafa.

 


BAILARINA REÚNE QUATRO COREÓGRAFOS EM UM SÓ ESPETÁCULO
13/07/03
Ana Fazito

Thembi Rosa, bailarina-criadora de Belo Horizonte, apresenta no Festival nesta segunda-feira seu solo Ajuntamento. Como o próprio nome diz, o espetáculo é uma junção de quatro peças coreográficas, idealizadas por coreógrafos diferentes, e a trilha sonora do grupo O Grivo em um só corpo, o da bailarina.

Rodrigo Pederneiras, Dudude Hermann, Adriana Banana e Luciana Gontijo foram os profissionais escolhidos por Thembi, pois desenvolvem trabalhos singulares no território da dança, além de apresentarem trajetórias identificadas a contextos históricos distintos. “A proposta do espetáculo é explorar como o corpo lida com essa multiplicidade de linguagens, como ele se adapta”, explica a dançarina, acrescentando que “a ligação entre as peças foi estabelecida por mim e, apesar disso, há uma clara transição entre elas durante Ajuntamento”.

Thembi usa um figurino neutro desenhado por Ronaldo Fraga e não existe cenário no espetáculo. O objetivo disso é que as modificações que se apresentam no corpo da bailarina, a partir da relação que ela estabelece com as diferentes lógicas coreográficas, sejam mais evidentes. A trilha sonora também ajuda a distinguir o estilo de cada coreógrafo. “Algumas das coreografias partiram das trilha pronta, outras serviram de base para a criação da música e ainda houve caso em que dança e música foram compostas ao mesmo tempo”, diz Thembi.

Espetáculo Ajuntamento
Local: Teatro do Instituto Casa da Glória
Horário: 21h
Entrada Franca mediante doação de agasalho ou alimento não-perecível



REVISTA DO INSTITUTO ARTE DAS AMÉRICAS É LANÇADA NO FESTIVAL
13/07/03
Ana Fazito

O Instituto Arte das Américas em uma iniciativa conjunta com a FUMEC, Fundação Clóvis Salgado, UFMG, Ministério da Cultura e Editora C/Arte lança nesta Segunda-feira no Festival de Inverno o primeiro número da Revista Instituto Arte das Américas. Resultado do I Fórum Arte das Américas, realizado no Palácio das Artes na capital mineira em Novembro de 2001, a revista debate questões sobre intercâmbio culturais, bienais, arte e política e arquitetura no continente americano.

De acordo com Fernando Pedro da Silva, presidente do Instituto, a publicação traz textos provocativos de importantes representantes do cenário cultural internacional, como Fernando Cochiarate, Leonor Amarantes, Nelson Herrera Ysla, Edward Sullivan e Aracy Amaral. Esta última traça em seu artigo a trajetória histórica da Bienal de Arte de São Paulo, “uma história crítica inédita, que não está publicada em nenhum outro local”, diz Fernando. Ele ainda acrescenta que a revista aparece para suprir uma lacuna existente na discussão sobre arte contemporânea. “Não é uma publicação de cunho acadêmico, é um debate amplo com vários pontos de vista”.

A Revista do Instituto Arte das Américas poderá ser adquirida nas livrarias especializadas em artes ou através do site www.comarte.com, ao preço de R$ 20,00.

Lançamento da Revista Instituto Arte das Américas
Local: Mercado Velho
Hora: 20h
Entrada Franca



PERFORMANCE DE ÁUDIO E VÍDEO É UM DOS DESTAQUES DO FESTIVAL
12/07/2003
Carlos Eduardo Freitas

Arte eletrônica em performances de áudio e vídeo. Essa é uma das várias denominações que se pode dar ao trabalho realizado pelo FAQ, um grupo musical multimídia, que apresenta Revolución en Permanence and Party, domingo, dia 13, no Tetro do Instituto Casa da Glória, a convite do Festival. O espetáculo une elementos da música eletrônica e eletroacústica a imagens que remetem ao caos urbano, abordando temas como guerra, política, ideologia, revolução, anarquia.

Atuante desde dezembro de 1999, o grupo Feitoamãos, mesmo núcleo central de artistas do FAQ, já se apresentou no Festival de Inverno da UFMG, em 2002, com a performance Adamantos – a cidade cheia de dias iguais, quando tentou-se reproduzir, no antigo mercado de Diamantina, o clima do período em que a cidade era repleta de tropeiros e comerciantes de diamantes.

