Livro de professor da Fafich investiga raízes conceituais e políticas da desinformação
Obra de Ernesto Perini, do Departamento de Filosofia, dialoga com debates atuais sobre democracia, negacionismos e crise de confiança nas instituições
Por Matheus Espíndola
O professor Ernesto Perini-Santos, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), é autor do livro Viver é fácil de olhos fechados, obra que investiga as raízes conceituais e políticas da desinformação contemporânea. Lançado pela Editora UFMG, o livro repercute debates sobre fake news, negacionismo científico e teorias da conspiração num momento em que o país enfrenta desafios decisivos para reconstruir a confiança social e proteger as instituições democráticas. Segundo Perini, a obra, lançada em outubro, procura explicar “como e por que perdemos o chão comum que torna possível a vida coletiva”.
Como sustenta o professor, “a crise atual de confiança nas instituições não é episódica e tem dois fatores estruturais: a modificação do modo de circulação da informação na internet e o crescimento da desigualdade social. A internet oferece um espaço sem filtros epistêmicos e morais, o que aumenta a visibilidade de diferentes tipos de negacionismos e torna difícil a leitura de fontes fiáveis de informação.” Segundo o professor Perini, a corrosão social produzida pela desigualdade é capaz de afetar a saúde mental, o desempenho escolar e a confiança institucional. Assim, o terreno se apresenta como fértil para dinâmicas de desinformação.
Desequilíbrio
Ancorado em pesquisas da epistemologia, da psicologia social, da sociologia do conhecimento e da antropologia das crenças, o livro sugere que a desinformação não é um simples erro cognitivo, mas um desequilíbrio estrutural, que nasce do atrito entre a coordenação social em larga escala e os mecanismos de pertencimento que estruturam identidades políticas. A obra examina como esses mecanismos colidem no ambiente digital, cujas dinâmicas velozes, fragmentadas e suscetíveis a impulsionamentos artificiais corroem a autoridade das instituições, de universidades a sistemas de saúde.
A discussão proposta pelo filósofo explora o conceito de common ground, o chão comum de conhecimentos que norteia desde ações cotidianas até campanhas de vacinação e processos eleitorais. Ao apresentar crenças como “mapas do mundo”, Perini destrincha noções de confiança e vigilância epistêmica, fundamentais para operar num “ambiente cognitivo inevitavelmente assimétrico”. Ao discutir cognição motivada e sinalização identitária, o filósofo mostra como crenças funcionam como marcadores de filiação. “Adotamos determinadas narrativas porque elas nos situam moral e politicamente. Esse enquadramento ajuda a compreender por que, muitas vezes, negar fatos se torna uma forma de proteger identidades e vínculos grupais”, observa.
A obra também busca explicar como os fenômenos de fake news, negacionismo científico e teorias da conspiração oferecem conforto identitário em contextos de incerteza e de enfraquecimento das instituições. Para Perini, esses conceitos não são “produtos da ignorância”, mas de um cenário no qual instituições fragilizadas deixam vácuos que atores oportunistas rapidamente ocupam.
Nesse ponto, o autor também disseca as causas estruturais do desequilíbrio: a infodemia, a arquitetura das plataformas digitais, o mercado informacional desregulado, a convergência de pertencimentos e o papel político da extrema-direita. “A extrema direita explora tanto o espaço sem filtros morais e epistêmicos da internet quanto a piora dos índices sociais”, afirma. “Aqui no Brasil, é possível encontrar um marco: a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, que foi precedida pela primeira eleição de Donald Trump e pelo Brexit, em 2016. Trata-se de um processo contínuo; a eleição de Bolsonaro e de outros atores da extrema direita foi longamente gestada pelo crescimento do sofrimento social e a mudança no ambiente informacional”, ilustra.
De acordo com Perini-Santos, estudos recentes analisaram milhões de tuítes em diversos países e identificaram que a desinformação provém, em larga medida, da extrema-direita. A manutenção de um ambiente desregulado, argumenta, “não é um efeito colateral, mas um objetivo político e econômico”. “Há aqui uma convergência de interesses da manutenção de um espaço sem filtros e da desregulamentação econômica, que serve aos interesses das grandes empresas tecnológicas”, ressalta.
Disputas contemporâneas
O professor também propõe um modelo explicativo para a desinformação. O ponto central, de acordo com ele, “é que a disseminação do conhecimento em culturas humanas depende da confiança, porque culturas humanas são cooperativas e cumulativas – em contraste com culturas não humanas”. Perini observa ainda que o pertencimento a grupos funciona como um importante marcador de confiança. Assim, quando determinados grupos exigem de seus membros a recusa de um conjunto específico de crenças, e essas crenças representam o melhor conhecimento disponível sobre o mundo em um dado domínio, surge o terreno propício para o negacionismo. Essa lógica, explica Perini, ajuda a compreender a distribuição dos diferentes tipos de negacionismo no mundo contemporâneo.
Na conclusão do livro, o autor situa o debate sobre a desinformação no horizonte das grandes disputas contemporâneas, especialmente a crise climática. Ele argumenta que o aquecimento global evidencia o limite da desconfiança: embora poucos compreendam plenamente os modelos climáticos, todos dependemos deles para orientar ações coletivas decisivas. “Uma sociedade mais justa é também uma sociedade que confia mais nas ciências”, sintetiza.
Perini destaca ainda os esforços de reconstrução institucional em curso no país, incluindo iniciativas do governo federal destinadas à valorização da ciência e ao fortalecimento da esfera pública. Ao refletir sobre caminhos possíveis para restaurar o equilíbrio informacional, ele afirma: “Se eu estiver correto, o reequilíbrio só pode ser atingido se houver uma modificação nos fatores que explicam o desequilíbrio, isto é, a diminuição da desigualdade e a regulação das redes sociais.”
O autor pondera, no entanto, que nenhuma dessas ações, isoladamente, produz efeitos amplos: “A regulação das redes é parte da resposta, mas isto é apenas parte da solução. A regulação será sempre parcial em relação ao modo como a desinformação circula online. Como regular, por exemplo, a difusão do terraplanismo ou controlar a desinformação sobre a vacinação?”, provoca. A escola pública, destaca o professor, tem papel essencial ao fornecer ferramentas para a saída do negacionismo. “Mas essa é também apenas parte da resposta que buscamos”, avalia o professor Edson Perini-Santos.
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