Semana de Saúde Mental reforça prioridade com o cuidado e o bem-estar
Evento ocorre de 18 a 22 de maio em diferentes espaços da Universidade e da cidade; tradicional Desfile da Luta Antimanicomial já é nesta segunda
Por Ewerton Martins Ribeiro
De 18 a 22 de maio, a UFMG realiza sua 14ª Semana de Saúde Mental e Inclusão Social, conjunto de atividades que ocorre todos os anos – neste, sob o tema Democracia e cuidado: por um tempo de delicadeza. O evento é voltado tanto para o público regular da Universidade quanto para usuários dos serviços de saúde mental das cidades em que a UFMG atua. Dessa forma, participam estudantes e militantes de movimentos sociais, servidores e representantes da sociedade civil, professores e profissionais do campo da saúde, além das próprias pessoas atendidas pelos serviços e seus familiares.
A conferência de abertura será ministrada por Elizeu Antônio de Assis, psicólogo da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) com longa atuação nos campos da assistência estudantil e da promoção da saúde mental. Pesquisador da história da loucura e das instituições psiquiátricas no Brasil, ele é autor, entre outros trabalhos, do livro Exilados na pátria: tratamento de “alienados” no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, 1903-1979. Publicado em 2021, o volume reproduz os achados de sua tese de doutorado, defendida em 2020.
Aliando pesquisa histórica e psicanálise, Elizeu examina os processos de exclusão, silenciamento e institucionalização que marcaram a experiência das pessoas internadas em Barbacena. Sua conferência será ministrada às 10h de segunda-feira, 18, no auditório da Reitoria, no campus Pampulha, e é aberta ao público. Já no campus Saúde, as atividades da Semana (confira aqui a programação completa) começam ainda antes, às 9h, com uma mesa-redonda – no auditório Maria Sino – sobre os desafios e as possibilidades da Enfermagem na articulação entre os cuidados em saúde geral e em saúde mental
Pela reparação simbólica
A escolha do chamado “Holocausto Brasileiro” como tema para a conferência de abertura da Semana de Saúde Mental e Inclusão Social não ocorreu por acaso. Ela se situa no contexto do recente pedido de desculpas proferido pela UFMG à sociedade brasileira em razão de a Universidade ter adquirido e utilizado, no século passado, cadáveres provenientes do Hospital Colônia de Barbacena em estudos da área de anatomia desenvolvidos na Faculdade de Medicina e no Instituto de Ciências Biológicas (ICB). Esse pedido de desculpas foi publicado em 18 de março deste ano.
No documento, a então reitora (gestões 2018-2022 e 2022-2026), Sandra Goulart Almeida, afirma que “a UFMG encontra-se comprometida com ações de reparação” simbólica, entre as quais lista “a criação, em conjunto com grupos da luta antimanicomial, de espaços de memória na Faculdade de Medicina”; “a restauração do livro histórico de registro de recebimento de cadáveres”; e “a inclusão do tema da internação e da compra de corpos provenientes do Hospital Colônia no escopo das disciplinas ministradas pelo Departamento de Anatomia e Imagem da Faculdade de Medicina”.
“Sob esse mote, o evento pretende tematizar a questão da saúde mental e da violação dos Direitos Humanos sob a perspectiva da responsabilidade ética e dos deveres de memória”, observa a professora Luciana de Oliveira, diretora da Universidade dos Direitos Humanos (UDH) da UFMG. Há cerca de um quarto de século, a Faculdade de Medicina mantém o programa Vida após a vida, baseado na doação voluntária e consentida de corpos, prática hoje considerada legal, ética e consonante com os padrões internacionais de obtenção de cadáveres para o ensino de anatomia.
Cortejo sai da Praça da Liberdade
Informações gerais sobre a 14ª Semana de Saúde Mental e Inclusão Social podem ser consultadas no hotsite que a Universidade mantém durante todo o ano sobre o tema. As atividades do evento serão realizadas nos campi Pampulha e Saúde, em Belo Horizonte, e em espaços abertos da cidade: haverá oficinas, rodas de conversa, palestras, sessões de cinema e o tradicional Desfile da Luta Antimanicomial, que ocorre também nesta segunda-feira, 18, data em que se comemora o Dia Nacional da Luta Antimanicomial.
O desfile terá início às 13h30, na Praça da Liberdade (atenção: o horário foi antecipado; em edições anteriores, a concentração começava no fim da tarde). O cortejo é aberto ao público.