Formado por André Amparo, André Melo, Cláudio Santos, Lucas Bambozzi, Marcelo Braga, Rodrigo Minelli e Ronaldo Gino, o FAQ utiliza computador, guitarra, teclado, bateria e pick-ups para produzir o seu som eletrônico que, combinado a imagens previamente gravadas e digitalmente processadas, deixam para o espectador a função de recombinar os fragmentos apresentados, formando uma interpretação particular do evento.

Experimentando novas possibilidades narrativas a cada apresentação, Ronaldo Gino (ex-Virna Lisi), guitarrista e compositor do grupo, afirma que “o espetáculo dá margem ao improviso, trazendo novos elementos a cada montagem”.

Em Diamantina, o grupo pretende produzir uma interação com a cultura regional. “Vamos fazer um contato com os músicos locais e tentar trazê-los para nossa apresentação”, destaca Cláudio Santos, designer gráfico com longa atuação em web, cinema e vídeo, e um dos responsáveis pela manipulação dos computares durante o espetáculo.

 


LIVRO DE HISTORIADORA MINEIRA DESMASCARA
O MITO SENSUAL DE CHICA DA SILVA

12/07/2003
Ana fazito

Mulher guerreira, heroína e libertadora negra do século XVIII, venerada por sua beleza e sensualidade, capaz de fazer qualquer homem, negros e, principalmente, brancos latifundiários e donos de escravos cairem a seus pés. Essa é Chica da Silva retratada por Cacá Diegues em 1976, cantada por Jorge Benjor e tema de telenovela da extinta Rede Manchete em 1997. Uma invenção de folhetins, um mito, que tomou proporções de figura histórica singular e que a historiadora Júnia Ferreira Furtado desconstrói em Chica da Silva e o Contratador de Diamantes – o outro lado do Mito, livro lançado ontem em Diamantina durante o Festival de Inverno.

De redentora da raça negra resgatada pelo Movimento Negro na década de 70, Chica da Silva passa a grande proprietária de escravos, o que retrata um universo relativamente comum da Diamantina do séc. XVII, segundo Júnia. “Ela não era um acontecimento, sua vida era muito semelhante a de outras mulheres forras que, uma vez livres, copiavam hábitos e costumes da elite branca”, esclarece a historiadora. Ela, quando começou seus estudos sobre Chica, percebeu que seria impossível redescobrir essa ex-escrava sem levar em consideração o relacionamento com o contratador de diamantes João Fernandes. “O rumo da vida dela foi direcionado pelo casamento e pelos 13 filhos que teve, sendo que não amamentou nenhum deles”.

Se não foi uma exceção então por que Chica da Silva ganhou tanta notoriedade? Júnia explica que isso aconteceu por acaso. Em 1860, o advogado diamantinense e escritor nas horas vagas, Joaquim Felício dos Santos entra em contato com uma neta de Chica, da qual trabalhou como advogado em seu processo de divórcio. Fica sabendo da história da ex-escrava, a partir de relatos de seus descendentes, daí escreve Memórias do Destrito Diamantino, onde aparece uma Chica da Silva feia, boçal e dominadora. “Foi no início do séc. 20, com o movimento de valorização turística e histórica de Diamantina, que ela foi embelezada, embora sem qualquer base histórica”, diz Júnia.

A historiadora esclarece que essa construção de mitos fala mais do momento em que está sendo escrito do que da época passada em questão. O livro de Júnia é, então, uma tentativa de resgatar vários aspectos do séc. XVIII, a partir da pesquisa histórica da real Chica da Silva. Ao desnudar o mito, Chica da Silva e o Contratador de Diamantes pretende desmascarar essa idéia de que o Brasil é uma democracia social e mostrar que as questões raciais sempre foram tratadas de uma forma sutil. “A história está aí para desmascarar e não idolatrar ninguém”, adverte Júnia aos propensos leitores, “quem se aventurar no meu livro tem que ter o espírito aberto, pois a Chica da Silva que vai encontrar não se parece nada com a Chica mitológica”.

 


Fórum Internacional

205 INSCRITOS EM FÓRUM INTERNACIONAL DE ARTE CONTEMPORÂNEA
PROMOVIDO PELO PELO 35º FESTIVAL DE INVERNO DA UFMG

11/07/03
Mariana Paulino

O Fórum Internacional de Arte Contemporânea “Limites: Rupturas e Desdobramentos” tem como objetivo refletir e discutir sobre as atuais fronteiras artísticas e suas possíveis manifestações. “A idéia é possibilitar uma grande discussão a respeito da arte contemporânea, abrir espaço para o novo, o conflito. Porque é a partir de um desequilíbrio que se promove um movimento”, explica Fabrício Fernandino, Coordenador Geral do Festival e mediador da palestra de abertura do evento.

