Universidade Federal de Minas Gerais

Pesquisadores do IGC buscam explicações para a lenta agonia de afluente do São Francisco no Norte de Minas

quarta-feira, 25 de março de 2015, às 5h59

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Afluente do rio São Francisco, o rio Peruaçu [foto], no Norte de Minas Gerais, vem secando nos últimos anos, o que ameaça patrimônios naturais, como cavernas, e as comunidades que vivem às suas margens. A redução do fluxo de água tem sido observada inclusive nos períodos de precipitações pluviométricas normais, afirma a professora Cristina Helena Ribeiro Rocha Augustin, do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências (IGC) da UFMG.

Ao investigar as causas da seca de rios, a pesquisadora e sua equipe consideram três possibilidades: a hipótese geomorfológica, que assume as mudanças como um processo normal de evolução da paisagem; o impacto antrópico, decorrente de uso e manejo incorretos, com excessiva retirada de água, queimadas e outras formas de interferência humana; e a combinação de ambas.

“Mesmo considerando a hipótese geomorfológica como principal causa, o manejo e o uso incorretos agravam a situação. E sendo Minas Gerais uma importante zona de cabeceiras, na qual nascem rios como Jequitinhonha, Doce, Mucuri, das Velhas e São Francisco, cabe a adoção de ação imediata do governo, em várias frentes”, avalia Cristina Augustin, citando iniciativas que considera urgentes, como o estímulo ao replantio de vegetação nativa, o fim das queimadas e a garantia de sustentabilidade em atividades como pecuária e agricultura.

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Infiltração prejudicada
A presença da palmeira buriti [foto] ao longo de rios é marca registrada das veredas, ecossistemas específicos do Cerrado, nos quais se localiza o Peruaçu, objeto de estudo da equipe de Cristina Augustin desde 2010. As veredas ocorrem em fundos de vales, em áreas de drenagem difícil.

“Para que um rio tenha água perene, é preciso estimular a infiltração. Experiências realizadas no âmbito do projeto demonstram que a infiltração da água de escoamento é lenta: a água das chuvas de fevereiro chegará aos rios, por esse meio, só em maio”, explica a professora, lembrando que a falta de chuva apenas acentuou uma tendência, uma vez que o processo de seca do rio Peruaçu começou há mais tempo.

De acordo com a pesquisadora, há três maneiras de um rio secar: pela mudança climática, pelo uso excessivo da água do freático, mesmo mantida a reposição natural, e pela diminuição do volume, “não porque esteja chovendo menos, mas pela redução da infiltração, seja no solo, seja na rocha”. Nesse cenário, diz ela, a água tende a escoar superficialmente, especialmente em áreas com pouca cobertura vegetal, provocando enchentes.

A água pode até, inicialmente, encher reservatórios e os rios, mas estes secam rapidamente. Quando as primeiras chuvas encontram o solo descoberto, a água leva sedimentos que aceleram o processo de assoreamento das represas e rios. Uma das pesquisas orientadas por Cristina Augustin está identificando e monitorando o balanço hídrico na bacia do Peruaçu, para descobrir a quantidade de sedimento que chega ao rio.

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Professora Cristina Augustin, em coleta de amostras de solo

Outra explicação possível para o desaparecimento do fluxo superficial de água na calha do rio seria o excesso de deposição desse material. “Em alguns casos, os rios estão sendo literalmente enterrados pelos sedimentos. Para evitar que isso aconteça, é necessário outro tipo de ação, com manejo adequado do terreno”, afirma a professora, lembrando que o impacto registrado na parte alta do rio Peruaçu gera graves consequências para as cavernas (e seus acervos) do Parque Nacional do Peruaçu, localizadas quilômetros abaixo.

“Não é preciso uma tragédia para secar um sistema. Bastam ações como as que estão sendo levadas a cabo há vários anos nessas bacias e que estimulam as enxurradas, como a retirada de cobertura vegetal, o plantio indiscriminado de eucalipto, a criação de gado e o uso excessivo da água do freático”, enumera a pesquisadora do IGC. Ela alerta que o rio São Francisco corre o risco de, em longo prazo, ter partes expressivas do seu trecho soterrado pela quantidade de sedimentos levada pelos afluentes.

Medidas mitigadoras
Segundo ela, a primeira medida para reduzir o impacto antrópico é o estímulo ao replantio. Além disso, a professora sugere o planejamento das atividades agropecuárias no que diz respeito à intensidade, tipo e localização geográfica na bacia. Nesse processo, ressalta, não se pode analisar uma encosta ou um trecho, mas a bacia como um todo, adotando ações em cada microbacia, para entender se há sustentabilidade da pecuária. Isso inclui dimensionar se o número de cabeças de gado está adequado ao potencial forrageiro das encostas. “Quando se mata um rio, não se mata só o fluxo de água, mas todo o sistema aquático e seu entorno”, diz.

