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O Futebol na RMBH: aspectos históricos e sociais

Conheça a história do futebol na RMBH e o potencial desse esporte para a sociabilidade nas cidades

 

30 de abril de 2024

 

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Você sabe onde e quando aconteceu a primeira partida de futebol da cidade de Belo Horizonte (BH)? Foi em 1904, quando o primeiro time de futebol foi fundado: o Sport Club Foot-ball, por Victor Serpa. Tal evento aconteceu no Parque Municipal de BH, localizado na área central da cidade.

 

Desde então, o futebol e todas as relações que o envolvem mudaram muito, transformando não só os torcedores, mas também toda a cidade e suas formas de lazer. Abordaremos neste texto as bases históricas desse esporte na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) e todo o contexto social que o transformou em uma das principais atividades de lazer, interação social e origem de protestos.

 

O pontapé inicial

O futebol foi inserido em BH por Victor Serpa, jovem carioca que veio à cidade para se graduar na Faculdade Livre de Direito, e fundou, em 1904, o Sport Club Foot-ball, primeiro time de futebol na cidade. Logo em seguida, vários outros clubes foram criados por jovens da elite belo-horizontina, como o Plínio Foot-Ball Club e o Villa Nova Atlético Clube (1908), de Nova Lima. No entanto, a elitização do esporte, praticado em um espaço até então frequentado apenas por ricos, o Parque Municipal, somado à baixa adesão da população a atividades coletivas ao ar livre, fez com que a prática fosse esfriando, principalmente depois da morte de Victor Serpa, em 1905, que deixou o esporte “órfão” na cidade. Porém, em 1908, uma nova onda surge, com os times Athletico Mineiro Football Club (atual Clube Atlético Mineiro) e Sport Club Mineiro, mas ainda restrito a uma pequena parcela da população.

 

Escudos do Clube Atlético Mineiro. (Créditos: Clube Atlético Mineiro).

 

A partir de 1910, com a popularização do esporte, surgiram outras agremiações, como o Yale Athletic Club, fundado pelo inglês Adolf Haley, uma das primeiras agremiações mineiras com adeptos mais humildes e de bairros periféricos de Belo Horizonte. Embora o clube estivesse sediado no Barro Preto, bairro da região central, era formado majoritariamente por operários. Aqui, fica evidente como a história dos clubes da RMBH são parte da história das cidades: Belo Horizonte foi uma cidade cosmopolita desde sua fundação, abrigando pessoas de todos os lugares do mundo, como podemos observar na história de criação dos vários times formados à época.

 

Alguns anos depois, em 1921, cria-se também o Società Sportiva Palestra Itália (atual Cruzeiro Esporte Clube), que congregava os membros da numerosa colônia italiana de BH, formada com a vinda de imigrantes que atuaram como mão de obra estrangeira na época da construção da cidade.

Logos do Cruzeiro Esporte Clube (anteriormente Società Sportiva Palestra). (Créditos: Cruzeiro Esporte Clube).

 

O profissionalismo e a diversidade

Na década de 1930, surgiu um movimento de profissionalização dos clubes, em decorrência da popularização do futebol em escala nacional. Contudo, esse movimento sofreu resistência por parte dos defensores do amadorismo no esporte, que tentavam manter o caráter elitista do futebol, enquanto os defensores da profissionalização buscavam aderir às transformações sociais do Brasil. Nesse período, o destaque local foi do clube Villa Nova, time de Nova Lima que tinha bases operárias e humildes. Tal evidência é percebida por meio de um reflexo das transformações sociais, visto que apenas a profissionalização dos jogadores permitiria a dedicação integral ao esporte. Belo Horizonte estava em fase de modernização e intenso crescimento urbanístico, entre 1920 e 1940, o que também marcou o futebol e os perfis socioculturais dos torcedores. O Atlético, nesse período, reforçou sua imagem de time popular, fazendo mutirões para limpeza dos campos de futebol e também grandes festas nas casas dos fundadores do time, enquanto o Palestra precisou adaptar-se para não ser mais restrito apenas a imigrantes. 

