BH-TEC abrigará centro de vacinas e terapias com RNA da Embrapii
Imunizante contra variante da malária que predomina no Brasil deve inaugurar o portfólio da nova estrutura
Por Ewerton Martins Ribeiro
Em termos de inovação tecnológica em saúde, o maior legado da pandemia de covid-19 foi a transformação das vacinas de RNA mensageiro (mRNA) em uma plataforma vacinal clinicamente comprovada e utilizável em larga escala. O que poucos sabem é que essa tecnologia não foi inventada durante a pandemia; ela vinha sendo desenvolvida há décadas, no intuito de se descobrir vacina para outras doenças, como os cânceres. Essa rápida recapitulação histórica ajuda a entender como a produção de saber científico é cumulativa: quando a solução finalmente chega às farmácias e aos hospitais, o que se tem é a mera emersão da ponta de um enorme iceberg oculto, feito de anos de investimentos e dedicação de várias pessoas e instituições.
“A Moderna e a [parceria] Pfizer-BioNTech, por exemplo, só conseguiram fazer uma vacina contra a covid-19 para ser distribuída no mundo inteiro naquele período tão curto de 11, 12 meses porque essas empresas já vinham trabalhando há muitos e muitos anos no desenvolvimento dessa nova tecnologia baseada em RNA mensageiro”, relembra a professora Santuza Maria Ribeiro Teixeira, do Departamento de Bioquímica e Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG. “O que elas fizeram, portanto, foi utilizar o conhecimento que já existia com foco no câncer para produzir uma nova vacina para a covid.”
Referência no desenvolvimento de imunizantes contra doenças infecciosas (em particular, a leishmaniose e a malária), Santuza vai coordenar o Centro de Competência Embrapii em Terapias e Vacinas com RNA (CTV-RNA) que está sendo implantado no Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC). A professora do ICB somará a nova tarefa à sua atuação de líder de grupo no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Vacinas (INCT Vacinas) e de sub-coordenadora do Centro de Tecnologia de Vacinas (CTVacinas), que ajudou a fundar. Ambos funcionam no BH-TEC, em lógica transinstitucional (O CTVacinas caminha para se transformar em CNVacinas).
Primeiro objetivo: vacina contra a ‘nossa’ malária
A solenidade de oficialização do termo que implementa o CTV-RNA no BH-TEC ocorreu na manhã desta segunda-feira, 31 de agosto, com participação de representantes de diferentes entidades governamentais e de pesquisa. Com investimento de R$ 60 milhões previstos a serem aportados no decorrer dos próximos quatro anos, o Centro já desenvolve seus primeiros produtos.
Em entrevista coletiva, os representantes do Centro informaram que o primeiro imunizante desenvolvido pela nova estrutura será destinado à malária causada pelo Plasmodium vivax. Essa é a espécie dos protozoários da malária predominante no Brasil e não contemplada pelas vacinas atualmente existentes, que têm foco na espécie que circula no exterior – em particular, na África subsaariana.
Trata-se de um imunizante inédito que será desenvolvido como solução para um problema específico do Brasil. O Centro também atuará no desenvolvimento de vacinas terapêuticas contra o câncer e de tratamentos capazes de orientar o organismo a produzir substâncias cuja ausência provoca doenças, informaram seus representantes.
“O interessante da tecnologia de mRNA é que ela permite que se faça alterações nas vacinas de forma muito mais rápida”, explica Santuza. “Além disso, já temos resultados que mostram que a eficácia da vacina de mRNA é maior. Foi algo que vimos na prática durante a pandemia”, completa.
Santuza relembra o que ocorreu naqueles anos de corrida científica contra o tempo. “A primeira vacina, da CoronaVac, que não era de mRNA, teve uma eficácia mais baixa”, ela lembra [em torno de 50%]. “Foi justamente quando chegaram as vacinas de mRNA que nós conseguimos controlar a covid”, relembra a especialista. As vacinas desenvolvidas com essa tecnologia superaram 90% de eficácia.
Segundo Santuza, isso ocorreu porque o RNA “mimetiza” melhor a situação de uma pessoa infectada. “Ao receber a vacina de RNA, mesmo ele sendo uma molécula totalmente inerte, que não causa doença nenhuma, o corpo reage como se tivesse recebendo um vírus vivo. É, portanto, uma tecnologia mais eficaz e poderosa, se comparada à tecnologia de injetar o vírus morto na pessoa.”
