Fernando Ruiz
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Abertura da CRES 2008, em Cartagena das Índias, na Colômbia, contou com a presença do presidente Alvaro Uribe

UFMG participa da Conferência Regional da Educação Superior

quarta-feira, 4 de junho de 2008, às 17h20

Marcílio Lana, Cartagena das Índias (Colombia) - Começou hoje, quarta-feira, 4 de junho, a Conferência Regional para a Educação Superior (CRES 2008), em Cartagena das Índias, na Colômbia. A UFMG participa do evento e leva a Colômbia uma delegação liderada pelo reitor Ronaldo Pena. Hoje, pela manhã, antes do início da CRES 2008, o reitor da UFMG concedeu uma entrevista ao portal de notícias da Universidade.

Professor Ronaldo, qual é a avaliação do senhor sobre a importância que terá a Conferência Regional para a Educação Superior para a América Latina e para o Caribe?
Ronaldo Pena - A educação superior é o território onde está sendo jogado, no mundo contemporâneo, o destino das nações. Qualquer desatenção nesta área terá conseqüências imediatas, mesmo a curto e médio prazos, para a autonomia política, econômica, social e cultural de cada país. A desigualdade no terreno do conhecimento favorecerá, inevitavelmente, a formas renovadas de colonialismo. Particularmente no que diz respeito a nós, latino-americanos e caribenhos, o desenvolvimento que almejamos para nossos países, cuja história é tão marcada pela perversidade do colonialismo, está estreitamente associado à atenção que dedicarmos à educação superior.

O senhor acredita que será possível o estabelecimento de uma agenda para a educação superior na região, ou seja, o senhor acredita ser possível os governos incorporarem a educação superior como política de estado?
Ronaldo Pena - Certamente é possível e, mais que possível, necessário. O conhecimento, na multiplicidade de suas áreas, é condição de desenvolvimento social. Vivemos, hoje, nas chamadas sociedades do conhecimento, o que quer dizer que a posse e a difusão do conhecimento é um bem social de importância ímpar e condição de cidadania no concerto internacional das nações. Este cenário, de um lado, apresenta desafios inéditos para as universidades e, de outro, evidencia a necessidade de que a educação superior, ao invés de estar subordinada à aleatoriedade dos governos, seja pensada como política de estado, o que quer dizer investimento inteligente, consistente e continuado.

E em relação à proposta de estabelecimento de uma cooperação solidária? O senhor acredita ser possível estabelecer, na perspectiva dos governos, uma agenda de intercâmbios que fortaleça os sistemas educacionais em toda a região que, ao mesmo tempo incentive aqueles países que enfrentam grandes dificuldades para ter um sistema de ensino superior consolidado?
Ronaldo Pena - Certamente que os diversos países latino-americanos e caribenhos vivem situações distintas no que diz respeito aos respectivos sistemas educacionais. Diante disso, trata-se de respeitar a diversidade e, simultaneamente, de procurar induzir medidas que contribuam para o avanço do sistema como um todo. Nesse sentido, experiências bem sucedidas num país podem ser examinadas e estudada a viabilidade de seu compartilhamento com outros países. Por outro lado, é preciso reconhecer e incentivar oportunidades de trabalhos conjuntos, seja no ensino, seja na pesquisa, seja na extensão universitária.

E no que diz respeito ao Brasil, que experiência o senhor acredita que o país tem para compartilhar com os demais participantes? Seria a avaliação, a pós-graduação e a pesquisa, bem como também o registro de patentes? E, por outro lado, que experiência nós brasileiros precisamos absorver?
Ronaldo Pena - O Brasil possui, no campo da graduação, uma qualificação muito bem distribuída pela diversidade das áreas, um sólido sistema de pós-graduação, uma tradição de pesquisa consolidada, um índice crescente de participação na produção científica mundial. Enfrenta, é claro, inúmeros desafios, particularmente uma hesitação por parte do poder público no que diz respeito a políticas de Estado de longo prazo na área da educação superior, mas é importante ressaltar que nos últimos anos a política governamental tem sido mais conseqüente e mais incisiva. Temos, sobretudo na área da pós-graduação, instrumentos adequados e eficazes de avaliação. Penso que no campo de registro de patentes, parte de uma área mais ampla referente à transferência de conhecimento de uma forma geral, temos ainda muito a desenvolver. Por outro lado, o percentual de estudantes no ensino superior no Brasil, particularmente nas instituições públicas, é ainda pequeno, embora o projeto Reuni (Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), lançado pelo governo federal, certamente trará modificações de monta neste aspecto. Temos muitas questões que constituem um acervo importante a ser posto em discussão.Em torno desta agenda, temos muito, todos nós, a aprender. São questões que dizem respeito, sem querer ser exaustivo, a trajetórias curriculares, à mobilidade estudantil, a métodos e técnicas pedagogicamente inovadores, à interação pós-graduação/graduação, ao impacto social do conhecimento e a uma maior participação das universidades nos projetos de desenvolvimento nacional. Como se pode ver, estamos diante de um efetivo fundo público de questões relativas à educação superior.

A UFMG é uma universidade que já tem uma série de convênios com diversas universidades do país. Com quantas universidades latino-americanas e caribenhas temos convênio? Há a expectativa que a CRES 2008 possa alargar este leque? O senhor vislumbra algumas áreas e temas em especial?
Ronaldo Pena - Temos convênios em curso com 49 universidades latino-americanas e caribenhas e outros 30 convênios em tramitação. É um número significativo, mas que pode ser ainda substantivamente acrescentado. Temos muita expectativa com relação a esta Conferência. Dada a possibilidade de interação e dada a consciência da importância estratégica da educação superior, teremos inúmeras oportunidades de ampliar convênios já existentes, bem como de estabelecer novas parcerias. Particularmente, esta é minha expectativa enquanto reitor da Universidade Federal de Minas Gerais. São muitas as áreas de conhecimento capazes de abrigar novos convênios e as possibilidades se distribuem por todas elas. O que deve ser levado em conta são a identidade e a especificidade de cada instituição, de modo a que os convênios venham a se constituir, também, em importantes instrumentos de desenvolvimento institucional.
Para finalizar, alguns países, como a Venezuela estão colocando em curso um sistema de ingressos de estudantes na universidade no qual a trajetória curricular tem mais peso que uma prova tipo vestibular. O senhor acredita que este sistema pode ser incorporado à cultura das universidades brasileiras? E a UFMG?
Estão em curso, no Brasil, múltiplos sistemas de acesso ao ensino superior, entre os quais alguns têm em vista o desempenho no ensino médio. Mesmo entre as universidades que se valem apenas do vestibular ortodoxo, são muitas as diferenças. Penso, no que diz respeito a esta questão, que carecemos ainda de alguma reflexão mais avantajada, capaz de avaliar méritos e deméritos associados a cada forma de ingresso. Particularmente no caso da UFMG, o Conselho Universitário deliberou recentemente a favor da introdução de um duplo bônus. Estudantes provenientes da escola pública, desde que nela tenham cursado parte do ensino fundamental e todo o ensino médio, receberão um total de 10% sobre a pontuação obtida, seja na primeira, seja na segunda etapa do vestibular. Caso sejam negros, e tenham esta trajetória na escola pública, receberão um adicional de 5%. Assim procedendo, acredito termos atendido, ao mesmo tempo, o requisito do mérito e a necessidade da democratização do acesso.

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