 

De Palestra Itália a Cruzeiro Esporte Clube

Em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, embora o Brasil mantivesse sua neutralidade, após o ataque de um navio brasileiro pela Alemanha nazista, o país passou a apoiar os Aliados. O presidente Getúlio Vargas então promulgou o Decreto Nº 10.358 em 31 de agosto de 1942, declarando estado de guerra no Brasil. Com o objetivo de condenar as agressões dos países do Eixo (Alemanha, Japão e Itália), o decreto proibiu qualquer referência a essas nações. Como resultado, a Società Sportiva Palestra Itália mudou seu nome para Cruzeiro Esporte Clube, em homenagem à constelação do Cruzeiro do Sul. Essa medida afetou não apenas o Cruzeiro, mas também times como o Palmeiras (anteriormente conhecido como Palestra Itália) e o Esporte Clube Pinheiros (antes chamado de Esporte Clube Germânia).

 

A rivalidade Atlético x Cruzeiro

Nos anos seguintes, a partir da década de 40, a tônica do futebol mineiro foi a rivalidade entre o Cruzeiro e o Atlético Mineiro, já com muitos adeptos e grandes torcidas, que davam espetáculos em campo. Nas páginas do jornal Estado de Minas, em 14 de janeiro de 1968, pelas palavras do jornalista Fernando Sasso, temos um panorama de como se dava essa rivalidade: 

 

“Prefiro chamar de festa, em vez de guerra, o clássico Atlético e Cruzeiro de logo mais. Não sei por que, mas acho que este é um dos mais tranquilos destes últimos anos. (…) não se respira aquele clima de nervosismo que marca geralmente os dias que antecedem o Cruzeiro e Atlético.” (apud: SASSO, Fernando 14 de Janeiro de 1968, Jornal Estado de Minas; DA SILVA, S. R. DA S. J. A. DE O. T. F. O futebol nas Gerais).

 

As palavras de Fernando Sasso vão de encontro a um importante aspecto das torcidas no Brasil: a rivalidade, por mais que não se admita, molda as formas de torcer.

 

A história das rivalidades no futebol se dá pelo sentimento de pertencimento à uma certa agremiação. Só existe um ‘outro’ se existe o ‘meu’ time. Essas questões de identificação e pertencimento com os times, ao ganhar força no esporte, transformaram as formas de torcer dos adeptos dos times. Aos poucos, os estádios tornaram-se lugares acessíveis e o futebol tornou-se um esporte do povo. Porém, na visão de alguns intelectuais da época, essas rivalidades eram vistas como violentas e descabidas. O educador brasileiro Coryntho da Fonseca, nos anos de 1920, no Rio de Janeiro, expôs sua contrariedade quanto aos acontecimentos inseparáveis de uma partida de futebol. Não parecia crível para ele, precisar de aparatos policiais repressivos para “[…] desatar sururus ou para garantir os ‘referees’”. Da assistência silvícola notada por Fonseca já não se podia “[…] apurar selecções esmiuçadoras e nem dos próprios desportistas que tinham a obrigação funccional do bom exemplo de correcção de maneiras”. (ALVES, R. O. T. A LUCTA DOS TITANS: A invenção da rivalidade entre Clube Atlético Mineiro e a Sociedade Sportiva Palestra Itália: 1921 – 1942).

 

O futebol foi rapidamente apropriado pelas camadas populares da sociedade, em função de ser um dos poucos esportes que se desvincularam da ideia de ‘civilizado’ das elites brasileiras. Atualmente, esse tipo de resistência ao aspecto popular do futebol é traduzida para resistência às Torcidas Organizadas (TOs), geralmente consideradas violentas e irracionais.

