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Homenagem

Pepe Mujica, ‘o homem que escolheu menos para ser mais’, é o novo Doutor Honoris Causa da UFMG

Título foi entregue à viúva Lucía Topolansky, ex-senadora e ex-presidente uruguaia, em cerimônia emocionante no auditório da Reitoria

Por Ewerton Martins Ribeiro

Lucía Topolansky
Alegria e saudade: Lucía Topolansky na cerimônia de outorga do título ao parceiro Pepe Mujica, morto no ano passado
Foto: Raphaella Dias | UFMG

“Pepe Mujica não cabe em biografias convencionais. Há homens que ocupam cargos; ele ocupou um tempo – talvez, até uma ideia de mundo. Veio da terra, do luto e da luta. Ao lado de sua companheira de vida, Lucía, conheceu o peso das armas e o silêncio das celas, onde o tempo deixa de ser relógio e passa a ser resistência. Não saíram intactos (ninguém sai intacto de uma experiência como esta), mas saíram inteiros para escolher outro caminho: o da política como serviço a um povo, uma sociedade, jamais como forma de poder.”

Com essas palavras, a reitora Sandra Goulart Almeida concedeu, nesta quarta-feira, 18 – último dia de seu mandato como dirigente da Universidade, após oito anos de gestão –, o título póstumo de Doutor Honoris Causa ao ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, falecido em maio do ano passado, aos 89 anos. A honraria foi recebida por sua companheira de vida toda, Lucía Topolansky, ex-senadora e ex-presidente uruguaia, em emocionante cerimônia realizada no auditório da Reitoria, no campus Pampulha.

Sandra Regina Goulart Almeida
Sandra: poesia involuntária
Foto: Raphaella Dias | UFMG

“A casa simples que os acolheu [modesta, na zona rural de Montevidéu, onde moraram por toda a vida pós-prisão] sempre foi coerência, de crença e de vida. Mujica parecia carregar uma pergunta constante: ‘quanto custa viver?’ Mas não em dinheiro, e sim em tempo, em sentido, em humanidade. Sua resposta nunca veio em números, mas em escolhas. Escolheu menos para ser mais. Escolheu o essencial num mundo que insiste no excesso”, disse a reitora, repisando o postulado de Mujica sobre o valor da vida estar não naquilo que se consome ou se acumula, mas no que se é e se realiza em comunhão humana e com a natureza. “Quando chegou à presidência, Mujica não vestiu as armaduras que tantos vestem. Preferiu permanecer desarmado de vaidades. Seus notórios discursos – que derrubavam fronteiras físicas, ideológicas, culturais e geracionais – eram para provocar incômodo e reflexão. Falava do consumo como quem denuncia uma nova forma de prisão. Falava de liberdade como quem já conheceu suas grades”, lembrou a reitora.

Para Sandra Goulart, que teve honra de privar com Mujica em diferentes ocasiões, sempre houve uma “poesia involuntária” no modo como ele realizou sua vida política. “Não falo da poesia das palavras bonitas, mas da poesia dos gestos raros. Num cenário em que líderes se constroem como espetáculo, ele se construiu como força agregadora: um revolucionário que soube envelhecer, um presidente que não se afastou da terra – um homem que falou de futuro sem jamais abandonar o passado”, demarcou a dirigente. “Sua maior herança não foram – ao menos não somente – as leis que assinou e as políticas públicas que implementou, mas a inquietação em que nos deixou. Porque Mujica não nos ofereceu respostas confortáveis – ele desarrumou certezas. Num tempo de ruídos, sua voz baixa continua ecoando como um lembrete: viver é mais do que passar pela vida – é escolher, todos os dias, de forma solidária e humana, o que vale a pena carregar.”

Andréia Moreno
Andrea: consciência moral
Foto: Raphaella Dias | UFMG

Mais que um político, uma referência moral
Mujica recebeu o título de Doutor Honoris Causa por indicação da Congregação da Faculdade de Educação. Durante a cerimônia, a professora Andrea Moreno, diretora da FaE, explicou a pertinência da concessão do título a partir da unidade que dirige. “Mujica tem uma trajetória marcada pela incansável luta pela democracia e pela justiça social. Ele deu enormes contribuições, no campo do real e da prática concreta, ao desenvolvimento de políticas progressistas no campo da educação. Ele sabia que, sem educação de qualidade, gratuita e igualitária, para todos e todas, nenhuma democracia é plena e verdadeira”, disse Andrea, encarregada de fazer o discurso de saudação ao homenageado, a quem reconheceu como “uma das figuras mais extraordinárias” da história contemporânea latino-americana e mundial. “Esse título não reconhece apenas um presidente da República: reconhece uma vida marcada por luta, resistência, coerência e profunda fidelidade à ideia de que a política deve existir para melhorar a vida das pessoas.”

