Pesquisa que propõe alternativa a testes com animais ganha reconhecimento internacional
Em desenvolvimento no ToxLab, da Faculdade de Farmácia, novo método permite avaliar potencial cancerígeno de fármacos e danos ao DNA sem utilizar seres vivos
Por Alessandra Ribeiro
A pesquisa EV-Proteomics: Plataforma NAM sem uso de animais para avaliação mecanística do risco de genotoxicidade e carcinogenicidade, atualmente em desenvolvimento na UFMG, é uma das finalistas do Lush Prize 2026 na categoria “Jovem Pesquisador”. Esse é o principal prêmio do campo das metodologias científicas que não utilizam animais para testes. Os vencedores serão anunciados na cerimônia de premiação em maio.
O estudo em questão está sendo desenvolvido pela pesquisadora Nathalia Stephanie Oliveira no doutorado que ela cursa no Programa de Pós-graduação em Análises Clínicas e Toxicológicas (PPGACT) da Faculdade de Farmácia da UFMG. Intitulado Desenvolvimento de uma nova abordagem metodológica híbrida (NAM) para a avaliação da genotoxicidade e mutagenicidade via vesículas extracelulares, o trabalho é realizado no Laboratório de Toxicologia (ToxLab) da unidade, com orientação do professor Carlos Alberto Tagliati e coorientação da professora Adriana Oliveira Costa, ambos do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas.
A pesquisa também torna a UFMG a única universidade da América Latina com uma investigação catalogada pelo Laboratório de Referência da União Europeia para Alternativas aos Testes em Animais (ECVAM). O ECVAM cataloga iniciativas de transição que contribuem para o objetivo de eliminar, ainda que gradualmente, o uso de animais na avaliação da segurança química de substâncias.
Inovação
A pesquisa de Nathalia consiste no desenvolvimento de uma nova metodologia (New Approach Methodology – NAM, na sigla em inglês) para avaliação da genotoxicidade e do risco carcinogênico de fármacos e produtos. A genotoxicidade é a capacidade que certas substâncias têm de causar danos ao nosso material genético (DNA), enquanto o risco carcinogênico é a probabilidade de uma substância causar câncer a longo prazo.
“Geralmente, substâncias genotóxicas têm um alto potencial de serem carcinogênicas, pois as mutações no DNA estão entre os primeiros eventos para o desenvolvimento de muitos tumores”, observa Nathalia. Ela enfatiza que os ensaios que testam o risco de câncer atualmente são longos e caros, além de pouco confiáveis: apenas 50% dos resultados obtidos em animais podem ser aplicados aos humanos.
“Hoje, um único ensaio de carcinogenicidade pode durar dois anos e eutanasiar mais de 150 animais para, ao final, ter uma taxa de preditividade de apenas 50% para humanos. São vidas ceifadas em vão por resultados incertos”, avalia. “Isso ocorre porque a biologia de roedores [usados nos testes] é muito diferente da humana, o que torna modelos computacionais e in vitro baseados em dados biológicos humanos muito mais confiáveis”, compara.
Notícias relacionadas:
Pessoas Professora da Farmácia recebe prêmio internacional por contribuições para o estudo da trombose e hemostasia
A professora emérita Maria das Graças Carvalho, da Faculdade de Farmácia, aposentada pelo Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da Unidade, recebeu, neste mês, o Esteemed Career Award da International Society on Thrombosis and Haemostasis (ISTH). Anualmente, a ISTH homenageia profissionais de todo o mundo que, na opinião de seus pares, fizeram contribuições significativas para […]
Evento Acadêmico Simpósio internacional vai discutir avaliação e comunicação de riscos associados ao consumo de alimentos
De 30 de junho a 3 de julho, a UFMG sediará, no auditório da Faculdade de Farmácia, o 4° Simpósio Latino-Americano e Caribenho de Avaliação de Riscos (Laras – do inglês Latin American and Caribbean Risk Assessment Symposium), um dos mais importantes fóruns internacionais para discussão e troca de conhecimentos na área de análise de […]
Pesquisa e Inovação ‘Ciência caminha para o fim do uso de animais’, prevê embaixadora de laboratório europeu de alternativas à experimentação
A UFMG promove, na próxima terça-feira, 26, a partir das 13h30, palestra sobre métodos substitutivos ao uso de animais na ciência. O tema será abordado pela pesquisadora e doutoranda em Análises Clínicas e Toxicológicas da Faculdade de Farmácia Nathalia Stephanie Oliveira. O evento será realizado no auditório da Unidade, no campus Pampulha. A entrada é […]
Alternativa ao uso de animais
O foco da pesquisa conduzida pela doutoranda é a análise das vesículas extracelulares – estruturas naturais liberadas pelas células humanas contendo em seu interior uma amostra biológica que reflete o “estado de saúde” da célula da qual foram originadas. “No meu projeto, utilizamos essas vesículas como ‘biópsias líquidas’ para observar como as células respondem quando entram em contato com uma substância química, sem precisar de um organismo animal inteiro para isso”, explica.
