Sessão de estreia de ‘Esperança equilibrista’ é marcada por defesa da memória e da democracia
Documentário, que revisita o episódio da condução coercitiva de dezembro de 2017, foi exibido pela primeira vez para a comunidade da UFMG
Por Redação
Mais de 200 pessoas acompanharam a sessão de estreia do documentário Esperança equilibrista: um marco da luta da universidade em defesa da democracia, realizada nesta terça-feira, dia 17, no auditório da Reitoria. O filme, produzido pela TV UFMG, revisita um dos episódios mais traumáticos da história da instituição: a operação da Polícia Federal que, em 6 de dezembro de 2017, conduziu coercitivamente gestores da Universidade, sob o pretexto de investigar supostas irregularidades na execução do Projeto Memorial da Anistia Política do Brasil.
A sessão foi precedida por uma reflexão feita por dois dos personagens que foram levados à força à sede da Polícia Federal – a reitora Sandra Goulart Almeida e o presidente da Fundep, Jaime Arturo Ramírez –, além da diretora do Cedecom UFMG, Fábia Lima, da diretora do documentário, Olívia Rezende, e do matemático Acioli Cancellier de Olivo, irmão do ex-reitor Luiz Carlos Cancellier, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Em operação semelhante, realizada meses antes em Florianópolis, a Polícia Federal prendeu o reitor Cancellier, que se viu impedido de entrar na própria universidade que dirigia. Abalado, ele tirou a própria vida.
Em sua fala, a diretora do Cedecom, Fábia Lima, afirmou que o documentário cumpre o dever de preservar a memória institucional, mesmo em episódios dramáticos, como a operação da Polícia Federal. “Estamos [a área de comunicação institucional] acostumados a lidar com grandes feitos, mas temos também o dever de revisitar momentos traumáticos. Aquele episódio não foi um fato isolado. Havia ali um movimento de ataque às universidades”, disse a diretora, referindo-se a outras operações de perfil semelhante deflagradas à época.
Diretora do documentário ao lado de Tiago de Holanda, a jornalista Olívia Rezende fez questão de chamar ao palco a equipe da TV UFMG que trabalhou na produção e destacou o valor histórico dos registros documentais arquivados no Cedoc da emissora, que foram fundamentais para a execução do projeto. Em sua avaliação, o documentário registra um episódio de “luta contra o autoritarismo, mesmo quando travada em nome do suposto combate à corrupção”.
Uma diferença fundamental
Vestido com uma camiseta preta da Universidade Federal de Santa Catarina, Acioli Cancellier rememorou o calvário do irmão, que se matou em 2 de outubro de 2017, 18 dias após a deflagração da operação Ouvidos moucos, que levou à sua prisão e resultou em sua destituição do cargo de reitor, além da proibição de frequentar a universidade que dirigia. Mais tarde, ele seria inocentado das acusações de desvio de dinheiro público.
Acioli, um dos entrevistados no documentário, refletiu sobre as semelhanças entre as duas operações e indicou uma diferença fundamental. “Aqui, na UFMG, o reitor Jaime saiu abraçado e acolhido pela comunidade no dia da operação. Com o reitor Cancellier, foi muito diferente. A comunidade da nossa universidade se omitiu. Três horas depois da operação, picharam um muro com a frase ‘Cancellier, devolva os 80 milhões!’”, relatou o matemático. Emocionado, ele ainda conjecturou: “Se a operação da UFMG tivesse ocorrido antes da da UFSC, e nossa comunidade tivesse visto a mobilização da comunidade da UFMG, talvez fosse outro o comportamento em relação ao Cancellier, e ele ainda estaria entre nós”.
Em seu breve pronunciamento, Jaime Ramírez, reitor da UFMG à época, agradeceu à comunidade que o apoiou naquele 6 de dezembro de 2017. “As pessoas foram conduzidas, mas quem estava sob ataque eram a UFMG e outras instituições.” Ele também repetiu uma frase que proferiu em frente ao prédio da Reitoria, no dia da operação, quando a comunidade acadêmica promoveu um abraço simbólico em apoio à instituição e a seus gestores: “A UFMG nunca se curvou e jamais se curvará ao arbítrio”.
No encerramento da mesa, Sandra Goulart, então vice-reitora e recém-eleita para seu primeiro mandato, afirmou que essa história precisava ser contada do ponto de vista da UFMG, ainda que a custo de se revolver uma “memória dolorosa”. “Todos souberam da condução, mas não de seu desfecho, marcado pelo arquivamento de todos os processos”, disse a reitora, que também prestou um tributo à comunidade. “Esse documentário é dedicado à comunidade. Só mantive uma postura altiva e fui a reitora que a universidade merecia porque a comunidade resistiu”, afirmou Sandra Goulart.
Deboche
Esperança equilibrista foi o nome dado à operação que levou gestores da UFMG à força para depor na sede da Polícia Federal em Belo Horizonte. Ele foi ironicamente inspirado em trecho da música O bêbado e a equilibrista, de autoria de João Bosco e Aldir Blanc. O deboche gerou uma reação indignada do próprio João Bosco. “Não autorizo, politicamente, o uso dessa canção por quem trai seu desejo fundamental”, escreveu o compositor à época, em nota de repúdio à operação da PF. Em entrevista à equipe do documentário realizada em sua casa, no Rio de Janeiro, o próprio músico leu a nota em uma das passagens mais marcantes do filme. Nos minutos finais do filme, João Bosco interpreta o hino da anistia política ao som de seu violão em meio a imagens recentes do cotidiano da UFMG.
O documentário será reexibido em Brasília, na próxima terça-feira, dia 24, às 19h, na sede da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições de Ensino Superior (Andifes).
Saiba mais sobre o documentário nesta reportagem da TV UFMG:
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