Uma história de afetos
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90 anos de histórias

Seção reproduz depoimentos colhidos para série de vídeos da TV UFMG*

 

A sutil mudança no nome desta seção – de Opinião para Opiniões – não é resultado de um lapso de revisão. Em vez de um artigo sobre a UFMG, que completa nove décadas de fundação nesta quinta-feira, dia 7, optamos por reproduzir visões, experiências e memórias de pessoas que, em algum momento, tiveram suas trajetórias cruzadas com a da Universidade.

Os depoimentos de professores, estudantes, servidores técnico-administrativos, ex-alunos e representantes da comunidade externa que se relacionam com a Universidade foram colhidos pela equipe da TV UFMG para a série 90 anos de história, que pode ser acompanhada no hotsite comemorativo.

A seguir, uma pequena amostra da série, que será finalizada no dia 6 de setembro com o depoimento da professora Magda Neves, uma das fundadoras do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (Nepem).


Otávio Costa, estudante indígena do curso de Enfermagem. Imagem: TV UFMG

Eu não tenho aquela pele morena, que todo mundo espera que o indígena tenha, eu não tenho aquele cabelo pretinho, corrido. Vai ser sempre assim? O indígena só vai ser indígena a partir do dia em que usar as vestimentas indígenas e do dia em que colocar o seu cocar? Não, as coisas não são assim. A gente quer mostrar que é indígena, mas de uma forma diferente. Isso foi algo que eu fui construindo e desconstruindo na faculdade. Eu comecei a ficar por dentro dos seminários que tinha na Escola de Enfermagem, a ficar por dentro das intervenções, dos projetos de pesquisa e extensão. Eu sempre converso com a comunidade. “O que vocês querem que a gente leve para a UFMG?” “O que vocês acham importante para a população, para a comunidade acadêmica, conhecer mais um pouco dos Kaxixós?”. Eles falam: “Otávio, vamos levar o tema da medicina tradicional”. Ou, “dessa vez, Otávio, vamos levar os artesanatos. O pessoal vai ver que a nossa cultura ainda está viva”. “Ah, Otávio, vamos levar alguns filmes produzidos na comunidade, que as pessoas não conhecem”.

Hoje, sou visto de outra forma. A UFMG me deu muitas oportunidades, porque eu cresci dentro da Escola de Enfermagem. É hora de levar o que eu aprendi e aplicar na prática junto com eles, sem nunca afrontar a medicina tradicional. A gente precisa construir esse elo entre a Universidade e a comunidade.

Otávio Costa, estudante indígena do curso de Enfermagem


Nilma Lino Gomes, professora da FaE. Imagem: TV UFMG

A UFMG é o lugar onde construí parte da minha realização profissional e política. Aqui, primeiro na graduação e depois como professora, minha trajetória acadêmica, profissional e política deu uma guinada. Passei a compreender melhor os dilemas entre a produção do conhecimento e a necessidade de uma aproximação e articulação maior desse espaço com a vida fora da universidade, com os movimentos sociais, com as pessoas que lutam por direitos.

Conhecimento não se constrói só por cabeças brilhantes ou por grupos que podem ter acesso mais fácil a determinadas condições econômicas e culturais do que outros. Acho que o conhecimento se constrói coletivamente, na parceria e no trabalho conjunto.

Nilma Lino Gomes, professora da FaE


Emílson Dias Costa, integrante da Associação dos Produtores de Hortifrutigranjeiros da região do Pentáurea, em Montes Claros (área de influência do ICA). Imagem: TV UFMG

Quando começamos a montar a associação, em 1995, tínhamos apenas 20 produtores. Procuramos trazer-lhes técnicas diferentes e vimos que eles poderiam nos ensinar.

Montes Claros está no Norte de Minas, uma região basicamente agrícola, porém muito carente. A terra é boa, mas não chove. A Universidade trouxe novidades e tecnologia para a região. Até o ano passado, seria impossível afirmar que o Norte de Minas produz morango. Hoje, temos uma cultura de morango, com mudas da Patagônia. Isso foi possível graças à parceria com a UFMG, que já dura 25 anos.

Emílson Dias Costa, integrante da Associação dos Produtores de Hortifrutigranjeiros da região do Pentáurea, em Montes Claros (área de influência do ICA)


Carlito Homem de Sá, estudante da Fale (deficiente visual). Imagem: TV UFMG

Foi na Faculdade de Letras que consegui nutrientes essenciais para a continuidade do meu sonho de um dia escrever. Eu vivi cada semestre do meu curso como se fosse o primeiro e, ao mesmo tempo, com o encanto e a intensidade de quem vive o último. Contei com o suporte do Centro de Apoio ao Deficiente Visual da Fafich, que preparava e digitalizava os materiais e me encaminhava. Aqui recebi um calor humano que me estimulou a vencer as dificuldades. A UFMG foi um espaço de conquista, um ambiente que me deu força para encontrar alternativas para suprir minha deficiência. Trouxe esperança de caminhos para persistir e aprender.