Até a tarde de 6ª feira, o setor de matrículas do Festival já havia recebido 205 inscrições para o Fórum. Pessoas que se interessam em novos conhecimentos e em formar uma capacidade crítica autônoma, coerente e participativa. “Espero que os elementos dados nas palestras sejam um embrião para uma proposta de ação criativa realmente focada na busca de novos caminhos da criação e expressão”. Para quem não vai a Diamantina participar do evento, as palestras serão transmitidas ao vivo, através do site www.ufmg.br, a partir de domingo.

Haverá palestras nas áreas de projetos especiais, artes cênicas, artes plásticas, música, literatura e cultura e mídia arte. Entre os convidados, professores da UFMG reconhecidos nacionalmente, como Rodrigo Antônio de Paiva Duarte, Maria Angélica Melendi, Mauro Rodrigues e César Guimarães. Doutor em Literatura Comparada, César Guimarães vai falar sobre “o lugar em que as artes estariam buscando certa interrelação entre gêneros, buscando outra vinculação”, a partir da análise do filme Elogio de Amor, do francês Jean-Luc Godard. “O cinema dele é uma forma expressiva da contemporaneidade, com gestos fragmentários, entre o romanesco (sem o romance) e o ensaístico. Polifórmico e heterogêneo, cercado por relações intertextuais, com a literatura francesa, com a Filosofia”, adianta o professor do curso de Comunicação da UFMG.

Já Angélica Melendi, coordenadora do grupo de estudos Arquivos Migratórios: Cicatrizes da Memória, que pesquisa a relação dos aqruivos e acrevos na arte contemporânea, vai trabalhar as questões de arte e política, em um sentido bem amplo, considerando a arte contemporânea na sociedade. Ela explica que vai “abordar uma série de eventos culturais na América Latina”. “Não gosto muito da palavra ruptura. As mudanças se dão por avanços e retornos”, completa.

 


Eventos

PROGRAMAÇÃO DE FIM DE SEMANA ESTÁ REPLETA DE ATRAÇÕES
11/07/03
Ana Fazito

O fim de semana promete ser movimentado em Diamantina. Oito eventos com entrada franca marcam a programação do Festival de Inverno, além da abertura do Fórum Internacional de Arte Contemporânea, que no domingo recebe o escritor Affonso Romano de Sant’Anna.

Sábado, o Ars Nova - Coral da UFMG se apresenta às 19 horas na Igreja Nossa Senhora do Amparo. As composições inéditas do maestro do Coral e também compositor, Carlos Alberto Pinto Fonseca, são o destaque do evento, uma homenagem ao maestro que se despede depois de mais de 40 anos de dedicação ao grupo. “Depois que entrei no Coral, dei uma face mais profissional e técnica ao coro, que ficou conhecido internacionalmente. Conseguimos alguns prêmios no exterior, o maior deles o Grand Prix de melhor grupo a se apresentar em Atenas, em 2000”, diz Carlos Alberto.

Ainda no sábado, a historiadora Júnia Ferreira lança seu livro Chica da Silva e o Contratador de Diamantes, na Casa Chica da Silva, às 20 horas. Ela desmonta o estereótipo de sensualidade que acompanha a ex-escrava e mostra como se inseriu na sociedade de Minas Gerais do século XVIII. Às 20h30 as musicistas Maria Luíza e Maria Eunice apresentam, também na Igreja Nossa Senhora do Amparo, um duo de piano e flauta. A Meia Ponta Cia. de Dança fecha a programação do dia, com o espetáculo Entre o Silêncio e a Palavra, às 21h30, no Teatro Instituto Casa da Glória.

Domingo é dia de ouvir Patrícia Ahmaral em Erudito, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário às 15h30. A cantora, mais conhecida pela música popular, chega a Diamantina acompanhada pelo pianista Mauro Chantal e com um repertório que vai de Strauss a Villa Lobos. “Para mim é uma surpresa estar nesta cidade, em uma apresentação solo, já que há pouco tempo que me dedico a música erudita”, diz Patrícia. Ela esclarece que não está abandonando a música popular. “Comecei a estudar música na UFMG para melhorar minha performance como cantora e acabei me apaixonando pela música erudita”.

A programação continua com o Projeto Arte no Beco, no qual o professor Evandro Passos ministra uma oficina de dança Afro, no Beco do Alecrim, às 16h. Logo após, às 17 horas, a fotógrafa Beatriz Dantas apresenta sua mostra Revisitando, no Museu Diamante.

