Inteligência Artificial e educação superior: desenvolvimentos, desvios e desafios
Série especial da UFMG Educativa problematiza IA em três reportagens
Por Ruleandson do Carmo
Desenvolvimentos promovidos pela IA
Cerca de 400 milhões de pessoas usam, semanalmente, a plataforma de inteligência artificial generativa ChatGPT, de acordo com a empresa responsável pelo sistema, a OpenAI. Um dos principais usos se dá durante a retirada de dúvidas e para auxílio com trabalhos acadêmicos e escolares. No cenário brasileiro, o uso da inteligência artificial (IA) nas universidades brasileiras, tem crescido de forma exponencial. De acordo com a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes), 70% das pessoas estudantes no país utilizam a IA para estudar e produzir trabalhos. O dado levanta preocupações sobre: desigualdade de acesso e letramento para grupos pormenorizados socialmente, uso indevido e a urgência por regulamentações eficazes. De ferramenta de apoio ao ensino a objeto de reflexão ética, a IA vem moldando práticas acadêmicas, desafiando regulamentos e propondo novas possibilidades.
Ferramentas baseadas em IA têm sido utilizadas para apoiar o ensino, personalizar o aprendizado e agilizar a produção científica, conforme apontam especialistas no tema ouvidos pela reportagem. De acordo com o professor da Universidade de São Paulo (USP) e integrante do Comitê Executivo da Sociedade Internacional de Inteligência Artificial na Educação, Seiji Isotani, a IA pode otimizar o ensino, a pesquisa e a extensão, facilitando o entendimento de conteúdos complexos e ampliando o impacto acadêmico na sociedade, facilitando o acesso e o uso ao que é produzido pelas universidades. Também avaliando o contexto científico-acadêmico, a professora Dora Kaufman, do Programa Tecnologias da Inteligência e Design Digital da PUC-SP, destaca que a IA pode auxiliar a criação de planos de aula, geração de ideias, síntese de documentos e aprimoramento da escrita. Segundo ela, a experiência prática com diferentes soluções de IA é essencial para definir os melhores usos na educação. A pesquisadora destaca iniciativas pioneiras no contexto brasileiro, como a Comissão Permanente de IA da UFMG, iniciada em 2023 e institucionalizada em 2024.
No contexto específico das pessoas estudantes, o professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e Doutor em Administração pela EAESP/FGV, Ricardo Limongi, destaca um benefício importante dela: segundo ele, a IA atua como uma “colega de estudo”, ajudando os alunos a compreenderem melhor temas abstratos, identificar padrões em bases de dados e personalizar conteúdos para projetos de extensão. A diretora de Comunicação da União Nacional dos Estudantes, Luiza Coelho, concorda e reforça que a IA pode ampliar o acesso à informação, apoiar pesquisas e contribuir com soluções tecnológicas voltadas ao interesse público. Apesar disso, a diretora alerta: o uso da IA deve seguir princípios éticos e de transparência.
Desvios de uso da IA
Ao lado dos benefícios, surgem os riscos do uso inadequado. Ferramentas como o ChatGPT vêm sendo utilizadas por estudantes para produzir trabalhos acadêmicos de forma automatizada. A professora da UFMG e integrante do Comitê Permanente de IA da universidade, Patrícia Nascimento, alerta que o uso indiscriminado pode comprometer a integridade acadêmica. Ela defende que os trabalhos devem ser elaborados com base na fundamentação teórica das disciplinas e que o diálogo com a pessoa docente é essencial para esclarecer quais ferramentas são permitidas. Além disso, Dora Kaufman complementa: embora seja possível integrar a IA no processo de aprendizagem, os modelos de IA (ou os sistemas de IA) não devem ser considerados autores de conteúdo. Ela propõe que os estudantes entreguem não apenas o texto final gerado via IA, mas entreguem, também, os prompts usados, permitindo que o docente avalie o raciocínio e a contribuição real do aluno.
Mesmo reconhecendo os potenciais e os benefícios do uso da IA no contexto do ensino, a conselheira da Associação Brasileira de Inteligência Artificial (Abria), Adriele Marchesini, chama atenção para o uso excessivo de tecnologias, pois ele pode diminuir tanto habilidades técnicas, quanto intelectuais e morais. Encontrar um equilíbrio entre o uso necessário (ou útil) e o uso abusivo parecer ser um caminho, como defende a vice-presidenta da Associação das Universidades Particulares (Anup), Claudia Andreatini. Cláudia afirma: proibir a IA não é o caminho, é preciso estimular o pensamento crítico dos estudantes, por meio de atividades que incentivem a reflexão.
