UFMG reforça compromisso com o combate à violência de gênero
Em evento nesta sexta-feira, Universidade lançou campanha contra o assédio e reiterou participação em projeto do MPMG
Por Matheus Espíndola
“Mulher não é propriedade. Sentar e refletir. Levantar e agir”. Essa mensagem está estampada nos bancos pintados de vermelho instalados nos campi Pampulha e Saúde nesta sexta-feira, dia 6. A ação marca a adesão da UFMG à campanha global Banco Vermelho, reforçando o seu compromisso com o combate à violência de gênero e ao feminicídio por meio de um memorial visual de grande impacto estético. A campanha se estenderá ao campus Montes Claros nesta segunda-feira, dia 9, durante a recepção de calouros.
Ainda nesta sexta, a UFMG lançou sua campanha contra o assédio e reiterou sua participação no Projeto Alerta Lilás, do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), em evento na Sala de Sessões da Reitoria.
O evento reuniu a reitora Sandra Goulart Almeida, a promotora Denise Guerzoni Coelho, do MPMG, e a ouvidora da UFMG, Joana Ziller, que apresentou detalhes da campanha UFMG contra o assédio, desdobramento da política institucional aprovada pelo Conselho Universitário em setembro do ano ano passado. De acordo com a ouvidora, a campanha coroa um esforço institucional que remonta a 2014, quando a Universidade iniciou a proibição de trotes que carregavam contornos de violência e assédio. A política de enfrentamento ao assédio da Universidade é fruto, segundo ela, de um amadurecimento coletivo de docentes, discentes e servidores técnico-administrativos.
“A resolução responde a um histórico de normativas relacionadas aos Direitos Humanos na UFMG. Ela estende o entendimento de violações de naturezas diversas, reconhecendo que o assédio e a violência de gênero não podem ser tolerados no ambiente acadêmico”, afirmou Ziller, que, durante a sua fala, apresentou o site da campanha e exibiu vídeo produzido pela TV UFMG sobre o tema.
Joana Ziller destacou que a instituição tem trabalhado numa perspectiva que considera as vulnerabilidades específicas de mulheres negras, trans e com deficiência. “Nossa política prevê um monitoramento rigoroso dos casos pela Ouvidoria Geral e o fomento a uma gestão participativa e solidária, em consonância com a cultura da paz e da comunicação não violenta”, pontuou.
A ouvidora também ressaltou a importância da dimensão educativa da campanha. De acordo com Joana Ziller, a temática do assédio será incluída de forma perene em treinamentos de integração de novos servidores, recepção de calouros e até mesmo na qualificação de profissionais de empresas terceirizadas que prestam serviço à instituição. “A formação deve ser o princípio central. Precisamos qualificar nossa comunidade para identificar e encaminhar adequadamente qualquer situação de risco ou violência”, concluiu.
Letramento de gênero
Para a coordenadora do Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Justiça de Combate à Violência Doméstica, promotora Denise Guersoni, a parceria com a UFMG é estratégica por permitir que o conhecimento científico e o ambiente acadêmico sirvam de barreira contra o feminicídio. Segundo a promotora, o Alerta lilás utiliza os sistemas de saúde e educação como portas de entrada para que a mulher vítima de violência acesse seus direitos fundamentais.
“Agimos baseados em dados objetivos extraídos do sistema de segurança, que nos orientam sobre quais políticas públicas percorrer”, explicou Denise Guersoni, ressaltando que Minas Gerais registrou 170 feminicídios consumados em 2025. Ela destacou que a qualificação de profissionais e alunos é o segundo eixo da campanha, promovendo um letramento de gênero necessário para identificar sinais de abuso e garantir o sigilo e a autonomia da mulher no atendimento.
A reitora Sandra Goulart Almeida reforçou o papel da universidade como espaço de resistência e promoção dos Direitos Humanos, lembrando que a UFMG tem um histórico de enfrentamento a posturas misóginas e racistas. “Não há brincadeiras inocentes quando estamos tratando de violência de gênero ou racial”, posicionou-se a reitora, rememorando as ações institucionais adotadas pela instituição para banir práticas degradantes nos campi. Em seu entendimento, a instalação dos bancos vermelhos e a adesão ao Alerta Lilás – objeto de protocolo de intenções assinado com o MPMG em dezembro – são atos concretos que vão além do simbolismo de datas comemorativas.
Sandra Goulart criticou a visão estereotipada do Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março, defendendo que a data deve ser um momento de reflexão e luta e não apenas de homenagens vazias. “Não me dê flores, combata a violência por meio de políticas públicas”, sentenciou.
Normativa
No ano passado, a UFMG estabeleceu sua política institucional de enfrentamento à violência e ao assédio no âmbito acadêmico. A resolução 07/2025, que estabelece os termos da normativa, foi aprovada em sessão do Conselho Universitário realizada em meados de setembro e publicada no Boletim UFMG em outubro.
Entre outros aspectos, a política define os diferentes tipos de assédio (como o sexual e o psicológico) e de violência (agressão física e cibernética). Além disso, ela determina procedimentos de prevenção, enfrentamento, denúncia, acolhimento e mediação que devem ser adotados em cada caso.
A resolução traz a seguinte definição geral para violência e/ou assédio na Universidade: “qualquer ação ou omissão que provoque ou possa provocar dano físico, psicológico, sexual, moral, econômico ou de outra natureza, como ameaça ou ação consumada, praticada por um membro da comunidade universitária no âmbito da UFMG”. A normativa determina que essa definição alcança tanto as práticas de assédio descendentes (isto é, vindos de níveis hierárquicos superiores) quanto as horizontais (procedentes de mesmo nível hierárquico) e ascendentes (provenientes de níveis hierárquicos inferiores).
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