Conheça algumas ações do Núcleo de Ações Educativas do museu
20 de abril de 2023

Em dezembro de 2019 foi inaugurada, no Espaço do Conhecimento UFMG, a exposição de curta duração Mundos Indígenas. Curadoras e curadores indígenas de cinco povos – Yanomami, Ye’kwana, Xakriabá, Tikmῦ’ῦn (Maxakali) e Pataxoop – nos convidam a conhecer seus mundos por meio de conceitos escolhidos por eles. Vale ressaltar que os Mundos apresentados envolvem existências humanas e outras – como plantas, animais e espíritos – com as quais os povos indígenas convivem efetivamente. Em comum, esses povos evidenciam o respeito e amor à Terra.
O intuito da exposição é o de apresentar esses cinco mundos ao público escolar e visitantes espontâneos do museu, em especial o infanto-juvenil, por meio de experiências sensoriais e pelos recados dos curadores. A exposição convida ao exercício de evitar traduções e comparações com o mundo não indígena, estimulando o contato direto com os mundos e conceitos nela apresentados.
Toda exposição apresenta uma série de desafios para a equipe educativa de um museu, dentre eles estão o domínio de seu conteúdo e a criação de estratégias e práticas educativas que possibilitem que os visitantes estabeleçam conexões e ampliem seu repertório sobre os assuntos nela abordados.
Por isso, para desenvolver as atividades da Mundos Indígenas, a equipe do Núcleo de Ações Educativas do museu participou ativamente do processo de desenvolvimento curatorial e expográfico desde o início. Um grupo dos nossos mediadores participou de rodas de conversas com os curadores e artistas indígenas, para uma aproximação e imersão nos conceitos escolhidos por eles. Esse momento inicial foi importante e constituiu-se em ponto de partida para a construção das ações educativas, uma vez que a compreensão dos conceitos Në Rope, Weichö, Corpo-Território, Yay Hã Mi e O grande tempo das águas, que são complexos, seguiu a proposta de não-tradução que norteou a exposição.
Além disso, o grupo que acompanhava as reuniões de concepção da mostra desenvolveu atividades formativas para o restante da equipe, realizando oficinas com conteúdo sobre os povos indígenas antes mesmo da chegada da exposição – esse processo de imersão está registrado aqui.
Mundos Indígenas | Making of
“Se os napëpë (brancos) trabalhassem só nas roças, nós não teríamos epidemias. Não padeceríamos por doenças, mas já que lidam com minério, já que arrancam as epidemias do fundo da terra, já que queimam os minérios, então todo os napëpë, sejam as mulheres, as crianças, os jovens ou os velhos, ficam com o peito ruim, com câncer e essas outras doenças que o Yoasi escondeu no fundo da terra.” (KOPENAWA, Davi, 2020, p. 36)
O trecho acima faz parte do texto “A caminho de në ropë”, disponível no catálogo da exposição, e é a transcrição e tradução de um discurso feito por Davi Kopenawa em 14 de março de 2020, período em que no Brasil começam as primeira ações de isolamento social em função da pandemia de COVID-19.
Após dois meses de ações educativas na exposição, o museu pausou suas atividades presenciais como medida de proteção contra a propagação da doença. Desta maneira, o museu também se adaptou à nova realidade e lançou, em 21 de setembro de 2020, uma série de 06 vídeos da visita virtual à exposição, sendo um vídeo introdutório e os outros, uma imersão em cada mundo indigena – a visita também está acessível em Libras. A elaboração do roteiro da visita virtual foi realizada de forma colaborativa pelas equipes dos Núcleos de Ações Educativas, Expografia e Audiovisual do museu. O material teve como ponto de partida as experiências de mediação no período anterior às medidas de distanciamento social.