A professora defende o redirecionamento da economia, com a substituição da agricultura por outras atividades que explorem de modo sustentável as riquezas locais. Em sua opinião, cabe ao governo – nos âmbitos federal, estadual e municipal – estimular a preservação do cerrado e das veredas para que as comunidades locais consigam obter seu sustento. Ela destaca que toda ação nesse momento deve ser no sentido de manter o ciclo virtuoso de infiltração e reabastecimento, em médio e longo prazos.

Para Cristina Augustin, ao se utilizar uma fonte de água como recurso de potabilidade, deve-se evitar outros usos, como a agropecuária. “É fundamental que se adote uma política de uso e ocupação do terreno – solo é vertical, terreno é espacial – de modo a preservar as fontes de água”, comenta.

Ela também sugere a adoção de políticas públicas que planejem o uso das bacias hidrográficas, com atenção à densificação e ao tipo de uso, e cita o problema causado pelo grande número de sítios que criam cenário urbano em regiões que deveriam ser preservadas, como Várzea das Flores e Serra Azul, integrantes do sistema que abastece Belo Horizonte.

“Não falta conhecimento, o que falta é uma gestão integrada, pois em cada lugar o morador se sente o dono da água. E ainda tem os que acham que rio é local de despejo de lixo”, critica.

Hipótese geomorfológica
Ladeado por dois rios bem mais profundos, o nível freático do rio Peruaçu aparentemente encontra-se desvinculado do nível freático regional. “Ele parece ter criado um sistema próprio, com o desenvolvimento de um nível freático suspenso. Verificar se isto realmente ocorre, quais os mecanismos estão associados a esses freáticos suspensos e seu papel na manutenção do fluxo dos rios constitui uma nova fronteira de pesquisa”, conta Cristina Augustin.

Tal frente pode revelar processos normais de evolução da paisagem, mas expõe uma fragilidade dos rios de veredas, com seus sistemas locais. Em épocas de escassez de chuva, por exemplo, os sistemas regionais podem se recuperar mais facilmente, caso haja precipitações em suas cabeceiras.

“Pode ser que haja várias veredas com o que chamamos de nível freático suspenso que, uma vez impactado, enfrenta dificuldades em se recuperar, pois as interferências podem ser irreversíveis para um sistema local, cujo nível de resiliência é menor do que em rios vinculados a níveis regionais do freático”, observa a pesquisadora. Nesse cenário, o manejo incorreto acelera o processo de seca estudado na hipótese geomorfológica.

Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), o projeto Geodinâmica no domínio das veredas no Norte de Minas Gerais: processos e mecanismos está em fase inicial.

Fotos: acervo da pesquisa
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Análise de solo

Além de Cristina Augustin, compõem a equipe de pesquisa os professores Rubens Martin Moreira, do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), Fábio de Oliveira, do Departamento de Geografia, e Paulo Roberto Antunes Aranha, do Departamento de Geologia da UFMG.

O doutorando Bruno Debien, sob a orientação de Rubens Moreira, desenvolve metodologia sobre o uso de isótopos estáveis para análises de níveis freáticos e estudos ambientais, e Walter Viana Neves investiga a dinâmica superficial e subsuperficial e seu impacto na manutenção do fluxo do rio Peruaçu. “Ambos tentam responder por que o rio Peruaçu está secando”, informa a professora.

Em pesquisa de mestrado concluída na área, Brenner Henrique Maia Rodrigues realizou, a partir da base de geoprocessamento, a compartimentação geomorfológica das bacias hidrográficas da margem esquerda do rio São Francisco.

Também desenvolvem trabalhos de mestrado no local Renzo Viotti Buttler, que estuda as variações fitofisionômicas das veredas, buscando verificar se as zonas preferenciais de assoreamento têm impacto sobre essas variações, e Ubiranan de Lucena, que vem realizando, com o auxílio de isótopos estáveis e de análise de fitólitos, a reconstituição da paleovegetação da área, formada pelo cerrado e por ecossistema de veredas. A intenção da mestranda é entender as alterações climáticas e geomorfológicas que possivelmente afetaram a região durante o Holoceno (iniciado há dez mil anos) e o impacto sobre a alteração do relevo, que interfere na dinâmica do rio.

Bacia do Peruaçu
Com cerca de 100 quilômetros de extensão, o vale do rio Peruaçu tem trechos protegidos por dois parques – na parte alta, domínio dos arenitos, fica o Parque Estadual Veredas do Peruaçu, vinculado ao Instituto Estadual de Florestas (IEF). O Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, ligado ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), abriga inúmeras cavernas, localizadas em zona de calcário.

Segundo Cristina Augustin, ao delimitar o parque estadual, na parte mais alta, apenas um lado da bacia foi protegida. “Enquanto na parte preservada o cerrado já está alto e recuperado, pois há 25 anos não há queimadas, a outra continua com gado, queimadas e todo tipo de impacto”, relata.

A bacia abrange os municípios de Bonito de Minas, Januária e Cônego Marinho, distantes cerca de 700 quilômetros de Belo Horizonte.

(Ana Rita Araújo)

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