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Cedeplar

Face pesquisa comércio popular e apoia produtores em comercialização e divulgação

Coordenado pela professora Sibelle Diniz, grupo também ministra disciplinas na graduação e na pós; uma das frentes de trabalho é focada nas feiras e mercados da UFMG e da RMBH

Por Itamar Rigueira Jr | Cedeplar

Realizada mensalmente, a Feira de Economia Popular Solidária da Face reúne 15 empreendimentos por edição
Foto: Acervo Colmeia

Quando criança, Nayara Porto era apaixonada por flores. Mais tarde, estendeu sua devoção para as abelhas e passou a produzir mel, própolis, cera e diversos outros derivados. Ela se divide entre a apicultura e o resgate de polinizadores (abelhas, morcegos e marimbondos) em áreas urbanas, onde muitas vezes eles estão sob ameaça e também põem em risco a vida das pessoas. Seu apiário está em Nova Lima, vizinha de Belo Horizonte.

Por vários anos, Nayara distribuiu o mel gratuitamente e há apenas sete passou a comercializar o produto. Participante da Feira de Economia Popular e Solidária da Faculdade de Ciências Econômicas (Face) e da Feira Agroecológica, no campus Pampulha, ela conta com apoio do Grupo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Economia Popular e Solidária da Face/UFMG.

Conhecido como Colmeia desde que foi fundado, em 2014, por alunos da graduação em Economia, o grupo investiga o universo das feiras e mercados populares na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), abriga disciplinas – que associam a economia popular e solidária à discussão sobre a produção do espaço – na graduação e na pós e apoia os produtores na comercialização, gestão e divulgação dos produtos.

Mapeamento
No campo da pesquisa, o principal projeto em andamento é um mapeamento das feiras regulares nos 34 municípios da região, nas quais são vendidos sobretudo alimentos e produtos artesanais diversos. Uma primeira fase da pesquisa contou 153 iniciativas. Os pesquisadores chegaram a se surpreender com esse número, considerado alto a princípio, mas já está claro que pode haver muito mais. Os próximos passos do levantamento vão determinar a quantidade real dessas iniciativas e o que elas geram em termos de fluxos de renda na metrópole.

Nayara na feira da Face: entre a produção de mel e o resgate de polinizadores
Foto: Arquivo pessoal

Iniciado em outubro de 2023, o esforço do Colmeia vai resultar na sistematização e caracterização das experiências de feiras e mercados populares, compreendidas como parte fundamental dos processos de reprodução social na metrópole. De acordo com a professora Sibelle Diniz, vinculada ao Cedeplar e coordenadora do grupo da Face, o conceito de economia popular na América Latina abrange organizações, grupos informais, associações e cooperativas cujo objetivo não é acumular lucro, “mas melhorar as condições de vida e promover o bem-estar dos trabalhadores envolvidos e das unidades domésticas nas casas, bairros e vizinhanças onde eles atuam”.

Nos dois primeiros anos, o projeto de mapeamento passou por etapas como revisão bibliográfica nacional e internacional, busca pelas feiras e mercados nos sites e cadastros das prefeituras, georreferenciamento das experiências encontradas, caracterização preliminar dessas iniciativas e teste de plataforma para disponibilização das informações.

O passo seguinte foi a aplicação de questionários estruturados às feiras da UFMG – com foco em origem, organização interna, parcerias e relações com o território e a comunidade. As próximas etapas incluem análise de redes (sociométrica) e ampliação da pesquisa para a região metropolitana, sempre tendo em vista também oferecer os dados, por meio de plataforma acessível, a produtores, gestores públicos, acadêmicos e outros interessados.

Nos campi
A pesquisa feita recentemente pelo Colmeia na UFMG seria apenas um piloto para o mapeamento na escala metropolitana, mas ganhou vida própria quando o grupo percebeu a relevância das 12 feiras na vida da Universidade. Localizadas nos campi Pampulha e Montes Claros e na Escola de Arquitetura, as feiras atraem público diverso, formado sobretudo por estudantes e servidores técnicos, mas também por professores e pessoas da comunidade externa. As maiores chegam a reunir mais de 60 produtores, em sua maioria mulheres.

“Além do maior interesse pelo trabalho artesanal, elas têm mais motivos para abdicar do mercado formal, por causa dos empregos precários e da necessidade de um esquema flexível, que as poupe, por exemplo, das horas excessivas gastas apenas no deslocamento de casa ao trabalho”, explica Sibelle Diniz.

Feira solidária no centro de Belo Horizonte: uma das 153 iniciativas do gênero mapeadas até o momento pelo Grupo Colmeia
Foto: Amira Hissa | PBH

Um dos objetivos do Colmeia, com base nos dados coletados, é produzir um relatório para a administração central da UFMG, destacando informações como a de que apenas duas feiras são formalizadas como ações de extensão, e 90% delas não possuem estrutura própria de barracas, mesas e cadeiras. O grupo pretende apoiar a formação de uma rede de feiras, capaz de viabilizar elaboração de calendário integrado, troca de informações sobre fornecedores, divulgação e solicitação em conjunto de apoio institucional.

