UFMG mantém-se entre as principais depositantes de patentes do país
Universidade, que aparece em quinto lugar no ranking do INPI de 2024, figura, na última década, entre as 10 instituições brasileiras que mais protegem suas inovações
Por Luana Macieira
Com 77 patentes de invenção, a UFMG aparece em quinto lugar no ranking das maiores depositantes de patentes no Brasil em 2024, divulgado pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). Na última década, a UFMG vem mantendo posição de destaque no cenário nacional ao figurar entre os 10 maiores depositantes. Desde 1992, a Universidade registrou 1.500 patentes no órgão.
O professor Gilberto Medeiros, diretor da Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica da UFMG (CTIT), afirma que a boa colocação da UFMG reflete o compromisso da Universidade com a inovação e com a produção e proteção da tecnologia. “A missão da universidade é produzir e proteger o conhecimento. Temos mantido uma boa média de 70 patentes anuais, e isso mostra que a nossa comunidade universitária, incluindo professores, pesquisadores, estudantes e servidores técnico-administrativos em educação, tem compromisso com a inovação. A nossa comunidade é muito ativa e produtiva”, afirma ele.
A reitora Sandra Regina Goulart Almeida avalia que o desempenho da UFMG no ranking de patentes reflete uma preocupação histórica da instituição com a geração, proteção e licenciamento de tecnologias. “Temos um robusto ecossistema de inovação que favorece, por exemplo, o surgimento e a maturação de spin-offs muito bem articuladas com o setor empresarial. O nosso posicionamento no ranking de patentes é uma parte mais visível desse ecossistema, que é muito complexo e desafiador”, pondera a reitora.
Além das patentes nacionais, o ranking divulgado pelo INPI apresenta os depósitos nas categorias de marcas, desenho industrial, softwares e know-how. No ano passado, a UFMG depositou oito marcas, dois desenhos industriais, 48 softwares e 10 know-hows. Gilberto Medeiros explica que manter os bons índices de depósito de patentes é importante para que as instituições de ensino e pesquisa se aproximem da indústria e do comércio, pois depósitos de patentes possibilitam licenciamentos de tecnologias.
“Após o depósito da patente da tecnologia, a Universidade pode conceder às empresas autorização para que o conhecimento produzido seja utilizado de forma comercial para a geração de inovação. Isso torna as empresas mais competitivas nacional e internacionalmente. As empresas geralmente não fazem pesquisa, então é necessário que haja essa ponte entre elas e as universidades”, diz o diretor da CTIT.
‘Escritura intelectual’
Gilberto Medeiros vale-se de uma analogia para explicar o que é o depósito de uma patente. Trata-se, segundo ele, de um documento que atesta a propriedade de uma invenção intelectual. “Uma invenção é algo criado a partir de conceitos. A carta patente é um documento concedido como prova do ineditismo de uma invenção. Assim como o proprietário de uma casa tem a escritura daquele local, o inventor tem essa ‘escritura’ da propriedade intelectual”, compara.
Medeiros acrescenta que a lista recém-divulgada pelo INPI traz ainda uma novidade importante para a ciência brasileira. Pela primeira vez, duas empresas residentes no Brasil (Stellantis Automóveis Brasil e Petrobrás) posicionam-se ao mesmo tempo entre as 10 maiores depositantes do país – a petrolífera brasileira já se destaca há muitos anos na lista do INPI. “Normalmente, apenas uma parte das patentes depositadas no Brasil, algo da ordem de 30%, era de empresas ou organizações residentes no Brasil. Antes, muitas empresas estrangeiras protegiam suas propriedades intelectuais no país para comercializá-las aqui. Contar com residentes nacionais entre as maiores depositantes é positivo porque mostra o conhecimento sendo produzido e transformado nacionalmente”, explica.
Entre as 10 maiores depositantes de patentes de invenção em 2024 figuram outras instituições de ensino públicas, como a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade de São Paulo (USP).
Pesquisas que transformam
Entre as 1,5 mil patentes já depositadas pela UFMG, algumas ganharam reconhecimento nacional e internacional, como a Calixcoca, vacina destinada ao tratamento para a dependência química de cocaína e crack, a Vaxxon Sa Ib+III, imunizante que protege tilápias, e o nanoscópio Porto, desenvolvido pela Fábrica de Nanossoluções (FabNS), empresa criada por egressos da UFMG.
“Trata-se de três exemplos – entre tantos outros – da relevância social de nossas inovações. Uma inovação só se sustenta se ela servir à sociedade que dá apoio a uma instituição como a nossa. Esse é o grande propósito dos esforços que fazemos para aprimorar nosso ecossistema de inovação”, afirma a reitora Sandra Goulart.
A vacina Calixcoca é fruto de pesquisa de professores das faculdades de Medicina e de Farmácia e do Departamento de Química do Instituto de Ciências Exatas (ICEx). Classificada como uma vacina terapêutica, ela induz o sistema imune a produzir anticorpos que se unem à cocaína na corrente sanguínea. Essa ligação transforma a droga em uma molécula grande, que não passa pela barreira hematoencefálica. O projeto incluiu etapas pré-clínicas, nas quais foram constatadas a segurança e a eficácia para o tratamento da dependência de crack e de cocaína e para a prevenção de consequências obstétricas e fetais da exposição de animais grávidas às drogas.
A segunda vacina, por sua vez, foi desenvolvida para atender ao mercado produtor de tilápias brasileiro, o quarto maior do mundo. A principal enfermidade que acomete as tilápias no Brasil é a estreptococose, causada pela bactéria Streptococcus agalactiae. Essa bactéria, responsável por elevadas taxas de mortalidade nos sistemas de produção dessa espécie de peixe, é ainda dividida em diferentes sorotipos, que são variações em alguns antígenos de sua superfície. Assim, para desenvolver a primeira vacina adaptada ao desafio sanitário das cepas circulantes na piscicultura no país, a UFMG e a empresa holandesa Vaxxinova firmaram contrato de parceria para pesquisa e desenvolvimento que deram origem à vacina. O estudo foi coordenado pelo professor Henrique César Figueiredo, da Escola de Veterinária.
O nanoscópio Porto é um equipamento de espectroscopia óptica de campo próximo capaz de revelar imagens na escala de um nanômetro (medida 1 bilhão de vezes menor que o metro), podendo, com isso, auxiliar nos estudos de composições de elementos como o grafeno – material extremamente flexível, supercondutor, aplicado, por exemplo, na indústria automobilística, na produção de eletrônicos e em processos de dessalinização da água.
Em novembro de 2023, a FabNS, sediada no Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC), exportou um nanoscópio para a Universidade de Humboldt, na Alemanha. A empresa agora está às voltas com a fabricação de unidades encomendadas pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Infraestruturas Quântica e Nano para Aplicações Convergentes (INCT IQNano) e pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro).
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