Aluísio Pimenta: reitor em defesa da autonomia, da pesquisa e da assistência
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Foto: Acervo da Fundação de Apoio e Desenvolvimento da Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais (Fadecit)

por Itamar Rigueira Jr.

 

Em 1964, recém-empossado reitor da UFMG e também pouco depois do golpe civil-militar que derrubou o presidente João Goulart, o professor Aluísio Pimenta costumava receber, do Dops, órgão-símbolo do aparato repressivo do novo regime, fichas sobre membros da comunidade que eram acusados de comunistas. Outros dirigentes teriam ao menos arquivado esse material, mas ele destruiu todas as fichas.

“Eu rasgava as fichas do Dops e jogava fora. Eles mandavam em seguida outro lote. Devo ter recebido umas 10 ou 15 vezes essas fichas, de centenas de professores, alunos, presidentes de diretórios e funcionários. Tive que rasgar. Elas poderiam prejudicar muita gente, se caíssem em mãos de caçadores de bruxas. Eu esperava ser tirado da Universidade a qualquer momento”, contou Aluísio Pimenta à professora Maria Efigênia Lage de Resende, do Departamento de História, em depoimento que integra o livro Universidade Federal de Minas Gerais – Memória de reitores (1961-1990), da Editora UFMG.

O episódio representa com fidelidade parte significativa das memórias que envolvem a passagem de Aluísio Pimenta pelo posto mais alto da Universidade. Mas, se ele se viu obrigado a ocupar tempo precioso de sua gestão com a resistência às investidas do governo militar, não por isso deixou de cuidar dos assuntos internos da UFMG: em seu mandato, entre outras realizações, foram construídos os institutos centrais (ICB, ICEx, IGC), inaugurou-se o Colégio Universitário, a pesquisa foi estimulada, e saiu fortalecida a assistência à saúde dos servidores e à permanência de estudantes menos favorecidos economicamente.

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Aluísio Pimenta morreu em maio de 2016, aos 92 anos, com currículo que inclui ainda os cargos de reitor da Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg) [1991-1998], presidente da Fundação João Pinheiro (1983-1985) e ministro da Cultura (1985-1986). Seu vínculo com a UFMG começou no início da década de 40. Ele se graduou em Farmácia pela Faculdade de Odontologia e Farmácia, tornou-se livre docente e depois professor catedrático, e fez o doutorado na Universidade. Cursou pós-doutorado no Instituto Superior di Sanitá, em Roma. Em 1964, aos 39 anos, tornou-se o reitor mais jovem da UFMG

Em 1967, lecionou no Instituto de Educação da Universidade de Londres, onde também se especializou em Administração do Ensino Superior. Estava ainda fora do país quando foi cassado pelo Ato Institucional nº 5, em 1968. A partir de então, cumpriu funções múltiplas no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), atuando em diversos projetos, entre eles a fundação de mais de 30 universidades em diversos países. Na Ásia, ajudou a implantar projetos de educação, ciência e tecnologia. Anistiado, voltou ao Brasil para assumir a Fundação João Pinheiro, em 1983, e menos de uma década mais tarde, tornou-se o primeiro reitor da Uemg, instituição que ajudou a conceber. Nessa fase, criou a Fundação de Apoio e Desenvolvimento da Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais (Fadecit).

Logo após a morte de Pimenta, o reitor Jaime Ramírez destacou que ele liderou processo de reforma que lançou as bases para a modernização da UFMG. “Isso, por si só, já seria suficiente para escrever seu nome na galeria dos maiores dirigentes de nossa história. Mas ele foi além e comandou a instituição em um dos seus momentos mais difíceis, logo após a deflagração do golpe militar. Graças, em grande parte, à coragem e ao desassombro de Aluísio Pimenta, a UFMG manteve sua altivez e não se curvou ao autoritarismo”, disse Ramírez.

‘Instituição corajosa’

“O professor Aluísio Pimenta deu grandeza política à Educação, projetou a UFMG como instituição corajosa, de grande envergadura na construção de Minas Gerais e do Brasil”, escreveu, logo após a morte de Pimenta, o professor Apolo Heringer Lisboa, da Faculdade de Medicina. Ele se refere à postura que levou o ex-reitor a enfrentar o general Carlos Luis Guedes, da Infantaria Divisória nº 4, quando o militar determinou que se instituísse na UFMG uma comissão, presidida por um coronel, para investigar supostos subversivos. Aluísio Pimenta nomeou a comissão, sem um integrante sequer do Exército, e 30 dias depois apresentou ao general a conclusão da investigação: a Universidade não era um antro de comunistas. Guedes chamou o relatório de “farsa” e deu um murro na mesa. “Respondi com dois murros e disse a ele que não admitia uma ofensa daquelas à Universidade”, relembrou Pimenta há alguns anos.

