Opinião pública e turbulência: livro trata de democracia, mobilização e efeitos da polarização
Obra editada por Mara Telles, da UFMG, e Joscimar Silva, da UnB, reúne análises sobre campanhas eleitorais, lideranças digitais, confiança nas instituições e teologia do domínio
Por Itamar Rigueira Jr.
Pesquisadores e instituições de diversos países da América Latina juntaram esforços para tratar, em livro, de aspectos como a visão dos cidadãos sobre o desempenho de sua democracia, a disposição das pessoas para se mobilizar contra um fenômeno, um líder ou uma decisão política, e os efeitos da polarização sobre a sociedade. A abordagem da coletânea Public opinion and turmoil in latin-american democracies (Opinião pública e turbulência nas democracias latino-americanas), recém-lançada pela editora Springer, considera o papel fundamental das pesquisas de opinião pública e o desafio de interpretá-las.
Organizado pela professora Helcimara Telles, do Departamento de Ciência Política da UFMG, e pelo professor Joscimar Silva, da Universidade de Brasília (UnB), o livro esquadrinha, em 13 capítulos, a crise de representação, a reconfiguração da política das fontes de informação, a política digital, os protestos e a emergência de uma nova direita no Brasil, as justificativas para a sub-representação das mulheres nos processos eleitorais, negacionismo e teorias da conspiração, além de numerosos casos específicos em diversos países. Mara e Joscimar coordenam a Associação Latino-americana de Ciência Política (Alaci), à qual está vinculado o Grupo de Pesquisa Opinião Pública, da UFMG.
Mara Telles explica que a opinião pública é uma variável dependente, que reflete um ambiente político, social e econômico. “A opinião pública de um país é afetada pelas estratégias de líderes e parte dos políticos, caos, corrupção e contextos de polarização”, afirma a professora da UFMG. Segundo ela, além de explorar os fatores que impactam a opinião pública, “o conteúdo da coletânea é, em outro nível, um bom exemplo da forma como os estudos nessa área são conduzidos”.
Instabilidade e preferências eleitorais
No capítulo inicial, analisa-se a evolução das opiniões dos cidadãos latino-americanos sobre questões políticas e os possíveis efeitos dessas avaliações sobre o apoio e a satisfação com a democracia em meio a intensa turbulência na região nas duas últimas décadas, entre 2000 e 2020. Mara Telles salienta que “situações turbulentas são caracterizadas por grande instabilidade política, econômica ou social e incerteza; nesses períodos, os atores reavaliam suas preferências e adaptam a forma como mobilizam recursos, rotinas e ações”. Daí surgem mudanças nas preferências eleitorais, na identificação partidária, na percepção da corrupção e na confiança nas instituições representativas.
Outro capítulo, assinado por Mara Telles, mostra, por exemplo, que os protestos contra a presidente Dilma Rousseff, antes de seu impeachment, em 2016, eram protagonizados sobretudo por pessoas que defendiam valores anti-igualitários, rejeitavam fortemente o Partido dos Trabalhadores (PT) e deram os primeiros sinais do surgimento da direita radical no país.
Joscimar Silva, que é vinculado ao Instituto de Ciência Política da UnB, acrescenta que o texto destaca uma crise de representação em dois ciclos mais radicais, em torno dos anos 2002 e 2015. “Os resultados da análise agregada de dados da opinião públicas de 18 países indicam apoio ambivalente à democracia, baixa confiança nas instituições políticas (governo, parlamento e partidos) e uma identificação partidária frágil”, ele explica. Segundo o cientista político doutor pela UFMG, a percepção de corrupção e o mau desempenho econômico são fatores que agravam a instabilidade, enquanto a recente ascensão das mídias digitais “reconfigura a participação política, muitas vezes fomentando o ativismo antissistema”.
