Tecnologia Ancestral Africana: Símbolos Adinkra – Espaço do Conhecimento UFMG
 
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Tecnologia Ancestral Africana: Símbolos Adinkra

16 de agosto de 2022

 

Sabe aquela sensação de quando a gente descobre informações sobre algum objeto que sempre usamos, uma imagem que sempre vemos no dia a dia, e tudo parece fazer mais sentido? Se você não conhece o que são os Adinkras, é possível que você tenha essa sensação ao longo deste texto!

 

Os Adinkras são um conjunto de símbolos pertencente ao povo Ashanti, atualmente localizados principalmente nos países Gana, Burkina Faso e Togo, na África Ocidental, mas também estão presentes em outros lugares do globo, principalmente em consequência dos processos das diásporas africanas. O nome desse povo também recebe outras grafias, sendo as mais comuns Asante e Ashanti, mas também encontramos variações como Axante, Achanti, Axânti, entre outros. Além disso, os Ashanti fazem parte de um conjunto de povos denominados de Akan! Os Ashanti se destacaram, dentre outros motivos, por conta do intenso comércio de ouro extraído das minas de sua região de origem. 

 

Mapa político do continente Africano  (Fonte: https://www.guiageo.com/africa-politico.htm)

 

Os Adinkras são, também, um conhecimento e uma tecnologia ancestral africana, que trabalha no campo da linguagem. Nesse sentido, são ideogramas que expressam valores tradicionais, ideias filosóficas, códigos de conduta e normas sociais. Podem ser divididos em algumas categorias, como animais, seres humanos, objetos artesanais, corpos celestiais, plantas e ideias abstratas. A palavra Adinkra tem um significado de despedida na língua Twi do povo Ashanti. O sufixo “Kra” é traduzido como  alma, então Adinkra é como um adeus à alma. Assim, esses símbolos estão relacionados a funerais, nessa cerimônia as roupas utilizadas pelos participantes eram estampadas com os símbolos como uma mensagem à pessoa falecida. 

 

Ao longo do tempo, o conjunto de símbolos sofreu alterações em relação aos seus usos, além do surgimento de novas figuras e se espalhou pelo mundo. Nesse sentido,  passou a ser utilizado também em contextos menos formais, como roupas de uso cotidiano, jóias, paredes, objetos, e chegaram ao Brasil também aparecendo nesses contextos. O que encontramos com mais facilidade é o Adinkra de nome Sankofa, geralmente em portões, grades, estampas e tatuagens. Este Adinkra simboliza um pássaro que olha para trás, e significa algo parecido com “volte e pegue” ou “voltar para buscá-la”, nos ensinando o valor de aprender com o passado para a construção do presente e do futuro. Na ilustração abaixo podemos ver três variações do Sankofa, sendo que a segunda e a terceira são estilizações duplicadas do primeiro.

 

Sankofa (Fonte: IPEAFRO)

 

Sankofa em portões (Fonte: Segredos do Mundo)

 

Dentro de uma das histórias dos povos Akan contadas na oficina Histórias da  África de A a Z no Espaço do Conhecimento UFMG, o personagem mais icônico é Ananse, uma aranha que se tornou a dona de todas as histórias existentes após cumprir uma missão dificílima dada por Nyame, a divindade Akan responsável pela criação. Em função dos seus feitos, Ananse, possui seu próprio Adinkra, o Ananse Ntontan. O símbolo é a estilização de uma teia de aranha e carrega os significados de sabedoria, de criatividade e das complexidades da vida.

 

Ananse Ntontan (Fonte: IPEAFRO)

 

Outro Adinkra bem difundido é o Aya, que está na categoria das plantas e é uma estilização da samambaia. Esta planta possui o caráter de crescer em lugares difíceis, e portanto este Adinkra é símbolo de independência, resistência, perseverança e desenvoltura, sugerindo essa superação de dificuldades. 

 

Aya (Fonte: IPEAFRO)

 

Existe também o Mpatapo é o nó da pacificação, sendo símbolo da reconciliação. Já o Duafe é um pente de madeira que traz o significado da limpeza, beleza e também de características associadas ao feminino, como amor e cuidado. Até mesmo o símbolo clássico do coração é também um Adinkra, o Akoma, sendo símbolo do amor, paciência, fidelidade, carinho, resistência, boa vontade e consistência.

