Novembro Negro: artista Nilo Ybyra participa do novo episódio de podcast

Novembro Negro: artista Nilo Ybyra participa do novo episódio de podcast

O vigésimo primeiro episódio do Corredor Cultural 174 Podcast, produzido pelo Centro Cultural UFMG, traz um bate-papo com Nilo Ybyra, artista transmasculino, autista, professor, arte-educador, músico, artista cênico e escritor de Belo Horizonte. É bicampeão mundial de poesia falada (slam) e criador da marca Ybyra Maçaka. Na música, dedica-se à investigação de instrumentos arcaicos e à fusão de sonoridades indígenas, africanas e da MPB, criando um campo híbrido de expressão que atravessa corpo, ancestralidade e dissidência. Além disso, atua em diferentes linguagens cênicas e literárias, com publicação de livros, antologias e zines.

No podcast, Nilo Ybyra revela sua ancestralidade africana Bantu (angolana) e indígena Pataxó, destacando que todo o conhecimento que possui sobre essas heranças resulta de um processo de retomada. Para ele, o processo de retomada não significa apenas redescobrir a própria história, mas caminhar junto com ela e integrar-se profundamente à cultura. Mais do que declarar no nome a que cultura pertence, ele diz que é preciso vivenciá-la de verdade.

Segundo Nilo, a encruzilhada entre raça e pertencimento é algo profundamente comum no Brasil. Essa mistura atravessa a vida nas cidades, nas aldeias e em qualquer outro lugar. Ela é resultado de um processo histórico amplo e coletivo. “Falar sobre ela não é só falar sobre mim, é falar sobre muitos, falar sobre um processo que é de um povo inteiro, de um território.” Ele acrescenta que isso se incorpora a sua arte como um fruto natural da própria condição de existir. “É uma coisa natural falar sobre o que se é, mas também uma necessidade de reafirmar a história que não é só minha”.

Ele afirma que “o corpo é feito de memória” e que a cura vem justamente daquilo que o constitui. Para ele, a memória existe não apenas porque é importante lembrar das coisas, mas porque o corpo precisa da cura que a memória proporciona. E, para que essa cura alcance mais pessoas, essa herança se materializa em suas criações.

De acordo com Ybyra, a leitura racial da negritude no Brasil é particularmente delicada, pois se apoia majoritariamente na identificação visual do fenótipo. Dessa forma, antes mesmo de ser reconhecida em sua individualidade, a pessoa é primeiramente identificada como negra. “Ser negro e ser qualquer coisa além de negro é uma grande controvérsia, porque a condição de negro foi criada não para simplesmente designar quem tinha um tom de pele, ela foi designada para colocar um lugar social de base de pirâmide, que tá dentro do imaginário do colorismo branco”, expressa.

Ele explica que esse colorismo considera apenas o preto e o branco e, no fim das contas, a diversidade de fenótipos indígenas sequer é conhecida ou levada em conta. “A diversidade dos povos indígenas é enorme e completamente ignorada, porque no imaginário social a pessoa indígena é a ‘Tainá’ do filme, no imaginário social todos os indígenas têm aquele fenótipo amazônico”.

Na música, Nilo utiliza instrumentos arcaicos, como flautas, apitos de pássaro, tambores e berimbau, para construir sonoridades igualmente ancestrais. “Eu não tô simplesmente tocando música moderna com instrumentos muito velhos. Eu tô construindo paisagem sonora”, esclarece. Ele destaca a importância desses instrumentos considerados como arcaicos, ressaltando que surgiram da necessidade de reproduzir os sons da natureza.

“Eu tenho tambor de mar, eu tenho som de pássaro, tenho som de vento, tenho som de água, de terra, de diferentes corpos de água, inclusive, porque tem som de mar, tem som de rio, tem som de chuva, tem som de diferentes formas da água, né? E isso vai pintando um quadro na sua mente. Você vai ouvindo e vai entendendo a paisagem sonora que tá sendo construída. Essa paisagem sonora casa com a história que a música tá te contando”, descreve.

Ybyra reflete sobre como as músicas africanas e indígenas nascem de uma perspectiva profundamente espiritual — a música enquanto divindade, enquanto elo de comunicação com o sagrado e com os ancestrais, enquanto forma de reza. Ele também considera o quanto essa dimensão espiritual pode despertar memórias e promover cura nas pessoas.

Bicampeão mundial de slam, Nilo tem uma trajetória bem sólida na poesia. Ele manifesta que “o slam mundial é tão diverso, que ele não te dá tempo de respirar. Você fica o tempo todo segurando a respiração, porque você não sabe o que vai vir na próxima pessoa, no próximo corpo que vai trazer, porque as formas de poesia são muito diferentes”.

O artista publicou 22 zines de forma independente/artesanal e, pela editora Venas Abiertas, os livros ‘Lua nos pés’ e ‘Você ainda quer gritar comigo?’, além das antologias ‘ócios no ofício’ e ‘à luta, à voz’, em parceria com o grupo Coletivoz, entre outras publicações independentes.

Ouça o podcast na íntegra e conheça mais sobre o universo múltiplo que ele constrói e as forças que atravessam seu trabalho:

Acompanhe o trabalho de Nilo Ybyra no Instagram.

Corredor Cultural 174 Podcast é um projeto que disponibiliza mensalmente no Spotify conversas com artistas, músicos, escritores, cineastas, agentes culturais e demais pessoas que pensam, respiram e produzem cultura. “Corredor”, pelo fato do Centro Cultural UFMG estar situado no corredor cultural Praça da Estação e também no sentido de espaço de passagem, onde transitam ideias, movimentos e expressões artísticas em Belo Horizonte. “Cultural”, pois a temática será sempre cultura e “174” é o número de localização da instituição na Avenida Santos Dumont.

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