Para a diretora, uma das maiores lições deixadas por Mujica foi a de não cultivar, em hipótese alguma, o ódio no próprio “jardim” – independentemente do quanto nos fizerem mal. “Décadas depois de tudo o que passou [a prisão por quase quatorze anos, de 1972 a 1985, durante a ditadura militar uruguaia, período em que foi brutalmente torturado e mantido em isolamento forçado], Mujica ainda dizia: ‘no meu jardim, não cultivo o ódio’. A frase talvez contenha uma das maiores lições que ele nos deixou”, insistiu a diretora. Pepe Mujica a pronunciou em seu discurso de renúncia ao cargo de senador, em 2020, justificando que “o ódio acaba deixando as pessoas estúpidas”. “Por isso e por tanto mais, Mujica nunca foi apenas um governante. Ele foi – e continua sendo – uma consciência moral da política. Após a prisão, ele não saiu defendendo vingança. Saiu defendendo a democracia. Saiu defendendo a coletividade. Saiu acreditando que o futuro poderia ser diferente do passado. Não só isso: ele foi atrás de construir esse futuro”, disse Andrea.

Além da diretora da FaE, de Lucía Topolansky e da reitora da UFMG, compuseram a mesa da solenidade o vice-reitor Alessandro Moreira; a diretora de cooperação institucional internacional e de inovação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Dalila Andrade Oliveira; a vice-diretora da Faculdade de Educação, Vanessa Ferraz Almeida Neves; e a reitora da UFMG (gestão 2002-2006), Ana Lúcia Gazzola.

Ao fim, o evento contou com uma apresentação que emocionou a todos: músicos da Escola de Música da UFMG executaram peças do cancioneiro latino-americano que fazem referência à – ou se tornaram símbolo da – resistência aos desmandos ditatoriais que grassaram no continente ao longo do século 20. Enquanto a voz de Lívia Oliveira Itaborahy – doutoranda em performance do canto popular latino-americano na UFMG – interpretava clássicos, Lucía Topolansky se emocionava e batia palmas efusivas no palco da Reitoria. Antes, contudo, ela fez uma fala terna e contundente em lembrança do parceiro de luta e de vida.

Pepe tinha um sonho

“Nós [o Uruguai] somos um pequeno país, mas nos sentimos profundamente latino-americanos. E Pepe tinha esse sonho: que a América Latina tivesse uma voz no mundo; se fizesse sentir no mundo”, introduziu Lucía, dirigindo-se à comunidade universitária que se reuniu no auditório da Reitoria para saudar a memória do ex-presidente uruguaio. “Pepe sempre pensou a América Latina como uma federação de repúblicas. Isso estava incorporado em seu pensamento, ele estava absolutamente convencido da importância disso – e nunca retrocedeu nessa ideia. Ele confiava que, com essa união, nós poderíamos ser uma voz importante neste mundo tão caótico”, disse, trazendo para sua fala o atual cenário de recrudescimento das intenções de guerra ao redor do mundo.

Lucía Topolansky com estudantes brasileiros
Lucía para os estudantes: ‘O impossível custa um pouco mais, mas é possível (se lutamos!)’
Foto: Raphaella Dias | UFMG

“Pepe não chegou a ver este último ‘término’ [da situação bélica mundial; pôde-se compreender que falasse, em particular, da atual investida dos Estados Unidos contra o Irã, com seus impactos globais, mas sobretudo da recente investida do governo estadunidense na Venezuela, em nosso contexto mais próximo], porque ele se foi há quase um ano. Mas trato de imaginar que, se ele estivesse aqui, ele estaria, sim, preocupado, mas ao mesmo tempo insistindo igualmente nesse caminho [da união latino-americana]. Fui testemunha de várias conversas de Pepe com o presidente Lula, e esse era um ponto de encontro total entre eles: eles pensavam o mesmo [sobre a necessidade dessa união]”, disse Lucía. “E há por aí outros [dirigentes] latino-americanos que também pensam isto: que precisamos nos juntar. Porque sozinhos somos poucos, mas juntos movemos montanhas”, arrematou, sem precisar nomear as montanhas, para que se fizesse compreender.

Para Lucía, essa unidade latino-americana passará necessariamente pelo trabalho da inteligência e da cultura – e, por conseguinte, pelas universidades, às quais tratou de louvar. “Estamos em um século em que o conhecimento – a propriedade do conhecimento – vale mais que o capital, por um momento. Que se tenha a propriedade do conhecimento, isso é fundamental no século 21 de um jeito ainda mais forte que nos séculos anteriores. E o conhecimento se gera em lugares como este: as universidades, os institutos de investigação. [O conhecimento se gera] com o concurso da inteligência de milhares e milhares de pessoas, que vão trabalhando em geral em silêncio, com menos visibilidade que nós [ativistas, políticos] tínhamos, mas cimentando uma base científica e cultural de conhecimento que, depois, pode gerar a base [política, ativista] de nossos povos”, disse, estabelecendo a ponte muitas vezes invisível entre pesquisa e transformação social, educação e transformação política.