Começando a desenvolver os temas que serão discutidos nas oficinas e palestras do segundo módulo do Festival, a abertura do Fórum Internacional de Arte Contemporânea – Limites: Rupturas e Desdobramentos será realizada no Auditório da FAFEID às 18h de domingo. Arte na Hora da Revisão é o nome da palestra de Affonso Romano de Sant’Anna, Revisões e Rupturas marca a participação de Olívio Tavares de Araújo e A Arte Enquanto Ruptura e os Desdobramentos Subseqüentes é o tema da fala de Rodrigo Antônio de Paiva Duarte.

Revolución en Permanence and Party é a apresentação da noite de Domingo, às 21h30, no Teatro do Instituto Casa da Glória. Resultado das experiências realizadas no Projeto Feitoamãos – Faq, o espetáculo apresenta simultaneamente projeções e manipulações de vídeo e música ao vivo.

 


Fórum Internacional

AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA ABRE FÓRUM INTERNACIONAL DE ARTE CONTEMPORÂNEA
DO FESTIVAL DE INVERNO DA UFMG, PROPONDO REVISÃO MULTIDISCIPLINAR DA ARTE
11/07/03

A palestra Arte na Hora da Revisão, do escritor mineiro Affonso Romano de Sant’Anna (foto), é uma das mais aguardadas dentro do Fórum Internacional de Arte Contemporânea “Limites: Rupturas e Desdobramentos”, na 35ª edição do Festival de Inverno da UFMG. A palestra vai acontecer no próximo domingo, às 18 horas, no Auditório da FAFEID (Rua da Glória, 187. Diamantina). Na mesma noite, a partir das 21 horas, na Livraria Diadorim (Rua Campos Carvalho, 9), Affonso vai participar de noite autógrafos.

Poeta e cronista, doutor pela Faculdade de Letras da UFMG, Affonso recebeu quatro dos mais importantes prêmios da literatura brasileira pela tese Carlos Drummond de Andrade, o Poeta “Gauche”, no Tempo e Espaço, publicada em 1972. Defensor da necessidade de reavaliação da produção artística contemporânea, segundo ele “está na hora de colocar o bloco na rua”, referindo-se à necessidade de articulação multidisciplinar, que discuta a arte não apenas no âmbito da crítica de arte, mas em perspectiva com outras áreas da produção social.

O senhor poderia ressaltar os principais pontos que o levam a declarar que está na hora de certa revisão da arte?

Ao trazer uma saudável renovação, a arte moderna trouxe também o germe da autodestruição. A arte do século XX é na verdade um grande cemitério, onde artistas se vangloriam de ter matado, liquidado, esquartejado isto e aquilo. Fala-se de "morte da história", "morte do homem", "morte de Deus", quem sabe não chegamos à "morte da morte"? Basta ver a reação de pessoas sofisticadas, médias e da maioria dos artistas, diante das exposições e bienais. Não é apenas que elas não entendem. Os autores também não têm o que explicar, a não ser um blá-blá-blá que não resiste, na maioria dos casos, a qualquer análise lógica, epistemológica ou lingüística. O que tenho mais ouvido nesses dois últimos anos, desde que comecei uma série de artigos no Globo, é as pessoas dizendo: "finalmente alguém falando em alto e bom som que o rei está nu". Essa metáfora tão recorrente é formulada por pessoas de todas as camadas sociais, inclusive entre os artistas mais autênticos e responsáveis. Por isto, acho que se deveria parar para pensar mais fundo nisto. E por isto proponho uma análise multidisciplinar da situação das artes hoje. Sozinha, a crítica de arte não dá conta da empreitada. Já fiz umas experiências convocando antropólogos, psicanalistas, lingüistas, gente de marketing, e o resultado foi positivo. E mais: quanto mais pesquiso no exterior, mais descubro gente falando e escrevendo o que eu penso. Está na hora de botar o bloco na rua.

O poeta e crítico Ferreira Gullar nega a idéia de evolução artística, em que as vanguardas apresentar-se-iam como superiores às escolas precedentes. Para Gullar, as rupturas são importantes, mas não devem ser definitivas. O senhor concorda com o ponto de vista do poeta?

