Árvore da Mata Atlântica resiste a calor extremo e a solo com rejeitos de mineração
Pesquisadores do ICB concluíram que a pitanga-preta mantém alta eficiência fotossintética e ativa mecanismos de defesa em ambientes contaminados, com potencial para restauração ecológica
Por Assessoria de Comunicação do Biodiv
Uma árvore nativa da Mata Atlântica demonstrou capacidade incomum de sobreviver e de se desenvolver em solos contaminados por rejeitos de mineração e sob calor extremo, revela estudo conduzido por pesquisadores do Departamento de Genética, Ecologia e Evolução, do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, em parceria com cientistas da Universidade Federal de Viçosa (UFV), da Universidade de Oxford e do Centro de Conhecimento em Biodiversidade (Biodiv).
A espécie, conhecida popularmente como pitanga-preta e cientificamente como Eugenia florida, manteve alta eficiência fotossintética e ajustou seu metabolismo em áreas impactadas pelo rompimento da barragem de Fundão, ocorrido em 2015, em Mariana (MG), que afetou diretamente a bacia do Rio Doce.
Os pesquisadores do ICB envolvidos no estudo são Renata Maia, Yumi Oki, Isadora Medina, João Carlos Figueiredo, Milton Barbosa e Geraldo Fernandes.
Solos degradados, respostas adaptativas
Publicado na revista Theoretical and Experimental Plant Physiology, o trabalho avaliou indivíduos da espécie em áreas contaminadas e não contaminadas, analisando características do solo e 16 variáveis fisiológicas relacionadas ao estado nutricional, à eficiência fotossintética, à fotoproteção e à tolerância térmica. Nesse contexto, o objetivo foi entender como a pitanga-preta responde a múltiplos estresses ambientais, combinando solo degradado e altas temperaturas.
As análises confirmaram que os solos afetados pelos rejeitos apresentam menor fertilidade, baixíssima matéria orgânica e concentrações reduzidas de nutrientes essenciais, além de elevado teor de ferro. Mesmo diante desse cenário, as plantas de pitanga-preta exibiram respostas compensatórias; apesar da redução no balanço de nitrogênio, aumentaram a produção de clorofila e de compostos antioxidantes fundamentais para a proteção celular, como os flavonoides.
A eficiência da fotossíntese também se manteve estável nos indivíduos que crescem em áreas contaminadas. Segundo os autores, essas plantas foram capazes de reorganizar suas rotas metabólicas associadas à fotoproteção, promovendo ajustes fisiológicos integrados que possibilitam manter o funcionamento fotossintético sob múltiplos estresses.
Tolerância ao calor e à crise climática
O estudo identificou ainda aumento da tolerância ao calor em plantas estabelecidas em solo contaminado. Esses indivíduos só começam a perder metade da eficiência fotossintética, importante indicador de estresse, quando a temperatura é cerca de 6,5% mais alta do que a suportada por plantas de áreas não contaminadas. Em outras palavras, o estresse contínuo provocado pelo solo degradado parece “treinar” as plantas para lidar também com ondas de calor, fenômeno conhecido como “tolerância cruzada”, cada vez mais relevante em cenários de mudanças climáticas.
Com base nesses resultados, os pesquisadores concluíram que a pitanga-preta tem elevada plasticidade funcional, coordenando fotoproteção, balanço energético e mecanismos antioxidativos para enfrentar condições ambientais extremas. Essa resiliência destaca o potencial da espécie para programas de restauração de matas ciliares impactadas por rejeitos de mineração e expostas a eventos climáticos extremos, como ondas de calor.
Para os autores, os achados reforçam a importância de selecionar espécies nativas capazes de responder a estresses múltiplos, que hoje moldam os ecossistemas tropicais, especialmente em áreas degradadas. Além disso, o estudo ressalta a necessidade de investimentos em pesquisas que busquem soluções baseadas na natureza e alinhadas a acordos internacionais que reforcem o uso de espécies nativas e que promovam a biodiversidade.
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