‘Esperança Equilibrista’: operação na UFMG completa oito anos
Em ação considerada ilegal, gestores foram conduzidos coercitivamente em 6 de dezembro de 2017; TV UFMG prepara documentário sobre o episódio
Por Tiago de Holanda
“A esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar”. Assim termina a letra de O bêbado e a equilibrista, canção de João Bosco e Aldir Blanc que, no fim da década de 1970, foi imortalizada na voz de Elis Regina e tornou-se simbolo da luta contra a ditadura militar. A mesma canção foi usada pela Polícia Federal para nomear a operação Esperança equilibrista, que, em 6 de dezembro de 2017, conduziu coercitivamente o então reitor Jaime Ramirez, a vice-reitora Sandra Goulart Almeida e outros gestores que colaboravam com a implementação do projeto do Memorial da Anistia Política do Brasil.
“Não autorizo, politicamente, o uso dessa canção por quem trai seu desejo fundamental”, escreveu João Bosco à época, em nota de repúdio à operação da PF. O protesto somou-se aos de várias outras personalidades, como os ex-presidentes da República Fernando Henrique Cardoso e Dilma Rousseff, e de organizações científicas e outras associações da sociedade civil, como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) e a seção Minas Gerais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Vários especialistas em Direito e Ciência Política, ligados à UFMG e a outras universidades, indicaram o caráter autoritário e ilegal das conduções coercitivas, realizadas no âmbito de inquérito policial que apurava supostas irregularidades na implantação do Memorial da Anistia Política. A UFMG ficara responsável por executar o projeto, encomendado e financiado pelo Ministério da Justiça.
“Nenhuma das pessoas conduzidas oferecia risco de fuga. Não havia indício de qualquer tipo de tentativa de obstrução no processo de investigação. Elas não se recusaram a colaborar com a investigação até porque não foram convidadas anteriormente”, lembra a professora Marjorie Marona, do Departamento de Estudos Políticos da UniRio e coordenadora do Observatório da Justiça no Brasil e na América Latina. “Nada do que a lei previa, do ponto de vista da mobilização desse instrumento processual, estava presente ali”, acrescenta Marjorie, doutora em Ciência Política e mestre em Direito pela UFMG.
Arquivamento
A operação Esperança equilibrista mobilizou dezenas de policiais federais e auditores da Controladoria-Geral da União (CGU) e do Tribunal de Contas da União (TCU). Além das conduções coercitivas, foram cumpridos mandados de busca e apreensão no prédio da Reitoria da UFMG e em outros endereços.
“Com todo esse aparato, em momento algum cogitou-se resistir, não ceder à ordem da autoridade, ainda que diante de uma abusividade, de uma ilegalidade”, recorda Fernando Jayme, professor da Faculdade de Direito, em entrevista à produção do documentário. “É de lamentar, porque montar um aparato dessa grandeza, com dezenas de policiais militares, com inúmeras viaturas, significa desperdício de recurso, é jogar dinheiro público no lixo”, avalia.
O Ministério Público Federal (MPF) em Minas Gerais concluiu que a PF não havia comprovado a prática de crimes e pediu o arquivamento da investigação policial em junho de 2020. O arquivamento foi, posteriormente, homologado pela quinta Câmara de Coordenação e Revisão do MPF, que também arquivou o inquérito civil que apurava supostas irregularidades na implementação do Memorial da Anistia Política.
“Foi um alívio fenomenal quando recebemos não só o parecer do Ministério Público aqui [em Minas], de que realmente não havia fatos concretos, não havia como sustentar as denúncias, mas principalmente quando voltou da Câmara do MPF, com decisão unânime de arquivamento dos dois inquéritos”, disse Sandra Goulart Almeida, reitora da UFMG desde 2018, em outro trecho da produção. “Mas a sensação que ficou foi de uma injustiça enorme, porque todos os jornais mostraram as nossas fotos, noticiaram a condução coercitiva, alardearam que havia desvio de não sei quantos milhões [de reais]”, lamenta.
Documentário
A operação Esperança equilibrista é tema de documentário que está sendo produzido pela TV UFMG. Com lançamento previsto para o primeiro semestre de 2026, o longa-metragem tem depoimentos da própria Sandra Goulart, de Jaime Ramirez e de outras pessoas conduzidas coercitivamente pela PF naquele 6 de dezembro de 2017. Também foram entrevistados o músico João Bosco, o ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello e o matemático Acioli Cancellier de Olivo, irmão do ex-reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Luiz Carlos Cancellier, que se suicidou após ser alvo de outra operação da PF, a Ouvidos moucos.
“Eu sabia que era questão de tempo, que as acusações iriam cair como cartas de baralho se você soprasse; elas eram tão malfeitas e tão infundadas que o processo não parava de pé. Era questão de tempo, mas a gente ia ter que conviver com isso, era preciso ter paciência”, lembrou Jaime Ramirez, em depoimento ao documentário.
Na produção, juristas e cientistas políticos mostram que a operação na UFMG não foi fato isolado e estava associada a outras ações policiais realizadas contra universidade públicas na mesma época. “Muito mais do que um registro histórico sobre as profundas marcas que esse período deixou para a UFMG, ao inseri-lo em um contexto social mais amplo, o documentário revela aspectos muito importantes sobre a história do país, das universidades e do sistema de justiça brasileiro. É uma história sobre a nossa frágil democracia, que exige de nós um estado permanente de alerta e luta, ao mesmo tempo que coloca as universidades como alvo de quem, ao fim e ao cabo, não respeita e ataca os preceitos democráticos”, analisa a professora Fábia Lima, diretora do Centro de Comunicação da UFMG.
Assista ao trailer do documentário:
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