Patente que vira nota fiscal e gera impacto social
O reitor Alessandro Fernandes Moreira, que assinou o termo pela UFMG, defendeu a importância de pesquisas que tenham a transformação social como foco. Para ele, realizações como a criação do CTV-RNA são demonstrações de como a alegada distância entre Universidade e sociedade é uma ideia em certa medida ultrapassada.
“Quando ouvimos sobre essa distância, precisamos falar: ‘estamos aqui, estamos trabalhando’. Porque hoje estamos sempre em contato com a sociedade, levando muita coisa para a sociedade. E eu acho que esse é mesmo o papel da nossa Instituição”, demarcou.
Para Moreira, sempre é possível avançar nessa aproximação, mas é preciso também reconhecer que os canais já foram estabelecidos. “Ao mesmo tempo, temos uma indústria ainda tímida; a indústria também precisa enxergar na Universidade o lugar do desenvolvimento da ciência e da tecnologia”, ponderou.
“O fato é que hoje estamos muito empenhados em fortalecer esse ecossistema de inovação que gira em torno da UFMG e do BH-TEC, que é justamente o ambiente que faz essa transição. Costumamos falar que o BH-TEC é o lugar em que a patente vira nota fiscal. Precisamos também demarcar: nota fiscal que gera impacto social.”
Participaram do evento, ainda, o secretário adjunto de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde do Ministério da Saúde, Eduardo Jorge Valadares Oliveira, o diretor de Operações da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), Marcelo Fabrício Prim, a secretária de Estado de Desenvolvimento Econômico, Mila Corrêa da Costa, o presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), Carlos Arruda de Oliveira, e o presidente do BH-TEC, Marco Crocco.
A TV UFMG também acompanhou a assinatura. Assista à reportagem:
Mais lidos
Semana
-
Artesanato Feira do Jequitinhonha reunirá 120 artesãos no campus Pampulha
Pela primeira vez, evento começará no domingo em integração com o ‘Domingo no campus’
-
Aplicadores de provas Copeve cria banco de colaboradores para o Seriado UFMG e outros processos seletivos
Inscrições devem ser feitas por formulário eletrônico; aplicadores e ledores poderão atuar já no dia 14 de dezembro, quando ocorrerá a Etapa 1 da nova modalidade de ingresso
-
Pós-graduação Quatro teses da UFMG vencem prêmio da Capes
Oito trabalhos foram reconhecidos com menção honrosa; ganhadores receberão bolsa para estágio pós-doutoral em instituição nacional, e orientadores vão embolsar R$ 3 mil
-
Formação Lançado edital do processo seletivo do Coltec para 2027
Inscrições serão abertas na segunda, 14 de setembro; 180 vagas são oferecidas em cinco cursos técnicos integrados ao ensino médio
-
Vai ter bolo ‘Domingo no campus’ comemora os 99 anos da UFMG
Início da feira de artesanato do Jequitinhonha é uma das atrações da programação
Notícias por categoria
Notícias Externas
-
contos Ana Cecília Carvalho lança livro na AML e debate obra com Lyslei Nascimento
Volume ‘E se eu disser apenas a verdade’ reúne dois títulos anteriores da professora aposentada da UFMG; evento ocorre sábado, 19, às 10h
-
DOWNLOAD GRATUITO Andrés Zarankin, da Fafich, lança livro sobre escavações no antigo prédio do Dops mineiro
Itens encontrados nos trabalhos de campo desenvolvidos com Caroline Murta e Denise Neves serão expostos na sexta-feira, dia 11
-
INOVAÇÃO em saúde BH-TEC abrigará centro de vacinas e terapias com RNA da Embrapii
Imunizante contra variante da malária que predomina no Brasil deve inaugurar o portfólio da nova estrutura
-
Livros Jabuti Acadêmico anuncia vencedores amanhã, dia 11; UFMG tem cinco finalistas
Prêmio recebeu mais de 2 mil inscrições neste ano; cerimônia terá transmissão ao vivo
-
ANTÁRTICA Rede Minas lança série documental que aborda atividades do Mycoantar, projeto da UFMG
Série tem 13 episódios que podem ser assistidos também pela internet; projeto da UFMG investiga fungos e microrganismos polares
Feed RSS
Receba atualizações das últimas notícias publicadas.