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EDITORA UFMG

Em livro, Laura Gioeni mobiliza a filosofia para refletir sobre processos de restauração

Autora italiana discute restaurações que, em busca de uma hipotética originalidade, ignoram e apagam transformações vividas ao longo da história; obra foi traduzida por Wander Melo Miranda e Henrique Burigo

Por Redação

Com Érica Trajano | estagiária da Editora UFMG

Praça do Capitólio, em Roma, projetada por Michelangelo
Foto: Wikipedia | CC BY-SA 4.0

Quando se trata de restauração, os manuais tradicionais da área costumam seguir uma linha de intolerância às metamorfoses vividas ao longo do tempo pelas construções e pelos demais objetos a serem restaurados. Em contrapartida, há uma perspectiva para a qual restaurar significa projetar um futuro para um passado que, na verdade, está sempre à espreita desse porvir. Essa é a proposta discutida na obra Genealogia e projeto: por uma reflexão filosófica do problema da restauração, da arquiteta e filósofa italiana Laura Gioeni, que acaba de ser lançada pela Editora UFMG.

Livro 'Genealogia e projeto', de Laura Gioeni
Livro ‘Genealogia e projeto’, de Laura Gioeni
Imagem: Reprodução de capa

A pesquisa de Laura Gioeni incide sobre os campos da teoria do restauro e da filosofia da arquitetura. Traduzido pela primeira vez para o português, seu livro interessa a todo o campo de ciências humanas, e sobretudo a pesquisadores, estudantes e profissionais que atuam nos campos da arquitetura, do urbanismo e do patrimônio cultural. A obra foi vertida para o português pelo professor emérito da Faculdade de Letras Wander Melo Miranda e pelo tradutor Henrique Burigo, especialista em traduções escritas originalmente em italiano (já traduziu, por exemplo, livros de Roberto Esposito e de Giorgio Agamben para a editora).

Álibi do restaurador intolerante
No livro, a autora defende que, ao tentar preservar ou recuperar a originalidade, as práticas tradicionais de restauração mantêm fidelidade a uma época que já passou, negando as marcas deixadas pelas transformações que edifícios, por exemplo, sofrem ao longo do tempo – causadas por guerras, reformas ou pela própria ação do tempo. Na introdução da obra, o arquiteto italiano Marco Dezzi Bardeschi antecipa essa discussão, afirmando que a negação da descontinuidade se torna um álibi do restaurador intolerante, que tenta eliminar os acontecimentos da história real em favor de um ilusório monumento ideal de originalidade. 

A resposta a essa visão surge quando o livro propõe a aplicação da prática genealógica, um método filosófico inaugurado por Friedrich Nietzsche, e posteriormente refinado por Michel Foucault, que questiona a busca por uma origem única e sagrada. Com esse olhar filosófico, Laura Gioeni apresenta a genealogia como ferramenta capaz de libertar o arquiteto contemporâneo do receio de intervir. A obra mostra que o tempo e a cultura sempre estão passando por constantes mudanças, e a interpretação de um monumento nunca é definitiva, mas sempre provisória e sujeita a novas leituras.

Nesse sentido, o restauro não deve ser visto como uma reprodução fiel de um passado idealizado, mas, sim, como prática aberta às transformações. Em vez de apagar as marcas da história, ele dialoga com elas. A obra pode ser adquirida no site da Editora UFMG, onde também é possível ler o início do livro, em um PDF de degustação.

Livro: Genealogia e projeto: por uma reflexão filosófica do problema da restauração
Autora: Laura Gioeni
Tradução: Wander Melo Miranda e Henrique Burigo
Editora UFMG 
R$ 79 | 194 páginas

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