Os organizadores assinam capítulo focado na ascensão de lideranças políticas digitais em um cenário de crise de representação. A baixa confiança nas instituições tradicionais abre espaço para líderes que, por meio das redes sociais, buscam construir legitimidade com discursos antissistema e polarizados. “Eles exploram temas como corrupção e violência para engajar um eleitorado cético e conectado. O texto demonstra como surgem as novas carreiras políticas, quando influenciadores digitais fazem das turbulências na opinião pública digitais ambiente ideal para se tornarem representantes ou intermediadores políticos”, explica Joscimar Silva.
Deus contra o mal da política
Artigo sobre religião e a teologia do domínio – que retrata a vida na Terra como uma luta de Deus contra o mal da política brasileira – mostra como a religião e as percepções do público influenciam a extensão em que os indivíduos aderem aos princípios democráticos. O texto expõe como os ramos evangélicos da religião cristã funcionam na sociedade brasileira, particularmente por meio de políticas institucionais. “Algumas igrejas evangélicas, particularmente as pentecostais, são motivadas pela teologia do domínio. Nossa hipótese é que essa doutrina usa o campo da política, entre outros caminhos, como meio de influenciar a opinião pública, angariar apoio de pessoas que compartilham suas concepções religiosas e atrair eleitores para defender uma legislação que se alinhe com suas agendas morais. O mal é identificado com conquistas sociais, como os direitos das minorias, tais como as mulheres e os grupos LGBTQIAPN+”, esclarece a professora da UFMG.
Nesse jogo, a vitória do oponente é a própria derrota e, portanto, uma ameaça existencial. Essa forma de fazer política, diz a professora, incentiva o radicalismo, desencorajando os seguidores de cultivar valores democráticos como a tolerância e a pluralidade de opiniões. “O resultado é que o processo de polarização política se potencializa, e uma parte significativa do eleitorado evangélico é cooptado pelas forças da extrema direita antidemocrática brasileira”, afirma Mara Telles, autora do trabalho com Horrana Grieg Oliveira, Robson Sávio Souza e Leonardo da Silveira Ev.
Voz aos excluídos
A campanha eleitoral da advogada e ativista Francia Márquez em 2022, na Colômbia – ela foi eleita vice-presidente –, é investigada sob a ótica de raça, gênero e classe no capítulo 9. A análise de seus perfis em redes sociais revela, de acordo com Joscimar Silva, uma estratégia que mobilizou o eleitorado ao dar voz aos excluídos (os “nobodies”). “Sua campanha concentrou-se em temas como dignidade, esperança e ‘vivir sabroso’, conectando com um eleitorado que se sentia marginalizado e promovendo uma agenda de mudança e representatividade para grupos historicamente marginalizados”, diz o professor da UnB. Com base na campanha de Francia Márquez, esse estudo, ele acrescenta, mostra como as categorias raciais podem ser utilizadas como estratégias eleitorais, com a adição de gênero e classe social. Joscimar escreveu o capítulo com Érica Anita Baptista e Sandra Avi dos Santos
Outros capítulos abordam assuntos como movimentos pelo impeachment de Jair Bolsonaro, no Brasil e Sebastián Piñera, no Chile, a convergência da direita e a fragmentação dos progressistas no Peru, polarização na Bolívia e na Espanha, justificativas para a subrepresentação feminina na política eleitoral, eleições em 2023 na Argentina, México e Paraguai em perspectiva comparada, a eleição de parlamentares outsiders no Chile e no Brasil, negacionismo e teorias da conspiração no governo Bolsonaro.
Mara Telles ressalta que o campo da pesquisa de opinião está em processo constante de inovação e atualização. E que isso é possível, em grande medida, graças aos especialistas que promovem o progresso metodológico e técnico, buscando sempre novas formas de compreender a realidade, aprimorando a coleta e análise de dados. “Esse livro é um bom exemplo do valor desses estudos e da receptividade dos especialistas em opinião pública para o avanço do conhecimento científico do ambiente político e social da América Latina”, diz a pesquisadora, que lidera o Grupo Opinião Pública. O volume foi publicado com apoio de fundações de pesquisas, brasileiras e pan-americanas.
Livro: Public opinion and turmoil in latin american democracies
Organizadores: Helcimara Telles e Joscimar Silva
Editora: Springer
Impresso e ebook
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