Ainda no contexto de isolamento social, foram pensadas estratégias para manter o contato com os professores que visitavam o Espaço do Conhecimento com seus estudantes, uma delas na elaboração do Guia para Educadores – Exposição Mundos Indígenas. Esse material consiste em um guia de referências para ser utilizado pelos educadores em sala de aula ao abordarem a temática indígena com seus alunos. Além disso, o Guia tem o objetivo de possibilitar que os professores se aprofundem nas temáticas trabalhadas na exposição e possam também inspirar seus alunos e estudantes a mergulharem na produção de conhecimento indígena, bem como busca auxiliar os docentes a atender a Lei 11.645, de 2008, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena.
Com a retomada das atividades presenciais no museu em 2022, novos desafios foram postos, entre eles a construção de uma prática educativa pautada na quebra de estereótipos reproduzidos socialmente. No contato cotidiano com os visitantes espontâneos e com os grupos escolares agendados nas visitas à exposição, a equipe educativa foi interpelada por questões como: “os ‘índios’ possuem computadores e celulares?”; “a casa deles é de tijolos?” Além de falas em que as populações indígenas eram situadas no passado, como se nos dias atuais não existissem mais esses povos vivendo no Brasil.
A partir das situações originadas no contexto das visitas, as atividades educativas buscaram estabelecer discussões que possibilitaram abordar esses estereótipos e desconstruí-los, apresentando aos visitantes o trabalho de pesquisadores indígenas vinculados à exposição e à universidade, suas produções audiovisuais e a presença deles nas redes sociais, como é o exemplo de Isael e Sueli Maxakali.
Além das visitas mediadas à exposição, o Espaço do Conhecimento UFMG também oferece uma possibilidade de imersão em cada mundo indígena apresentado na exposição. Para isso, foram pensadas oficinas para o público espontâneo, que visita majoritariamente o espaço aos finais de semana. As oficinas buscaram trabalhar de maneira multissensorial os conceitos da exposição, através de contação de histórias, pinturas corporais, elaboração de desenhos, dentre outras. Como exemplo temos a “Oficina de pintura corporal Ye’kwana”, que foi realizada pela mediadora do museu Marciane Rocha, do povo Ye’kwana, e utilizou a pintura corporal como um estímulo para a contação das wätunnä, que são histórias sobre o tempo das origens do mundo, quando alguns dos desenhos, hoje usados na pintura corporal, foram adquiridos pelo povo Ye’kwana.
Outra ação importante foi estabelecer o protagonismo de pessoas indígenas na condução das atividades educativas e de formação de professores. Nesse sentido, aconteceram dois encontros do projeto “Educação na Praça”, voltado à formação de professores, conduzido por estudantes indígenas da UFMG, um em 2022 com o tema “A presença indígena na universidade: desafios para construção de um diálogo de saberes” e outro em 2023, “Povos Indígenas no Brasil Contemporâneo”.
O Espaço do Conhecimento UFMG tem a inclusão como premissa de suas ações, buscando contemplar a diversidade de pensamentos e cosmovisões, atentando para a complexidade do entendimento sobre os povos indígenas no Brasil e, assim, buscando estimular nos visitantes a reflexão, plantando sementes para a desconstrução de preconceitos e estereótipos sobre os povos indígenas.
[Texto de autoria de Christopher E. Mourão, Jonathan Philippe F. B Santos , Juliana Cristina Lopes Cavalli, Wellington Luiz Silva, integrantes do Núcleo de Ações Educativas do Espaço do Conhecimento UFMG]
Para saber mais!
KOPENAWA, Davi. A caminho de në ropë. In: Ana Maria Rabelo; LIMA, Deborah; OLIVEIRA, Mariana; MARQUEZ, Renata (org.). Catálogo da exposição Mundos Indígenas. Belo Horizonte, 2020, 24-51 Disponível em: <https://bit.ly/3uIRBFB>
SILVA, Rangel et al. Exposição Mundos Indígenas: Relatos de experiências e metodologias educativas como propostas formativas dos mediadores no Espaço do Conhecimento UFMG. In.: Mostra Virtual – Pesquisa e Extensão da Rede de Museus e espaços de ciência e cultura da UFMG, 2023, pôster. Disponível em: <https://bit.ly/40ugDWK>
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