Carlito Homem de Sá, estudante da Fale (deficiente visual)


Luciana da Cruz, gestora do projeto Arquitetura na Periferia UFMG. Imagem: TV UFMG

A ideia do projeto Arquitetura na periferia era facilitar pequenas reformas, para que a gente pudesse se sentir melhor dentro da nossa casa. Eu escolhi, por exemplo, colocar torneira no tanque. Eu tinha uma torneira que ficava a 50 centímetros do chão. Eu reboquei, fiz a estrutura com pilares, bati laje. Na maioria dos casos, são as mulheres que cuidam da casa. A casa tem que ser uma coisa que agrade a elas.

Todas as mulheres que participaram do projeto estão felizes, empolgadas, com vontade de colocar isso para frente, sabe? Tudo isso é muito gostoso – sentir que você participou de algo que pode mudar a vida de muitas pessoas, que pode melhorar a convivência das famílias.

Luciana da Cruz, gestora do projeto Arquitetura na Periferia UFMG


Fernanda Takai, ex-aluna, cantora e compositora. Imagem: TV UFMG

Na universidade, acho que eu fiz tudo que poderia fazer. Fiz os cursos de extensão de Letras (alemão e francês), estágio na imprensa universitária, fui monitora de laboratório de Relações Públicas. Então, tudo que havia na universidade, que era bom para que eu adquirisse experiência antes de ir para o mercado, eu fiz. Quando eu estava no fim do curso, chegamos a fazer uma calourada na Letras. Eram Pato Fu, Virna Lisi e Tom Zé. Esse show foi muito importante, foi o começo da banda Pato Fu, numa época em que eu estava desencanada com a música e investia na carreira de Relações Públicas. Tenho uma filha de 13 anos, e eu sempre falo quando a gente passa em frente à UFMG: Foi aqui que a mamãe estudou. E ela: Eu vou estudar aí, mamãe? Ué, depende só de você.

Fernanda Takai, ex-aluna, cantora e compositora


Miguel Arroyo, professor emérito (FaE). Imagem: TV UFMG

A UFMG é uma das universidades mais presentes em seu tempo. Está nas fronteiras sociais e políticas e traz, inclusive, os movimentos sociais para dentro de seus espaços.

A nossa universidade foi uma das primeiras a adotar a pedagogia da terra. Os movimentos dos sem-terra lutam pelo direito à terra e lutam, ainda, por direito à educação. ‘Ocupar o latifúndio do saber’ é o grito deles. Os sem-terra têm linguagens simbólicas muito fortes. Eles colocaram duas mulheres, camponesas, amamentando seus filhos envoltos nas bandeiras nacional e da universidade. E a própria reitora comentou: “Acho que quem idealizou essa bandeira nunca pensou que teria o papel de cobrir essas crianças, essas mães trabalhadoras do campo que lutam para entrar na universidade”.

Miguel Arroyo, professor emérito (FaE)


João Dimas, servidor técnico-administrativo. Imagem: TV UFMG

Eu vim, em 1970, do Rio de Janeiro para fazer um serviço na cobertura da Escola de Veterinária. Terminada essa impermeabilização, fui convidado a ficar na universidade e aceitei. Eu fui fichado como supervisor geral de obras. Tudo passava na minha mão. Um parafuso que você tirasse de um depósito desses, ou dos almoxarifados de obra, tinha que ter um visto meu. Então eu participei da construção de todos os prédios da universidade, de 1970 para cá.

Quando eu me aposentei, a ideia era não voltar mais. Eu tinha várias propostas da iniciativa privada. Mas só consegui ficar dois dias longe da UFMG. Grande parte do que consegui, do ponto de vista intelectual, do ponto de vista trabalhista, eu devo a essa universidade.

João Dimas, servidor técnico-administrativo


 

Evando Mirra, professor emérito (Escola de Engenharia). Imagem: TV UFMG

É muito bom a gente ver que as coisas se movem. Quando eu olho e penso na universidade que eu conheci e a universidade que existe agora, minha reação é de assombro. Estudei em um lugar que nominalmente era uma universidade, mas não era universidade no sentido de que não tinha cultura universitária. Eu estudei em uma escola superior, de alto nível, mas não era uma universidade. O nível de competência que a UFMG tem hoje, para quem a viu no passado, é quase inacreditável.

Quando fazia doutorado, eu, às vezes, sonhava com isso. Eu imaginava que levaríamos uns cem anos para criar um ambiente acadêmico, sendo otimista. Para a UFMG, a década de transformação foi 1980. Ela entrou na década de 1980 com cara de escola de ensino superior e saiu com cara de universidade.

Evando Mirra, professor emérito (Escola de Engenharia)


Ângelo Machado, professor emérito (ICB). Imagem: TV UFMG

Comecei a dar aula de anatomia, e veio uma estagiária trabalhar comigo num estudo sobre a glândula pineal. Chamava Conceição Ribeiro da Silva. Logo, a gente viu que estávamos mais interessados um no outro do que na glândula pineal. Fizemos um trabalho de namoro, um trabalho de noivado, um trabalho de casamento, e estão aí os filhos, os netos e o escambal. Um dia, um aluno disse: Professor, o senhor estuda pineal há tanto tempo. O senhor fez alguma descoberta importante?. Eu: A Conceição. Ele: Ah, professor, não brinca, não. Qual a função da pineal? Eu: Reprodução.

Ângelo Machado, professor emérito (ICB)

 

*Reportagem originalmente publicada na edição nº 1989 – Ano 43 do Boletim UFMG, de 4/9/2017

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