 

Os aspectos sociais do torcer

O futebol é entendido por DaMatta (1994) como “um instrumento privilegiado de dramatizações de muitos aspectos da sociedade brasileira”. Para Damo (1998) “o futebol é um dos símbolos da identidade brasileira”. O futebol é visto como uma “Paixão Nacional” por muitos, que se orgulham não só dos triunfos da Seleção Brasileira de Futebol, mas também dos seus times regionais e suas glórias. O futebol, no Brasil, é ainda hoje uma das formas mais acessíveis de lazer e cultura, muito em função de sua popularidade nas diversas camadas sociais. O esporte era televisionado em praça pública e narrado nas rádios para aqueles que não podiam ir ao estádio. O torcedor, quando ligado à paixão de seu clube e de seus heróis e triunfos, carrega consigo também a cultura que, de forma histórica e social, se formou ao redor do seu time.

 

Algo que ilustra essa cultura em torno dos clubes e seus amantes são as Torcidas Organizadas (TOs) que, apesar de serem marginalizadas pela sociedade, muito em função da classe social da maioria dos seus integrantes, como é evidenciado no livro “O Futebol nas Gerais” (2012) – publicado pela Editora UFMG e de autoria de pesquisadores do Grupo de Estudos em Futebol e Torcida (Gefut-UFMG) –, ainda persistem como elemento importante nas formas de torcer no Brasil, criando e moldando a cultura da região em que se encontram.  

 

Além disso, as TOs são, em muitas ocasiões, agentes sociais importantes em comunidades periféricas das cidades, uma vez que estão sempre engajadas em ações sociais que trazem não só lazer, mas também, em alguns casos, protestos políticos. Um exemplo disso é a ocasião em que a Galoucura (torcida organizada do Clube Atlético Mineiro) desobstruiu as vias de acesso de Minas Gerais a São Paulo, em 2022, quando manifestantes obstruíram as estradas do Brasil, em atos antidemocráticos, por não aceitarem os resultados da eleição naquele ano. O ato inspirou outras TOs de vários outros estados a fazerem o mesmo, o que acabou por iniciar uma onda em defesa da democracia, contra os bloqueios que, se durassem muito mais tempo, poderiam ter consequências graves para a vida dos brasileiros.

 

Os palcos

A construção dos estádios em Belo Horizonte representou um projeto de desenvolvimento ligado à uma visão de modernidade que tem sido parte integrante da construção da cidade desde sua fundação. Posteriormente, a partir de 1960, quando os estádios já eram considerados marcos arquitetônicos e sociais no Brasil, suas inaugurações foram uma tentativa de promover o nome de Belo Horizonte e de Minas Gerais em todo o país, competindo pelo reconhecimento arquitetônico com outras grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro.

 

Novo Mineirão. (Créditos: BCMF Arquitetos / Leonardo Finotti).

 

A primeira construção de Belo Horizonte com a configuração de estádio foi o Prado Mineiro, em 1914, no bairro Prado. Projetado para abrigar as corridas de cavalo da época, o espaço passou também a abrigar a prática do futebol. Em 1950, para a Copa do Mundo da Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA), que aconteceria no Brasil, construiu-se o Estádio Independência, o “Gigante do Horto”, que até então pertencia ao clube Sete de Setembro. Belo Horizonte foi escolhida como cidade-sede apenas um ano antes da realização do evento, fato que acelerou o processo de construção do estádio. Já em 1969 foi inaugurado o “Gigante da Pampulha”, o Mineirão, com o intuito de suportar grandes públicos – mais de 100 mil torcedores no seu primeiro projeto -, pois, com a popularização do esporte, os estádios até então existentes já não comportavam o grande número de torcedores dos times da capital. O Mineirão foi palco não só do futebol, mas também de vários eventos sociais que envolviam a sociedade belo-horizontina, tais como a realização de vestibulares e shows. 