Primeiro, vanguarda é uma coisa velha; segundo, os vanguardistas têm uma visão autoritária e errônea da história. A visão linear e triunfalista é típica do século XIX. Há aí resquícios de messianismo. As vanguardas surgiram no terreno da utopia do século XIX. A revisão que proponho visa a ver o século XX de modo diferente, pois até agora tem sido um apêndice do século XIX, que nos deu a psicanálise, a arte moderna e o marxismo. Pois bem, a psicanálise e o marxismo já entraram em processo de revisão. Por que não fazer a revisão da arte moderna advertindo logo que isto não tem nada a ver com reacionarismo e conservadorismo, antes pelo contrário?

Como o senhor avalia o atual cenário da produção cultural brasileira?

Isto já é assunto para outro seminário. Mas existe uma constante que passa pela análise das artes plásticas tanto quanto da literatura e cinema. Querem que vivamos por conta do mercado e marketing, querem que o homem seja "coisa", "utility", e que as obras sejam "commodity". Por isto, estou fazendo uma crítica ampla da cultura e analisando o que chamo de anemia ética e estética. Aí há que se correlacionar as artes com a questão das drogas, da violência e a globalização. O livro Desconstruir Duchamp, que sai no próximo mês, trata de tudo isto. Reúne os meus textos sobre artes e propõe uma nova visão analítica da cultura hoje.



Música

ESPECIALISTA EM ELETROACÚSTICA É
UM DOS DESTAQUES DA ÁREA DE MÚSICA
10/07/03
Carlos Eduardo Freitas

A composição eletroacústica é o tema da oficina ministrada pelo professor da Unesp, Flo Menezes, de 14 a 18 de julho. A música concreta, surgida em Paris, no final da primeira metade do século XX, e a música eletrônica alemã são precursoras do estilo: uma vertente do erudito experimental composto em estúdio eletrônico, que aceita todos os sons, até mesmo aqueles, aparentemente, “não-musicais”.

A Composição Eletroacústica Hoje – Espacialidade, Estruturação e Aspectos Históricos pretende, em sua primeira fase, analisar as obras do compositor Flo Menezes, quanto aos procedimentos de tratamento, síntese e espacialização dos sons. “O tratamento consiste em transformar sons captados de quaisquer fontes, a síntese é a sua geração a partir do computador e a espacialização”, completa Flo, “é o controle de suas trajetórias pela tecnologia digital”. Entretanto, os instrumentos tradicionais também são alvo de seu trabalho. “Estou convicto de que o instrumento acústico continua válido se ele se alia aos recursos tecnológicos. Ele se potencializa e pode servir ao pensamento musical dos dias atuais.”

Na segunda etapa da oficina, obras de outros músicos da segunda metade do século XX, como Luciano Berio, falecido em 27 de maio deste ano, Iannis Xenakis, compositor grego, que viveu na França até sua morte e K. Stockhausen, professor de música na Alemanha, formam o objeto de estudo.

“Ao ampliar os conhecimentos teóricos e de repertório da composição eletroacústica, pretendo propiciar uma experiência radical e diferente do que se costuma ouvir”, garante Flo.

 


Exposição

FESTIVAIS DE INVERNO SÃO REVISITADOS POR BEATRIZ DANTAS
10/07/03
Ana Fazito

A fotógrafa e professora da Escola de Belas Artes da UFMG Beatriz Dantas tem, a partir de domingo próximo, seus trabalhos expostos em Diamantina. A exposição, intitulada Revisitando, retrata, em 16 fotografias, três cidades que já acolheram o Festival de Inverno em momentos diferentes: São João del-Rey, na década de 80, Ouro Preto, nos anos 90 e Diamantina, em 2000, quando a fotógrafa participou como coordenadora da área de Artes Visuais.

Revisitando traz uma São João del-Rey em preto e branco com fotos que foram tiradas durante o festival, mas não necessariamente sobre o mesmo. “O tema principal são os detalhes da arquitetura do prédio da Fundação de Ensino Superior de São João Del Rey (Funrei) e as pessoas que lá passavam”, diz Beatriz. Em Ouro Preto, as fotos foram feitas após o festival e havia uma preocupação com o clima emocional da cidade. Nessa série, segundo a fotógrafa, já existe uma interferência de cores. Já os trabalhos sobre Diamantina são coloridos e falam da paisagem da região, “há neles uma atenção maior com o brilho, a luz”.

De acordo com Beatriz, o Festival de Inverno está presente de uma forma sutil em seus trabalhos, ele entra com a questão conceitual. Para ela as fotos refletem as discussões na área de artes visuais que aconteceram sobre cidades. “A idéia de revisitar é essa, rever a cidade depois dos acontecimentos do festival”, conclui.

