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INOVAÇÃO em saúde

BH-TEC abrigará centro de vacinas e terapias com RNA da Embrapii

Imunizante contra variante da malária que predomina no Brasil deve inaugurar o portfólio da nova estrutura

Por Ewerton Martins Ribeiro

O reitor Alessandro Moreira e o diretor de Operações da Embrapii, Marcelo Fabrício Prim, exibem o termo que oficializa a instalação do CTV-RNA no BH-TEC
Foto: Virgínia Muniz | CTVacinas

Em termos de inovação tecnológica em saúde, o maior legado da pandemia de covid-19 foi a transformação das vacinas de RNA mensageiro (mRNA) em uma plataforma vacinal clinicamente comprovada e utilizável em larga escala. O que poucos sabem é que essa tecnologia não foi inventada durante a pandemia; ela vinha sendo desenvolvida há décadas, no intuito de se descobrir vacina para outras doenças, como os cânceres. Essa rápida recapitulação histórica ajuda a entender como a produção de saber científico é cumulativa: quando a solução finalmente chega às farmácias e aos hospitais, o que se tem é a mera emersão da ponta de um enorme iceberg oculto, feito de anos de investimentos e dedicação de várias pessoas e instituições.

“A Moderna e a [parceria] Pfizer-BioNTech, por exemplo, só conseguiram fazer uma vacina contra a covid-19 para ser distribuída no mundo inteiro naquele período tão curto de 11, 12 meses porque essas empresas já vinham trabalhando há muitos e muitos anos no desenvolvimento dessa nova tecnologia baseada em RNA mensageiro”, relembra a professora Santuza Maria Ribeiro Teixeira, do Departamento de Bioquímica e Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG. “O que elas fizeram, portanto, foi utilizar o conhecimento que já existia com foco no câncer para produzir uma nova vacina para a covid.”

Referência no desenvolvimento de imunizantes contra doenças infecciosas (em particular, a leishmaniose e a malária), Santuza vai coordenar o Centro de Competência Embrapii em Terapias e Vacinas com RNA (CTV-RNA) que está sendo implantado no Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC). A professora do ICB somará a nova tarefa à sua atuação de líder de grupo no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Vacinas (INCT Vacinas) e de sub-coordenadora do Centro de Tecnologia de Vacinas (CTVacinas), que ajudou a fundar. Ambos funcionam no BH-TEC, em lógica transinstitucional (O CTVacinas caminha para se transformar em CNVacinas).

Santuza: tecnologia mRNA resulta em vacinas mais eficazes e mais facilmente manipuláveis
Foto: Virgínia Muniz | CTVacinas

Primeiro objetivo: vacina contra a ‘nossa’ malária
A solenidade de oficialização do termo que implementa o CTV-RNA no BH-TEC ocorreu na manhã desta segunda-feira, 31 de agosto, com participação de representantes de diferentes entidades governamentais e de pesquisa. Com investimento de R$ 60 milhões previstos a serem aportados no decorrer dos próximos quatro anos, o Centro já desenvolve seus primeiros produtos.

Em entrevista coletiva, os representantes do Centro informaram que o primeiro imunizante desenvolvido pela nova estrutura será destinado à malária causada pelo Plasmodium vivax. Essa é a espécie dos protozoários da malária predominante no Brasil e não contemplada pelas vacinas atualmente existentes, que têm foco na espécie que circula no exterior – em particular, na África subsaariana.

Trata-se de um imunizante inédito que será desenvolvido como solução para um problema específico do Brasil. O Centro também atuará no desenvolvimento de vacinas terapêuticas contra o câncer e de tratamentos capazes de orientar o organismo a produzir substâncias cuja ausência provoca doenças, informaram seus representantes.

“O interessante da tecnologia de mRNA é que ela permite que se faça alterações nas vacinas de forma muito mais rápida”, explica Santuza. “Além disso, já temos resultados que mostram que a eficácia da vacina de mRNA é maior. Foi algo que vimos na prática durante a pandemia”, completa.

Santuza relembra o que ocorreu naqueles anos de corrida científica contra o tempo. “A primeira vacina, da CoronaVac, que não era de mRNA, teve uma eficácia mais baixa”, ela lembra [em torno de 50%]. “Foi justamente quando chegaram as vacinas de mRNA que nós conseguimos controlar a covid”, relembra a especialista. As vacinas desenvolvidas com essa tecnologia superaram 90% de eficácia.

Segundo Santuza, isso ocorreu porque o RNA “mimetiza” melhor a situação de uma pessoa infectada. “Ao receber a vacina de RNA, mesmo ele sendo uma molécula totalmente inerte, que não causa doença nenhuma, o corpo reage como se tivesse recebendo um vírus vivo. É, portanto, uma tecnologia mais eficaz e poderosa, se comparada à tecnologia de injetar o vírus morto na pessoa.”

Alessandro entre Eduardo Valadares e Marcelo Prim: parceria para transformar ciência em produto e produto em ganho social
Foto: Virgínia Muniz | CTVacinas

Patente que vira nota fiscal e gera impacto social
O reitor Alessandro Fernandes Moreira, que assinou o termo pela UFMG, defendeu a importância de pesquisas que tenham a transformação social como foco. Para ele, realizações como a criação do CTV-RNA são demonstrações de como a alegada distância entre Universidade e sociedade é uma ideia em certa medida ultrapassada.

“Quando ouvimos sobre essa distância, precisamos falar: ‘estamos aqui, estamos trabalhando’. Porque hoje estamos sempre em contato com a sociedade, levando muita coisa para a sociedade. E eu acho que esse é mesmo o papel da nossa Instituição”, demarcou.

Para Moreira, sempre é possível avançar nessa aproximação, mas é preciso também reconhecer que os canais já foram estabelecidos. “Ao mesmo tempo, temos uma indústria ainda tímida; a indústria também precisa enxergar na Universidade o lugar do desenvolvimento da ciência e da tecnologia”, ponderou.

“O fato é que hoje estamos muito empenhados em fortalecer esse ecossistema de inovação que gira em torno da UFMG e do BH-TEC, que é justamente o ambiente que faz essa transição. Costumamos falar que o BH-TEC é o lugar em que a patente vira nota fiscal. Precisamos também demarcar: nota fiscal que gera impacto social.”

Participaram do evento, ainda, o secretário adjunto de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde do Ministério da Saúde, Eduardo Jorge Valadares Oliveira, o diretor de Operações da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), Marcelo Fabrício Prim, a secretária de Estado de Desenvolvimento Econômico, Mila Corrêa da Costa, o presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), Carlos Arruda de Oliveira, e o presidente do BH-TEC, Marco Crocco.

A TV UFMG também acompanhou a assinatura. Assista à reportagem:

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