A partir desse biomarcador, Nathalia está desenvolvendo a plataforma EV-Proteomics, que concorre como finalista no Lush Prize. “As análises computacionais e a bioinformática atuam como o ‘cérebro’ da plataforma. Como o volume de dados moleculares extraídos das vesículas é massivo, desenvolvi no meu doutorado metodologias que processam essas informações para identificar padrões de toxicidade. O foco está nos contextos de genotoxicidade (danos ao DNA) e carcinogenicidade (potencial de causar câncer), que são os pontos mais críticos da toxicologia moderna”, detalha.
ToxLab
Localizado na Faculdade de Farmácia, no campus Pampulha da UFMG, o ToxLab, integrante da Rede Nacional de Métodos Alternativos ao Uso de Animais (Renama), é um centro de excelência em toxicologia in vitro (no ambiente fechado e controlado do laboratório) que presta serviços científicos para empresas de todo o Brasil e conta com parcerias internacionais. No local, são desenvolvidas soluções toxicológicas para os setores industrial, de saúde e meio ambiente.
Para o professor Carlos Tagliati, coordenador do ToxLab, o destaque no Lush Prize é também o reconhecimento da trajetória do laboratório, construída ao longo de mais de 20 anos de “pesquisa sólida e contínua”. “Esse resultado reflete o trabalho coletivo de gerações de alunos de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado, comprometidos com a inovação em toxicologia”, lembra. “Nosso foco é substituir o uso de animais por abordagens científicas avançadas, éticas e preditivas. A indicação neste prêmio reconhece um grande esforço e a produção de ciência de padrão internacional que realizamos”, reforça.
“Sinto-me profundamente honrada em representar a ciência brasileira e da América Latina, levando o nome da UFMG a um prêmio de tamanha relevância global. Ser finalista do Lush Prize e ter nosso trabalho listado no Catálogo do ECVAM, da União Europeia, demonstra que estamos na vanguarda da agenda mundial de substituição de animais”, comemora Nathalia.
Mais lidos
Semana
-
RUF UFMG é a melhor federal do Brasil em ranking do jornal Folha de S.Paulo
Universidade ocupa a terceira posição geral, com diferença de apenas 0,47 ponto em relação à segunda colocada
-
Destaques Semana do Conhecimento: 79 trabalhos são premiados entre mais de 3 mil inscritos
Na solenidade de encerramento, pró-reitor de Pesquisa, Fernando Reis, falou sobre correlação entre democracia e ciência
-
SEMANA DO CONHECIMENTO Teses da Física, da Ciência Animal e da Análise e Modelagem de Sistemas Ambientais vencem Grande Prêmio
Comissão escolheu os ganhadores entre 65 indicados pelos programas de pós-graduação; outras três pesquisas receberam menções honrosas
-
SAÚDE MENTAL UFMG mantém robusta rede de escuta e acolhimento
Plantões psicológicos, consultas terapêuticas e espaços de autorregulação, entre outras iniciativas, estão espalhados em diversas unidades dos campi Pampulha, Saúde e Montes Claros
-
ações afirmativas UFMG recebe inscrições para compor bancas de heteroidentificação
Seleção é aberta a docentes, técnicos e estudantes; participação em oficinas formativas é pré-requisito
Notícias por categoria
Pesquisa e Inovação
-
Geoinformação UFMG inaugura equipamentos de alto desempenho com uso de IA aplicada à cartografia
Supercomputador Soberano e Câmera Hiperespectral podem ajudar a combater o desmatamento e a mineração ilegal, a proteger fronteiras e a oferecer respostas para desastres naturais
-
Café com IA Pesquisadora mostra como a Inteligência Artificial ajuda a interpretar significados ocultos em letras musicais
Em evento na sexta-feira, Karin Becker, da UFRGS, discutirá métodos que combinam modelos de linguagem, sistemas treinados com grandes volumes de textos e técnicas de análise textual
-
Antropoceno E-book discute desafios contemporâneos, transdisciplinaridade e futuro da humanidade
Obra de 225 páginas reúne artigos produzidos no âmbito de disciplina ministrada em 2021
-
Games UFMG agrega inovação em acessibilidade a jogo premiado em festival
Magenta Arcade II, concebido por desenvolvedora belo-horizontina, incorporou funcionalidades que favoreceram a inclusão de pessoas com deficiência
-
Cedeplar DataViva combina dados e pesquisa para apoiar diagnóstico do desenvolvimento regional
Plataforma reúne informações sobre municípios e regiões, em áreas como emprego, comércio, C&T e meio ambiente; um dos focos é a complexidade econômica
Feed RSS
Receba atualizações das últimas notícias publicadas.