Os trabalhos de Beatriz foram pós-visualizados, ou seja, receberam um tratamento no laboratório e, no caso de Ouro Preto e Diamantina, esse tratamento foi digital. Ela contou com o auxílio de Marcelo Kraiser no processo e as fotos foram impressas no Centro Fotográfico, em Belo Horizonte.

Exposição Revisitando – Fotografias de Beatriz Dantas
Local: Museu do Diamante (Rua Direita, 14. Diamantina)
Visitação: 15 a 25 de julho, de 3ª a Sábado, de 12h às 17h e Domingo, de 9h às 12 h.
Entrada franca

 


Dança

ESPETÁCULO DE DANÇA MOSTRA A PRESENÇA FEMININA NA HISTÓRIA
10/07/03
Ana Fazito

Entre o Silêncio e a Palavra é o nome do espetáculo da Meia Ponta Cia. de Dança, de Belo Horizonte, atração do Festival nesse fim de semana. Mais do que revisitar o universo feminino na história, o espetáculo utiliza da dança contemporânea, alinhada a elementos de multimídia, para falar de um conjunto de crenças que cercaram e ainda cercam as mulheres ao longo dos tempos.

De um modo não panfletário, segundo Vinícius Resende, assessor de imprensa da Companhia, Entre o Silêncio e a Palavra resgata imagens de figuras femininas que marcaram a história. “O espetáculo não recupera somente a imagem de mulheres famosas que de alguma forma fizeram época; é um retrato também das donas-de-casa, das mulheres simples”, fala Vinícius.

Com direção artística de Juliana Grillo e Marisa Monadjemi e coreografia de Tuca Pinheiro, no espetáculo os bailarinos dançam em sintonia com um vídeo projetado na tela, produzido pelo designer Leandro HBL. A trilha sonora original é do músico pernambucano Kiko Klaus.

Criada há quatorze anos pelas bailarinas Marisa Monadjemi e Juliana Grillo, a Meia Ponta Cia. de Dança tem cinco espetáculos profissionais já montados e a experiência de inúmeras apresentações no Brasil e no exterior, tais como na ECO 92, no Rio de Janeiro, e na Mostra Internacional de Dança Contemporânea de Laussanne, na Suíça.

Entre o Silêncio e a Palavra – Espetáculo da Meia Ponta Cia. De Dança
Data: 12 de julho – Sábado
Horário: 21h30
Local: Teatro do Instituto Casa da Glória – Rua da Glória, 298. Centro. Diamantina
Entrada franca mediante doação de agasalho ou alimento não-perecível na bilheteria do Instotuto Casa da Glória, no dia do espetáculo, às 13 horas.

 


Curso
09/07

OFICINA SENSIBILIZA OLHAR PARA PATRIMÔNIO EM DIAMANTINA

O que significa, para uma cidade como Diamantina, ser patrimônio nacional e da humanidade? Esse é um dos questionamentos que envolvem o curso Memória e Patrimônio: Experimentações do Olhar, ministrado pela professora da UFMG e historiadora Regina Helena Alves, que acontece até 6ª feira.

Com dinâmicas que propõem diferentes formas de perceber Diamantina, os alunos começaram saindo às ruas como turistas, tirando fotos e passeando como se fossem simples observadores dos pontos turísticos da cidade. A mudança do papel desses observadores no decorrer dos dias é, segundo Helena, uma forma de aprender a olhar, cheirar, apalpar, ou seja, compartilhar sentidos e entender o patrimônio histórico e cultural como não só edificado, material, mas que abranja também manifestações imateriais, culturais. “Aqui no Brasil quem define o que é patrimônio são os especialistas, mas precisamos discutir um sentido que possa ser compartilhado pelo poder público, pelas pessoas envolvidas, por toda humanidade”, diz a professora. Ela acrescenta que esse trabalho é uma tentativa de fazer com que Diamantina não se torne uma Ouro Preto, “todo mundo sabe onde fica, o que é, mas ninguém cuida, o uso é comercial e não de vivência”. Helena comenta que “o homem tem direito à exercer sua criatividade cultural. Temos que criar políticas públicas para a preservação dela, de uma forma que não seja imposta”.

Para os alunos, a maioria estudantes universitários ou profissionais da área de Turismo, Patrimônio e Cultura, o curso é uma oportunidade de se abrir aos poucos o olhar. A aluna Sheila Geber afirma que já começa a perceber o patrimônio de uma forma não leiga, o que a possibilita exercer melhor sua função de preservação do mesmo.