 

 

Mpatapo (Fonte: IPEAFRO)

 

Duafe e Akoma (Fonte: Autor)

 

Uma questão interessante sobre entender os Adinkras é o reconhecimento da diversidade das escritas africanas. Apesar de termos no imaginário a oralidade como um regente de transmissão de conhecimentos em África, e muitas vezes perigosamente a ideia de que este continente não gerou formas de registro material, a escrita também é tão presente quanto, somente não foi reconhecida séculos atrás de imediato por colonizadores e em consequência, pouco discutidas, estudadas e valorizadas ao longo do tempo, criando um pensamento coletivo distorcido desse continente. Outro lembrete desses registros é a escrita egípcia Medu Neter, uma das mais antigas registradas na história da humanidade que conhecemos pelo nome de hieróglifos.

 

É também interessante (e também complexo) considerar a longevidade desses símbolos, pensando o quanto uma escrita tão rica se tornou tão popular, mas ao mesmo tempo com um grande apagamento de seus significados. Além disso, refletir sobre quem fez todos esses trabalhos com os Adinkras em portões e grades ao longo da história, de forma tão habilidosa, principalmente com o uso do Sankofa, pode ser também um bom exercício. Mas esse já é assunto para outro texto!

 

E aí? Você já conhecia esses símbolos? Conseguiu identificar algo na sua casa ou na vizinhança? Manda pra gente um relato ou registro nas nossas redes sociais! Para conhecer alguns outros símbolos Adinkra e seus significados, indicamos o acervo digital dos Adinkra do IPEAFRO (Instituto de Pesquisas e Estudos Afro Brasileiros), disponível aqui, e também uma lista de símbolos no site da marca Adinkrabrand, disponível (em inglês) aqui. Além disso,  no Espaço do Conhecimento UFMG,  acontece uma atividade intitulada Histórias da África de A a Z, em que são apresentadas histórias dos povos Akan, Egípcios, Yorubá e Zulu. Essa contação de histórias busca contribuir para a reflexão das diferenças culturais dentro do continente, desmistificando a ideia de uma África única e homogênea. Foi durante o processo de pesquisa para a realização dessa atividade que se aproximou a equipe educativa do museu com a temática dos Adinkras. Fique atento à programação do Espaço para participar das nossas atividades! 

 

[Texto de autoria Abraão Veloso, aluno das Artes Visuais, estagiário do núcleo de ações educativas, acessibilidade e estudos de público do Espaço do Conhecimento UFMG]

 

Referências bibliográficas e para saber mais 

 

CARMO, Eliane Fátima Boa Morte do. História da África nos anos iniciais do ensino fundamental: os Adinkra. Salvador: Artegraf, 2016. Disponível em: <https://www.ufrb.edu.br/mphistoria/images/Disserta%C3%A7%C3%B5es/Turma_2014/Eliane_Fatima_Boa_Morte_Do_Carmo.pdf>. Acesso em 28 de junho de 2022.

IPEAFRO. Adinkra. Disponível em: <https://ipeafro.org.br/acoes/pesquisa/adinkra/>. Acesso em 1 de julho de 2022.

Mwana Afrika. Símbolos Adinkra | Mwana Afrika Oficina Cultural. Youtube, 20 de janeiro de 2022. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=4wQ1vuvjiac&list=WL&index=6>. Acesso em 29 de junho de 2022.

Mapa de África: https://www.guiageo.com/africa-politico.htm

NASCIMENTO, Elisa Lakin e GÁ, Luiz Carlos. Adinkra. Sabedoria em símbolos Africanos. Rio de Janeiro: Pallas, 2009.

NJERI, Aza. O que é Sankofa? | Série Adinkras EP.01. Youtube, 28 de janeiro de 2022. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=3wOAVLlKhZU&list=WL&index=5>. Acesso em 28 de junho de 2022.

PEREIRA, Renata Gonçalves. Sankofa, o que é? Origem e o que representa para a história. Disponível em: <https://segredosdomundo.r7.com/sankofa-significado-simbolo/>. Acesso em 1 de julho de 2022.

Thiossane Afrika. Simbologia Adinkra: Legado do Povo Akan [Thiossane Afrika]. Youtube, 13 de junho de 2020. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=GunB3gWC7gM&list=WL&index=4>. Acesso em 29 de junho de 2022.

TV 247. Pensar Africanamente – Adinkra: símbolos africanos no design brasileiro. Youtube, 12 de setembro de 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=NkXonb27EIc&t=10s>. Acesso em 29 de junho de 2022.