Pouco tempo depois, em 9 de julho, de 1964, Pimenta seria destituído do cargo, como já se esperava. Mas bastaram alguns telegramas e telefonemas, e a rápida articulação, que envolveu o governador Magalhães Pinto e o ministro da Justiça, Milton Campos, funcionou em poucas horas. Três dias depois, Aluísio Pimenta estava de volta à sua cadeira na Reitoria.

Em seu depoimento a Maria Efigênia Lage de Resende, ele recorda outros episódios daqueles primeiros anos pós-golpe, como as negociações com estudantes e militares para a desocupação da Faculdade de Direito pelos alunos, a vistoria da sede do DCE, que os militares suspeitavam estar escondendo armas, e a intervenção na Faculdade de Filosofia, que durou cinco dias, em junho de 64. A UFMG, na visão de Pimenta, saiu “muito enriquecida” daquele período. “A autonomia e a dignidade da instituição se impuseram como fato aglutinador, e eu buscava mantê-las a todo custo, estabelecendo um diálogo interno”, afirmou o ex-reitor, que foi tirado definitivamente do cargo em 1967.

Universidade harmônica

No depoimento ao livro Memória de reitores, Aluísio Pimenta comenta que trabalhou para transformar a UFMG, de uma “federação de escolas” em uma universidade harmônica, “com um pensamento”. Conta que começou a defender a dedicação integral de professores – diz, a propósito, que foi o primeiro reitor em tempo integral – e passou a centralizar a administração do campus. Criou o primeiro conselho de pesquisa da instituição e participou da instauração do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras.

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“Ele sempre defendeu que a Universidade era feita de ensino, pesquisa e extensão, que não podiam estar separadas. E que a pesquisa deveria ser aplicável à realidade”, diz a professora Wanda de Carvalho Lacerda, companheira de Aluísio Pimenta a partir de 2002, depois que ele se tornou viúvo da também professora – e sua colega na Faculdade de Farmácia – Ligia de Oliveira Pimenta, com quem teve quatro filhos e oito netos.

Wanda Lacerda lembra que Pimenta – “uma pessoa singular, um gentleman” –gostava de ser tratado por professor, quando não faltava quem preferisse reitor ou ministro. Sobre a temporada do professor na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, ela destaca a ênfase na valorização da cultura brasileira. “Nos eventos que promovia, Aluísio fazia questão que o brinde fosse feito com cachaça, no lugar do champanhe. Ele pregou o investimento no patrimônio imaterial, como forma de aliar o desenvolvimento cultural ao econômico”, diz Wanda Lacerda.

Amiga de Aluísio Pimenta durante décadas, a professora Angela Vaz Leão, emérita da Faculdade de Letras, registrou na memória a forma inovadora de conduzir a UFMG. “Ele tinha uma visão diferente do ensino superior, e parte da reforma universitária da década de 60 foi inspirada nas ideias do Aluísio”, ela diz.

Então vizinha de Pimenta no bairro da Serra, Angela Leão foi para a casa do ex-reitor quando foi informada da cassação de seus direitos políticos pelo Ato Institucional nº 5, em 1968. “Fomos imediatamente, eu, meu marido e o professor Eduardo Cisalpino, prestar solidariedade à família, já que Aluísio estava no exterior”, ela relembra.

Aluísio Pimenta certamente não contou com aprovação unânime – foi acusado de comunista pela ala conservadora e de centralizador, por dirigentes de unidades que precisaram se acostumar a submeter orçamentos e diretrizes à reitoria. E defendeu uma tese que hoje muitos veriam como heresia. Quando criou o Departamento de Esportes e determinou a construção de campos de futebol e quadras de vôlei no campus Pampulha, Pimenta prestava solidariedade a estudantes que reclamavam de não ter um espaço para uma pelada, enquanto a Universidade cedia terreno seu para a construção do Mineirão. “Ali nunca foi lugar de estádio, acho que foi um erro que a Universidade cometeu, ter firmado esse convênio”, disse Aluisio Pimenta no depoimento ao livro Memória de reitores. Definitivamente, lembranças fortes são construídas também sobre opiniões e medidas polêmicas.

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