O trabalho final da oficina deverá ser uma cartografia de sentidos de Diamantina, onde cada dupla de alunos escolhe um espaço da cidade para estudar os significados desse patrimônio para os outros e para eles. A intenção de Helena é apresentar o resultado desse laboratório a céu aberto em uma exposição na mostra do Festival de Inverno, em Belo Horizonte, ao final deste ano. (Ana Fazito)

 


Exposição
08/07

PAISAGEM SUBMERSA PRESERVA AS HISTÓRIAS
DE UMA REGIÃO QUE VAI DEIXAR DE EXISTIR

A vida nos povoados compreendidos entre os municípios de Berilo e Grão Mogol, no Vale do Jequitinhonha, que serão inundados pela Hidrelétrica de Irapé, despertou o interesse de três fotógrafos mineiros – João Castilho, Pedro Davi e Pedro Motta – e se tornou o tema do projeto Paisagem Submersa. O trabalho consiste em uma série de ensaios autorais que estão sendo realizados nas viagens dos três fotógrafos à região. Parte desse trabalho está na exposição de mesmo nome, que acontece na Galeria da Secretaria Municipal de Cultura, em Diamantina, entre 10 e 25 de julho.

Na mostra-instalação, cerca de 300 slides diferentes são projetados, em várias direções, no porão da Casa de Cultura, em um ambiente totalmente escuro, que contrasta com a luz das imagens. O objetivo de Paisagem Submersa é captar o universo simbólico e material de um povo com 300 anos de história e documentar todo o processo de mudança das áreas atingidas, a desapropriação das terras e a reorganização das famílias. “A relação com o rio Jequitinhonha, a rotina dos habitantes e a perda da relação com o espaço são apreensões do real, documentadas em nosso trabalho”, afirma João Castilho.

A hidrelétrica já estará pronta e os povoados já terão desaparecido em 2006, ano em que o projeto será finalizado com o lançamento de um livro de fotografias e uma grande exposição. “Pretendemos que nosso trabalho chegue a escolas, bibliotecas, museus e às prefeituras da região atingida pelas águas do rio. Dessa forma, uma parte importante da História daquela região repleta de manifestações populares, artísticas e culturais estará disponível para as próximas gerações”, finaliza João. (Carlos Eduardo Freitas)

Exposição Paisagem Submersa
Local: Galeria da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo – Rua Antônio Eulálio, 53. Centro. Diamantina
Visitação: de 10 a 25 de julho, de 9h às 18h
Entrada franca

 


Exposição
07/07/03

SEIS OLHARES SOBRE O PARQUE ESTADUAL DO RIO PRETO

O Museu do Diamante recebe, entre 7 e 11 de julho, a exposição Esculturas de Luz, uma produção do ateliê de escultura da Escola de Belas-Artes da UFMG (EBA). A exposição, coordenada pelo professor Fabrício Fernandino, é resultado de um trabalho iniciado em setembro de 2002 e conta com 30 fotografias produzidas por cinco alunos de escultura da EBA e pelo próprio professor.

A mostra adotou o Parque Estadual do Rio Preto, localizado a 60 km de Diamantina, como cenário para as impressões fotográficas. “Escolhemos o cenário natural, pois lá encontramos esculturas prontas, formadas por luz, sombra e matéria, capazes de silenciar o espírito e educar o olhar”, afirma Fabrício.

O título da exposição remete à necessidade da luz para imprimir as imagens na película fotográfica e à sua imprescindível presença para a obtenção da tridimensionalidade nas esculturas naturais. Os visitantes poderão apreciar trabalhos que apreendem com maestria a rara beleza do Parque Estadual do Rio Preto e ampliar os conceitos tradicionais sobre escultura. (Carlos Eduardo Freitas)

Local: Museu do Diamante, à Rua Direita, n° 14, Diamantina.
Visitação: 7 a 11 de julho, de 12h às 17h.

Entrada franca.

 


Teatro
07/07/03

A IMPLACÁVEL DEGRADAÇÃO HUMANA EM JB

A proposta de mostrar uma visão da degradação humana como resultado de suas próprias criações permite discutir a problemática contemporânea. “Buscamos discutir as possibilidades contemporâneas, avançando no que se refere à interpretação e à montagem, para mostrar como a degradação material leva à aniquilação humana”, explica o diretor, Fabrício Andrade, comparando o trabalho do grupo ao tema da 35ª edição do Festival. “A nossa criação coletiva toma a contemporaneidade como abertura para a exploração da corporalidade da emoção, através de várias técnicas”, completa.