A Feira de Economia Popular Solidária da Face, projeto de extensão de longa duração, ocorre uma vez ao mês, sempre numa quinta-feira. Os empreendimentos são selecionados via chamadas públicas, divulgadas no início de cada ano – a prioridade é para grupos compostos por maioria de mulheres, de pessoas negras e com mais de três integrantes. O Colmeia acompanha de perto os produtores-vendedores, que precisam muito desses eventos para escoar a produção. A feira conta com 15 empreendimentos em cada edição, das áreas de alimentação, agroecologia, artesanato, cosméticos naturais e confecções. A maioria dos grupos produtivos é de base familiar.     

Organização e crédito
“A Economia Popular e Solidária é um setor muito relevante, que reúne produtores em pequena escala de alimentos, artesanato e confecções, trabalhadores do cuidado e da construção civil de pequeno porte, ambulantes, catadores de resíduos para reciclagem, entre outros. Na última estimativa feita pelo Colmeia, com base no Censo Demográfico, a Economia Popular compreendia cerca de 20% da força de trabalho ocupada no Brasil, afirma Sibelle Diniz.

A participação do Estado nesse setor tem sido fundamental, segundo a professora, porque muitos empreendimentos são frágeis, necessitam de maior acesso a crédito e a apoio de maneira geral. Empreendimentos, gestores públicos e entidades de apoio ou fomento, como o próprio Colmeia, juntam esforços em redes e fóruns municipais, estaduais e regionais. Além de Sibelle Diniz, o grupo é integrado pelos professores João Tonucci e Roberto Monte-Mór, um pesquisador de pós-doutorado, três alunos da pós-graduação e cinco da graduação.

Sibelle Diniz: na economia popular, o bem-estar humano se sobrepõe ao lucro
Foto: Raphaella Dias | UFMG

Economia popular estruturante na AL
O campo da economia popular vem dos estudos urbanos e surgiu na América Latina, nos anos 1970 e 1980. Teóricos buscavam se contrapor às ideias então dominantes sobre o mercado de trabalho, baseadas no binarismo formalidade-informalidade. Para essa corrente, a economia informal tenderia a desaparecer naturalmente com os processos de desenvolvimento, sendo absorvida pelos setores formais. A nova visão, por sua vez, se apoiava na convicção de que a chamada economia informal é parte estruturante das economias latino-americanas, englobando grande conjunto de trabalhadores e formas produtivas heterogêneas, complexas, criativas e flexíveis, atreladas a um “circuito inferior” das economias, responsável por atender boa parte das demandas da população nesses países. Esses autores propuseram, então, o uso do termo “economia popular”, de modo a enfatizar essas características, em detrimento da ênfase na ausência de formalização junto ao Estado.

“Nos países da América Latina e da África, a economia solidária tem sua base na economia popular e é mais crítica e politizada, enquanto na Europa e nos Estados Unidos a ênfase recai sobre as associações e organizações filantrópicas, formas produtivas marcadas pela colaboração e com finalidade social”, diferencia Sibelle Diniz.

No âmbito do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da UFMG, o Cedeplar, os estudos sobre a economia popular e solidária começaram na passagem dos anos 1990 para os 2000, inaugurados por Roberto Monte-Mór, como parte das discussões sobre a economia regional e urbana. Pesquisas desenvolvidas atualmente no mestrado e na graduação, em economia e demografia, abordam assuntos como a heterogeneidade da economia informal – que já revelou tendência ao rejuvenescimento da informalidade no país –, as relações entre economia da cultura e economia solidária e a questão do gênero na economia popular.

Espaços de encontro
Sibelle Diniz ressalta um desdobramento importante das atividades do Colmeia: “Estamos sempre refletindo sobre a vida nos campi, questões de saúde mental e o valor das feiras como locais de encontro, além de compra e venda de produtos. É essencial ter sempre em mente a questão do encontro”. Ela destaca também o potencial das feiras como espaços de pesquisa e de formação dos estudantes, podendo se estabelecer como infraestruturas de base para disciplinas de extensão universitária em diferentes áreas.

Para Nayara Porto, a iniciativa de comercializar o mel e outros produtos e a participação nas feiras abriram portas e negócios. Amizades também florescem nesses encontros. “Os professores e os estudantes do Colmeia ajudam nas dificuldades, ensinam a fazer fotos e textos para divulgação e a cuidar das finanças. A gente se sente acolhida”, diz a produtora.    

Mesa em Diamantina
Os circuitos da economia urbana serão foco de uma das mesas do 21º Seminário de Diamantina, promovido pelo Cedeplar, que será realizado de 17 a 21 de agosto, na cidade do Vale do Jequitinhonha. Sibelle Diniz coordenará a mesa, que contará com João Tonucci, Mara Nogueira (Birkbeck, University of London), que tratarão do comércio popular na RMBH, e ainda Harley Silva e Raul Ventura-Neto, professores da Universidade Federal do Pará, que discutirão a realidade da Região Metropolitana de Belém, com foco na produção e no comércio do açaí.

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