Quem encontrou um ponto de equilíbrio, reconhecido por toda a banca avaliadora, durante a defesa do mestrado desenvolvido por ela, foi a jornalista e mestra em Ciência Política pela UFMG, Beatriz Valle. Na pesquisa “#Cancelado: O que é o cancelamento nas mídias sociais”, defendida em abril deste ano, a jornalista compartilha a experiência com o uso da IA para a produção de parte essencial de uma revisão bibliográfica, ressaltando que a ferramenta serviu como apoio e não substituiu o trabalho analítico: “a responsabilidade sobre o conteúdo continua sendo do autor humano”, destaca a pesquisadora.
Desafios e soluções
Apesar dos avanços, a IA ainda é inacessível para muitos grupos sociais. Seiji Isotani aponta que o grande desafio é democratizar o acesso às tecnologias, sobretudo para populações vulneráveis. Propondo uma alternativa, ele sugere o conceito de “IA desplugada”, que permite aplicar os benefícios da IA mesmo em regiões sem internet ou infraestrutura adequada. Entretanto, para a coordenadora do Movimento Negro Unificado, Rosa Negra, as barreiras são mais do que de acesso: ela denuncia a exclusão cultural promovida por algoritmos treinados com dados ocidentais, que excluem pensamentos de pessoas negras e de outros grupos étnico-raciais. Rosa explica: “a IA tende a invisibilizar saberes afrocentrados e reflete uma falta de diversidade nas equipes de desenvolvimento, majoritariamente compostas por pessoas brancas do norte global”.
Outra barreira a ser transposta pelas IAs se refere ao uso por parte das pessoas com deficiência (PCDs). Segundo a doutora em Química Biológica, nas áreas de concentração de Educação, Gestão e Difusão em Biociência pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e pesquisadora da Associação Brasileira de Pesquisadores em Educação Especial (ABPEE), Cristiana Passinato, há vários obstáculos enfrentadas por PCDs. Segundo ela, embora as ferramentas possam ser muito eficazes, as versões completas costumam ser pagas, e falta investimento público para garantir acesso pleno para quem integra o corpo discente, docente ou técnico das universidades.
Assim como Cristiana e Rosa revelam problemas no acesso das populações negras e PCDs no país às plataformas de IA, o indígena e doutor em Tecnologias da Inteligência e Design Digital pela PUC-SP, Alexsandro Mesquita, aponta dificuldades vivenciadas por outra minoria social: muitas pessoas estudantes indígenas não têm conectividade adequada, o que limita o uso da IA. Além disso, ele critica a falta de formações específicas e a resistência das universidades em reconhecer epistemologias indígenas para o ensino superior. A mesma lógica, de acordo com o doutor, é repetida pelos sistemas de IA, cujas bases de dados não são alimentadas com produções acadêmicas e com reflexões indígenas de forma substancial.
Defendendo a abordagem educativa, Ricardo Limongi da UFG destaca a importância de se institucionalizar o letramento em IA nas universidades. Segundo ele, proibir não é o caminho e mais do que aprender a usar a tecnologia, é preciso ensinar professores e estudantes a utilizá-la com responsabilidade.
Série em áudio
Em meio ao crescente uso da inteligência artificial na educação superior, a série especial da UFMG Educativa discute os impactos da IA e como solucionar os principais problemas que ela provoca e que não adianta pedir ao Chat GPT para resolver. Com produção de Ruleandson do Carmo e Breno Rodrigues e sonoplastia de Rodrigues, a produção especial, em três episódios, está disponível no Spotify e no SoundCloud da emissora.
Atualização (1/9/25): a série foi uma das três finalistas, entre cerca de 320 produções inscritas, entre todas as categorias, do 8º Prêmio Abmes de Jornalismo, na categoria Áudio Nacional. A cerimônia de certificação dos trabalhos finalistas foi realizada em cinco de novembro, em Brasília.
Ficha técnica
Produção e reportagem: Ruleandson do Carmo e Breno Rodrigues
Pessoas entrevistadas: Ricardo Limongi (UFG), Cristiana Passinato (ABPEE), Luiza Coelho (UNE), Seiji Isotani (USP), Claudia Andreatini (ANUP), Adriele Marchesini (Abria), Dora Kaufman (PUC-RS), Alexsandro Mesquita (PUC-SP), Rosa Negra (Movimento Negro Unificado), Beatriz Valle (UFMG) e Patrícia Nascimento (UFMG)
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