Na peça, ganhadora do prêmio Pulitzer na categoria drama em 1957, JB é um capitalista que perde tudo, como no arquétipo bíblico, dos bens materiais à própria família, e vai da degradação material à humana. Com cenário e figurinos minimalistas, sua força está na interpretação do ator. “A estrutura épica permite várias formas de adaptação. Optamos por uma montagem direta, que valoriza o ator e o contato com o público”, conta Fabrício.

Em JB são trabalhados, analogamente, o distanciamento (crítico) e a ilusão (acrítica). O espetáculo busca a quebra de catarses na relação com o espectador e confere novos significados a pilares universais da sociedade, como valores, família e religiosidade. (Mariana Paulino)

JB – Espetáculo dos formandos do Curso de Formação de Atores do TU/UFMG
Dias: 7, 8 e 9 de julho
Horário: 20h30
Local: Teatro do Instituto Casa da Glória – Rua da Glória, 298. Diamantina.
Entrada franca – os ingressos devem ser retirados na bilheteria do local, no dia do espetáculo, às
13 horas.

 


Festival
23/06/03

ABERTAS AS INSCRIÇÕES PARA SEMINÁRIOS, CURSOS E OFICINAS

Estão abertas as inscrições ao 35º Festival de Inverno da UFMG, o mais tradicional evento universitário na área da cultura no país. Tendo adotado este ano um formato modulado, com as atividades divididas em três semanas, o Festival está recebendo inscrições também por módulos. As matrículas para as atividades da segunda semana terminam no dia 9 de julho e para a terceira, no dia 16 de julho.

“O Festival de Inverno é um compromisso da UFMG tem com a cultura brasileira, que nunca deixamos de cumprir integralmente, mesmo nas ocasiões mais difíceis, como a que estamos atravessando agora. A despeito de a Universidade não dispor de recursos orçamentários para financiar o evento, nele empenhamos alguns de nossos melhores capitais humanos e de infra-estrutura, condição que tem sido indispensável para assegurar o seu êxito a cada nova edição”, disse a reitora Ana Lúcia Gazzola.

Este ano, contudo, o Festival aparece de cara nova, com um formato adequado tanto às demandas contemporâneas quanto às restrições financeiras impostas nos últimos tempos à cultura em nosso país. “Não há como fugir a certas limitações, como as dificuldades financeiras para a realização de um evento dessa magnitude, orçado este ano em R$ 550 mil - dinheiro que ainda estamos tentando captar integralmente”, disse diretor de Ação Cultural da UFMG e coordenador-geral do Festival, Fabrício Fernandino.

Contemporaneidade
O projeto do 35º Festival de Inverno da UFMG se estruturou em torno do tema Limites: rupturas e desdobramentos, "privilegiando a experimentação e a busca por linguagens que inovem a expressão e a criatividade", explica o coordenador-geral. Ele está organizado em módulos semanais, absolutamente independentes. A abertura acontece no dia 6 de julho, um domingo, seguindo-se o restante da programação nas três semanas subseqüentes, durante as quais acontecerão um fórum internacional, dois cursos, 27 oficinas e 25 palestras, além de uma programação variada de eventos artísticos.

A primeira semana será dedicada a quatro atividades principais: o seminário Ações sobre o meio ambiente e turismo sustentável, destinado a profissionais ligados ao turismo e meio ambiente, estudantes das áreas de arte, turismo e geociências, além de outros interessados, que também poderão se inscrever na oficina Ecoturismo/turismo na natureza.

Ainda nesta primeira semana acontece o curso Memória e patrimônio: experimentações do olhar, que tem apoio da diretoria da Unesco no Brasil. Finalmente, integram a programação da primeira semana o seminário Gestão cultural e o curso de atualização Legislação cultural, marketing cultural e captação de recursos.

Fórum internacional
Na segunda semana vai acontecer o fórum internacional de arte contemporânea Limites: rupturas e desdobramentos, eixo conceitual de todo o 35º Festival de Inverno da UFMG, durante o qual as atividades de desdobrarão em cinco áreas temáticas e em uma área de projetos especiais, com três palestras diárias e a realização de 16 oficinas a cargo de convidados do país do exterior.

A terceira semana será ocupada pelo evento Jornada do futuro, destinada ao público formado por crianças e adolescentes de sete a 14 anos da cidade de Diamantina e arredores, prioritariamente alunos da rede pública de ensino. "Esse projeto incorpora a preocupação de promover a inclusão social, através das oportunidades oferecidas pela prática artística", explica Fabrício Fernandino. Serão realizadas dez oficinas, ministradas por professores e profissionais da região.