 

Em 2014, por ocasião da Copa do Mundo FIFA realizada no Brasil, em que Belo Horizonte mais uma vez foi cidade-sede de jogos, os estádios Mineirão e Independência (já sob administração do América, juntamente com o governo do Estado) passaram por uma reforma, que visava atender aos requisitos da federação para a realização da competição. O Mineirão recebeu cadeiras e diminuiu o seu público máximo, atualmente recebendo cerca de 60 mil pessoas, o que contribuiu para uma nova elitização do futebol no estádio, por razão dos altos preços dos ingressos, com o discurso de garantir um maior conforto e acessibilidade para o público.

 

A atualidade

Contemporaneamente o futebol conecta-se diretamente a pautas sociais. Seja nas formas de torcer, que foram moldadas pelo tempo, ou pela forma de se praticar e assistir. No contexto mineiro, a torcida utiliza o espaço e a visibilidade que o futebol proporciona para trazer à tona pautas sociais como a luta contra o racismo. Em 2023, a torcida do Galo criou um mosaico com os dizeres “No racism” (do inglês “Não ao racismo”), em resposta aos ataques racistas sofridos pelo atacante Vini Jr., do Real Madrid da Espanha.

 

Mosaico com os dizeres “No racism”. (Créditos: GE – Globo Esporte).

 

Na mesma partida, o time do Atlético entrou em campo também com um patch antirracista: um bordado especial na camisa dos jogadores que dizia “O Galo é preto e branco”.

 

 

O Cruzeiro, em junho de 2022, como forma de apoio ao mês do orgulho LGBTQIAP+, utilizou em suas partidas oficiais bandeirinhas de escanteio com as cores do movimento, além de utilizar também a braçadeira de capitão com as mesmas cores.

 

 

MetropoliTRAMAS: a história da cidade e seus laços

O texto que você leu foi motivado pela exposição de curta duração “MetropoliTRAMAS“, do Espaço do Conhecimento UFMG, que levanta discussões à respeito da formação da RMBH, sua cultura, gastronomia, sociedade e meio ambiente. O futebol faz parte do cotidiano e da construção da cidade, seja nos campos oficiais ou nas partidas de futebol amador, que acontecem em diversos municípios da RMBH. Inspirado pela pesquisa para a elaboração desse texto, o Espaço do Conhecimento UFMG promove no dia 19 de maio de 2024 a visita mediada “Tramas do Futebol: do Parque Municipal ao Mineirão”. Visite o Espaço!

 

[Texto de autoria de Aleilton Lima Monteiro, estagiário do Núcleo de Ações Educativas e Acessibilidade]

 

Referências

ALVES, R. O. T. A LUCTA DOS TITANS A invenção da rivalidade entre Clube Atlético Mineiro e a Sociedade Sportiva Palestra Itália: 1921 – 1942. [s.l.] Universidade Federal de Minas Gerais, 2013.

Atlético-MG x Palmeiras: torcida faz mosaico contra o racismo em apoio a Vini Jr; veja vídeo

Cruzeiro Esporte Clube

Decreto – D10358

DA SILVA, S. R.; DE O, J. A.; FELIPE, T. O futebol nas Gerais. Av. Antônio Carlos, 6.627 CAD 2 Bloco 3 Campus 901 – Pampulha, Belo Horizonte – MG: Editora UFMG, 2012.

DE AQUINO, J. N. Q. O TORCER NO FUTEBOL COMO POSSIBILIDADE DE LAZER E VÍNCULO IDENTITÁRIO PARA TORCEDORES DE AMÉRICA-MG, ATLÉTICO-MG E CRUZEIRO. [s.l.] Universidade Federal de Minas Gerais, 2017.

De Palestra a Arrancada Heroica: A lei de Vargas que fez o Palmeiras mudar de nome.

DE SOUZA NETO, G. J. DO PRADO AO MINEIRÃO: a história dos estádios na capital inventada. [s.l.] Universidade Federal de Minas Gerais, 2017.

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