Universidade Federal de Minas Gerais

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Ilustração da capa de Guimarães Rosa: fronteiras, margens, passagens

Pesquisadora de Guimarães Rosa fala sobre a obra do autor, em seu centenário de nascimento

sexta-feira, 27 de junho de 2008, às 9h10

“As pessoas não morrem, ficam encantadas”, disse Guimarães Rosa aos 18 anos de idade, na ocasião da morte de um colega da Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais. Após 41 anos, a frase foi repetida em sua posse na Academina Brasileira de Letras, lugar de imortalização dos escritores, ao qual Rosa teve acesso. Hoje, outros 41 anos mais tarde, a frase é relembrada, no centenário de nascimento do autor encantado pelas veredas, pelos idiomas, pelas diferenças e relações culturais. Para comemorar o aniversário do mineiro de Cordisburgo, a professora e coordenadora da Câmara de Pesquisa da Faculdade de Letras (Fale) da UFMG, Marli Fantini, em entrevista ao Portal UFMG, fala sobre pontos da obra de Rosa que a levaram ao alcance universal. Como pesquisadora de Rosa, Fantini publicou o livro Guimarães Rosa: fronteiras, margens, passagens (Senac; Ateliê: 2003), com o qual ganhou o primeiro lugar do Prêmio Jabuti de 2005.

Portal UFMG: Comemoramos, hoje, 100 anos de nascimento do escritor Guimarães Rosa. A que nos remete esta data?
Marli Fantini: No dia 27 de junho de 1908, nasce Guimarães Rosa. Curiosamente, nesse mesmo ano falece Machado de Assis. O centenário de vida de Rosa coincide com a morte de Machado. São nomes exponenciais da literatura brasileira, que contribuem para a divulgação dessa literatura internacionalmente, não só em países de língua portuguesa. A coincidência nos permite pensar numa espécie de troca de bastão entre os dois escritores, cada um dos quais responsável por atualizar e modernizar paradigmas estéticos, críticos e lingüísticos da nossa literatura em seus contextos históricos do século XIX e XX, período de modernização do Brasil.

P: Qual o papel da obra de Guimarães Rosa na literatura brasileira?
M.F: Críticos como Antônio Cândido, Cavalcanti Proença e Benedidto Nunes perceberam, desde as primeiras publicações de Rosa, a exuberante e inovadadora riqueza temática, lingüística e estrutural das obras do escritor. Em Grande sertão: veredas, a narrativa radicalmente inovadora se estrutura como um grande diálogo resultante da entrevista concedida pelo ex-jagunço Riobaldo a um homem culto que vem de fora para saber notícias do sertão no tempo da jagunçagem, de suas guerras geradas pelas truculentas disputas por poder e terras. Trata-se de diálogo, ou monodiálogo, em que se houve apenas a voz do entrevistado, como se essa fosse a hora e a vez de um sujeito subalterno pronunciar sua versão da história.

P: E na lingüística, tendo utilizado tantos neologismos?
M.F: Do ponto de vista lingüístico, Guimarães Rosa operou grandes transformçaões na sintaxe, na morfologia, nos usos literários em geral, tendo em vista a forma como tais padrões eram empregados até então na literatura brasileira. Além de fragmentar a linearidade das frases para, por exemplo, sugerir a descontinuidade do tempo ou da linguagem oral, ele cria neologismos ou recupera arcaísmos já esquecidos da língua portuguesa. Vale-se, ainda, de construções de palavras que implicam a aglutinação de dois ou mais idiomas no sentido de obrigar sua língua literária a dizer e significar mais do que o habitual, de criar situações inusitadas, de instituir uma espécie de princípio, de inteligibilidade universal, não apenas para sua língua, mas também para os espaços e contextos em que personagens estrangeiros conseguem interagir.

P: Quais os rasgos socioeconômicos e ambientais na obra de Rosa?
M. F: As disputas de terra, a utilização de mão-de-obra escrava ou semi-escrava, as gritantes diferenças socioeconômicas e culturais que permeiam toda a obra de Rosa, contemporânea a questões sobretudo relativas a meio-ambiente e sustentabilidade. Em Grande sertão: veredas, Riobaldo – narrador do romance – explica a seu entrevistador que, se ele foi conhecer as potencialidades ambientais e culturais do sertão, havia chegado tarde, pois, naquele momento, tudo já se achava em estado de degradação, em vias de desaparecimento.

P: Como a UFMG vai comemorar o centenário de vida de Guimarães Rosa?
M.F: Por meio do Congresso Internacional Centenário de Dois Imortais: Machado de Assis e Guimarães Rosa, que será realizado na Faculdade de Letras (Fale) da UFMG, de 29 de setembro a 3 de outubro deste ano. O Congresso terá convidados de nove países. Os parceiros do evento são a PUC Minas, a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal do Ceará (UNC).

P: Como as obras de Machado e Rosa serão relacionadas neste seminário?
M.F: Pelo centenário e pela imortalidade dos dois escritores, adquirida tanto porque foram da Academia Brasileira de Letras (ABL) – uma brincadeira que se faz é que quem entra na Academia se torna imortal – quanto porque têm uma importante obra. Todas as mesas e espaços do Congresso vão buscar a interface entre o trabalho dos dois escritores.

Em breve, no Portal UFMG, estará disponível a página web do Congresso Internacional Centenário de Dois Imortais: Machado de Assis e Guimarães Rosa, com informações sobre a programação e sobre as inscrições no evento.

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