Ao longo da semana, serão realizados eventos diversos, com discussões sobre o cuidado com pessoas migrantes e refugiadas, o autocuidado, as violências de gênero no ambiente acadêmico – tema candente no país, com o aumento dos episódios de feminicídio e violência contra a mulher –, além de sediar diversas apresentações de arte e cultura. “Estamos apresentando uma programação muito rica e diversificada, que é resultado do trabalho de articulação da Rede de Saúde Mental da UFMG com seus parceiros internos e externos”, explica Luciana de Oliveira.
A Semana de Saúde Mental e Inclusão Social da UFMG é organizada pela Rede de Saúde Mental da Universidade (estrutura vinculada à Pró-reitoria de Extensão que articula as diversas instâncias da Universidade que atuam no tema) em parceria com a Comissão Permanente de Saúde Mental e com a Universidade dos Direitos Humanos (UDH). Toda a programação do evento está disponível on-line. Atualizações sobre a organização do evento podem ser conferidas no Instagram da Universidade dos Direitos Humanos (UDH).
Eixo central
Com o início dos trabalhos da gestão 2026 a 2030, que assumiu a Reitoria há dois meses, a UFMG passou a ter em sua mais alta instância hierárquica uma docente do campo da saúde. Para a vice-reitora Alamanda Kfoury Pereira, que é professora da Faculdade de Medicina, sua presença nesse lugar de proeminência na hierarquia universitária – e também como presidente da Comissão Permanente de Saúde Mental, função exercida pelo vice-reitor ou pela vice-reitora – sinaliza para a importância que a atual gestão dá à questão da saúde e do bem-estar da comunidade acadêmica.
“O mundo contemporâneo, digital e egocêntrico, atinge em cheio as condições de saúde mental das pessoas. Esse é um eixo central da nossa gestão”, afirma a vice-reitora. “Temos a saúde mental como um pilar dentro do conceito mais amplo de saúde e bem-estar. A nossa expectativa é que nesses quatro anos consigamos de fato implementar uma política de enfrentamento das questões de saúde mental para todos e todas, em seus espaços de trabalho, estudo e atuação”, projeta a dirigente.
Para Alamanda, cuidar da saúde mental da comunidade é uma responsabilidade tanto da instituição quanto de cada membro da comunidade. Trata-se, em suma, de um desafio que só poderá ser enfrentado numa perspectiva coletiva. “A Semana de Saúde Mental e Inclusão Social representa um momento privilegiado para propormos reflexões e proposições que possam dar continuidade e ampliar a construção de políticas institucionais de enfrentamento dessa realidade desafiadora, com foco em medidas educativas, ações de prevenção, acolhimento, capacitação e fluxos de encaminhamento”, demarca a dirigente.
Solidão
Outro destaque da programação do primeiro dia do evento – além da já mencionada conferência de abertura e do cortejo – é a roda de conversa que a Pró-reitoria de Assuntos Estudantis (Prae) realizará às 18h desta segunda-feira, 18, no campus Pampulha, com o tema: A solidão na atualidade: um problema de conexão? Ela será mediada por Marcos Antonio de Sousa Matuchac, psicólogo da Prae, e ocorrerá ao lado do Restaurante Setorial 1. O evento é aberto ao público.
“Seguindo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão, com impactos significativos na saúde e no bem-estar. A solidão está associada a cerca de 100 mortes a cada hora – mais de 871 mil mortes por ano. Podemos nos perguntar: de que solidão estamos falando? Num mundo excessivamente conectado, a solidão não seria um refúgio?” Retóricas, as perguntas de Marcos Matuchac foram propostas como um ponto de partida para o avanço das conversas a serem travadas no evento.
“Em meio à competição por atenção, a solidão não seria um sintoma? Qual é a solução? Uma vida solitária ou em comunidade? Será a solidão uma consequência da organização socioeconômica do mundo atual? O que podemos fazer em relação a isso?”, pergunta(-se) o especialista, na expectativa de que, juntos, os participantes possam começar a elaborar suas próprias respostas. “Este é um convite parar conversarmos informalmente sobre a solidão experimentada e produzida dentro e fora da Universidade”, resume o mediador.
O Restaurante Setorial 1 fica na esquina entre as ruas professor Edmundo Lins e professor Fernando Melo Viana, perto da Faculdade de Educação (FaE).
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