Morre, aos 97 anos, o professor emérito José Israel Vargas
Velório será realizado na manhã desta sexta, 16, no saguão do prédio da Reitoria da UFMG; Vargas foi ministro da Ciência e Tecnologia nos anos 1990
Por Itamar Rigueira Jr.
•Com Academia Brasileira de Ciências
Morreu na manhã desta quinta-feira, 15 de maio, aos 97 anos, o professor emérito da UFMG José Israel Vargas. O velório será realizado amanhã (sexta, 16), das 9h às 12h30, no saguão do prédio da Reitoria, no campus Pampulha. Nos últimos meses, ele passou por diversas internações.
José Israel Vargas foi professor catedrático de físico-química e química superior da UFMG e, em 1989, recebeu o título de professor emérito. Seus livros foram doados para a Universidade nos anos 2000. Ele foi ministro da Ciência e Tecnologia nos anos 1990.
“O professor José Israel Vargas teve uma longa e significativa história com a UFMG e sempre manifestou grande carinho pela Universidade. O legado que ele deixa é muito importante e ficará conosco”, disse a reitora Sandra Goulart Almeida, que era próxima de Vargas e o recebeu algumas vezes nos últimos anos.
O Palácio do Planalto publicou, em seu site, nota assinada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva. O texto afirma que, “além de sua reconhecida carreira acadêmica no campo das ciências nucleares, [Vargas] deu importantes contribuições às políticas públicas”, citando o posto de ministro da Ciência e Tecnologia. A nota prossegue: “Vargas sempre defendeu a produção e a aplicação do conhecimento científico no Brasil e denunciou corajosamente o obscurantismo que enfrentamos no passado recente”.
‘Ele era incansável’
José Israel Vargas foi um homem de vasta cultura, nos mais diversos campos, com memória inigualável, intacta até o último mês de vida, segundo o amigo Luiz Cláudio Almeida Barbosa, professor do Departamento de Química do ICEx, o mesmo onde o emérito atuou. Vizinho de Vargas, Luiz Cláudio fazia visitas mensais ao amigo. “Até há pouquíssimo tempo, ele ainda tentava colaborar com o departamento e orientava alunos de iniciação científica”, conta. “Era incansável”.
Segundo o amigo, Vargas era uma pessoa carinhosa, alegre e bem-humorada, que gostava de estar entre amigos, que eram muitos, e estava sempre interessado em aprender coisas novas. “Quando começou a perder a visão, há alguns anos, passou a usar um equipamento para possibilitar a leitura e, nos últimos tempos, contratava uma pessoa para ler para ele”, revela Barbosa.
Docente, pesquisador, ministro
Nascido em 1928, em Paracatu, Minas Gerais, Vargas foi ministro da Ciência e Tecnologia de 1992 a 1999, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC) de 1991 a 1993 e da Academia Mundial de Ciências (TWAS) por dois mandatos.
Israel Vargas formou-se químico na UFMG, em 1952, especializou-se em química nuclear na USP, estudou física no Instituto Tecnológico da Aeronáutica e doutorou-se em ciências nucleares pela Faculdade de Física e Química da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.
Como docente da UFMG, dirigiu o Instituto de Pesquisas Radioativas (IPR). Foi assessor técnico da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e um dos formuladores da política de energia nuclear do país no início dos anos 1960.
Em depoimento à TV UFMG por ocasião das comemorações dos 90 anos da Universidade, o professor refletiu sobre o contexto de criação do IPR e da corrida brasileira pelo domínio técnico da energia nuclear.
Autoexílio
Na ocasião do golpe militar de 1964, seu laboratório foi tomado pelo Exército, e ele foi demitido da CNEN e afastado da UFMG. Autoexilou-se na França, onde ficou por quase sete anos e atuou como líder de pesquisa no Centro de Estudos Nucleares do Comissariado de Energia Atômica, sediado na cidade de Grenoble.
De acordo com texto publicado pela Academia Brasileira de Ciências, José Israel Vargas pesquisou as transformações nucleares nos sólidos observadas por meio das interações hiperfinas. Nesse tipo de interação, a radiação emitida pelo núcleo é usada para descrever o estado do próprio átomo. O objetivo de suas investigações era entender o que acontece com o átomo que sofre uma transformação nuclear. Ele dedicou-se ainda ao planejamento e à modelagem de sistemas energéticos.
Foi secretário de Ciência e Tecnologia de Minas Gerais e, no Ministério de Ciência e Tecnologia, coordenou a expansão e consolidação da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) e trabalhou para aprimorar a qualidade da produção nacional, aperfeiçoando o Sistema Nacional da Propriedade Intelectual, a Metrologia e a Normatização.
No exterior, José Israel Vargas foi membro da Comissão Assessora para as Políticas de Cooperação Intelectual Internacional da Unesco e integrou o Conselho do Instituto de Estudos Avançados da Universidade das Nações Unidas, onde ajudou a desenvolver projeto para a pesquisa de uma linguagem entre computadores que permitisse a tradução automática de línguas. Foi embaixador do Brasil na Unesco e presidente do seu Conselho Executivo. Ainda segundo o texto da ABC, José Israel Vargas foi um defensor da energia nuclear e crítico do corporativismo na ciência brasileira.
Apoio a estudantes africanos
Como embaixador na Unesco, Israel Vargas sugeriu a criação de bolsas de estudo para estudantes africanos de países de língua portuguesa. A ideia materializou-se no programa Paula Domingues Vargas, instituído em 2004 por meio de convênio firmado entre a UFMG e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
À época, foram beneficiados 53 estudantes africanos, em sua maioria de Guiné Bissau, Cabo Verde, Moçambique e Angola. Nos tempos em que serviu na Unesco, Vargas tinha a África como uma das prioridades em razão dos graves problemas enfrentados pelo continente nas áreas de educação, economia e saúde. “São países que sofrem com a aids, a desnutrição, a falta de recursos. Muitas famílias não têm condições de ajudar os jovens que vêm estudar no Brasil e continuam a passar dificuldades”, justificou o então embaixador ao Portal UFMG.
O nome do programa foi uma homenagem à filha, Paula Domingues Vargas, que se formou em Música na UFMG e morreu, em 1981, logo após concluir seus exames finais. A iniciativa inspirou o governo federal a criar o Projeto Milton Santos de Acesso ao Ensino Superior (Promisaes).
Condecorações
José Israel Vargas foi condecorado com a Grã Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico, com a Ordem Nacional da Legião de Honra da França e com o título de Cavaleiro Honorário Comandante da Divisão Civil da Ordem do Império Britânico (Knight Commander). Recebeu a Medalha de Honra da UFMG, no ano 2000, o prêmio Bom Exemplo, em 2015, e a Medalha José Israel Vargas de Mérito em Pesquisa, da UFMG, em 2018.
Legado ‘imenso e inspirador’
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) publicou nota de pesar em que destaca que a trajetória de seu ex-ministro “foi marcada pelo firme compromisso com o avanço da ciência, tecnologia e inovação no Brasil e no mundo”.
A Sociedade Brasileira de Química ressaltou que o legado de Vargas é “imenso e inspirador, marcado pelo compromisso com o desenvolvimento científico, pela defesa da educação pública de qualidade e pela promoção da ciência”.
Vargas era viúvo e deixa as filhas Maria, Joana e Cláudia.
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