Em dado momento, Lucía lembrou que Mujica se definia como um estoico, mas ela tratou de defini-lo, mais de uma vez, simplesmente como “um homem sensível”. Nesse sentido, Lucía Topolansky contou que Pepe, até em seus últimos dias, enquanto ainda conseguia subir em um trator, seguia subindo. “Subia ‘para fazer algo’: arar um pedacinho de terra…”, disse, saudosa. Nesse momento, a lembrança fez resgatar na memória a profunda ligação do marido com o mundo natural e com sua vizinhança mais próxima, na zona rural de Montevidéu onde o casal sempre vivera. “Em nossa casa, temos um ‘muro do orgulho’: é onde colocamos os Honoris Causa [que recebemos] da universidades latino-americanas. Usamos [esse muro] para conversar com os vizinhos que nos visitavam sobre a importância da educação”, segredou, detalhando aspectos da defesa que ela e o marido sempre fizeram da incorporação da ciência à agricultura, sob a perspectiva do cuidado com o meio ambiente.

“Há um vínculo entre toda a sabedoria da natureza e a sabedoria do conhecimento”, insistiu em dado momento, tematizando a sustentabilidade e aproximando o ato de observar a natureza, atividade que interessava particularmente a Mujica, ao ato de investigar a realidade, na expectativa de compreendê-la e transformá-la. Já sobre a lembrança da morte tão recente de Pepe, Lucía fez questão de dizer: “O mais importante é que ele pôde deixar um montão de companheiros e companheiras que seguiram na luta.” Nesse momento, a ex-senadora uruguaia olhava com alegria para os estudantes – em sua maioria, negros – que, com cartazes de homenagem na mão, prestigiavam em peso a solenidade, representando o Diretório Central de Estudantes (DCE) e a União Nacional de Estudantes (UNE). Mirando-os, concluiu: “Lembro de uma frase que Pepe sempre dizia, voltando-se para o futuro: ‘O impossível custa um pouco mais, mas é possível (se lutamos!).’” Ao fim do evento, esses mesmos jovens, já na saída, entoavam um grito que assim dizia: “Internacionalizamos a luta; internacionalizamos a esperança”.

"Pepe Mujica: presente!", dizem cartazes de estudantes
Estudantes celebram o líder: “Pepe Mujica: presente!”
Foto: Raphaella Dias | UFMG

O homenageado e sua parceira
Nascido em 1935, em Montevidéu, José Alberto Mujica Cordano trabalhou como agricultor, teve papel relevante no combate à ditadura uruguaia do período 1973-1985 – o que lhe valeu seus 14 anos de prisão – e foi presidente do Uruguai de 2010 a 2015. Ele também foi senador de 2015 a 2018. “Durante seu governo, o Uruguai aprovou políticas sociais importantes e ousadas: aprovou a legalização do direito ao aborto e a descriminalização da maconha e consolidou o Uruguai como uma das democracias mais estáveis da América Latina, com uma frente ampla de esquerda, que reúne os diferentes partidos e movimentos da esquerda uruguaia em um mesmo caminho de unidade. Foi um exemplo para todo o mundo, um exemplo que deveria ser seguido por aqui”, demarcou Andrea Moreno durante sua fala na cerimônia.

Pepe Mujica e Lucía Topolansky em outubro de
Pepe Mujica e Lucía Topolansky em outubro de 2023: uma vida inteira juntos
Foto: Casa Rosada | Presidência da Argentina

“Mas tão importante quanto sua gestão foi o exemplo que deu em vida do que é ser um revolucionário. Enquanto governava um país, Mujica continuava vivendo em sua pequena chácara [ali ele e Lucía viveram pelos últimos 40 anos, até sua morte no ano passado]. Dirigia seu velho fusca. Cuidava de suas plantas. Doava grande parte do seu salário. Essas são escolhas que fizeram ele ser conhecido no mundo inteiro como ‘o presidente mais pobre do mundo’. Mas, quando ouvia isso, ele respondia com ironia: ‘Não, pobre não sou eu. Pobres são aqueles que precisam de muito para viver’.”

Lucía Topolansky, por sua vez, foi deputada, senadora e vice-presidente do Uruguai. Ela e Pepe Mujica se conheceram quando militavam no Movimento de Libertação Nacional Tupamaros. Separados pela prisão, eles se reencontraram após serem soltos e, já engajados na política formal, ocuparam os principais cargos políticos do Uruguai.

Hoje, com 81 anos, Lucía Topolansky foi o grande amor da vida de Mujica, conforme ele próprio declarou certa vez: “Estou vivo por causa dela”. Em outra ocasião, quando a nominaram, em um evento, como sua mulher e “ex-primeira-dama”, ele cobrou imediatamente que se corrigissem, solicitando que a nominassem pelo que ela foi em si mesma: chamem-na de ex-deputada, ex-senadora, ex-vice-presidente do Uruguai, disse, fazendo lembrar o que dele disse Andrea Moreno em sua homenagem: era, ao cabo, um educador.

Componentes da mesa da cerimônia
O ‘muro do orgulho’: distinções recebidas eram usadas por Pepe e Lucía como mote para falar com vizinhos sobre a importância da educação
Foto: Raphaella Dias | UFMG

Categoria: Institucional

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