Encontro de estudantes abortado pelo regime militar em 1977 será relembrado por seus protagonistas em evento na Faculdade da Medicina

 

POR ANA RITA ARAÚJO*

 

A resistência do movimento estudantil à ditadura militar será lembrada em celebração neste sábado, 10, a partir das 18h, no Diretório Acadêmico (DA) Alfredo Balena, da Faculdade de Medicina. O DA, que foi palco de ato de repressão política quando sediaria o 3º Encontro Nacional de Estudantes, em junho de 1977, vai receber nesta semana protagonistas do episódio que há exatos 40 anos culminou com a prisão de centenas de universitários.

Organizado com o intuito de refundar a União Nacional dos Estudantes (UNE), desarticulada pelo governo militar, o encontro não chegou a ocorrer, pois o campus Saúde foi cercado com telas de arame, policiais e viaturas, na noite daquele 3 de junho. No entardecer do dia seguinte, quase 400 jovens foram retirados do Diretório “abraçados, em pequenos grupos, e espremidos no meio de um corredor fardado”, segundo relato de integrantes do grupo que organizou a celebração.

Levados para o Parque de Exposições da Gameleira, os estudantes passaram por triagem e interrogatórios. Mais de meia centena acabou enquadrada na Lei de Segurança Nacional. “À época, o governo falava em distensão, e o movimento estudantil avaliara que era hora de refundar a UNE”, comenta Samira Zaidan, hoje professora da Faculdade de Educação (FaE). Para ela, que, ao lado do então reitor Eduardo Cisalpino, participou da comissão que conduziu as negociações com os militares, a decisão de realizar o 3º Encontro e a resistência dos alunos foram “um marco histórico, que mostrou um movimento muito pujante”.

Para a professora Sandhi Barreto, da Faculdade de Medicina, que compunha a diretoria do DA Alfredo Balena na gestão 1977-78, o evento demonstrou “grande audácia política” por parte dos estudantes. “Avalio que fizemos certo, foi uma audácia necessária, que pôs em evidência a truculência do governo militar e se transformou numa denúncia importante para a crescente perda de legitimidade da ditadura”, completa. A UNE voltou à cena em 1979, em congresso realizado em Salvador.

Sandhi Barreto participou de outra comissão, “que se revelou muito útil e era chamada ‘de fora, de fora’, pois não se expunha”, mas visitou familiares e amigos dos estudantes presos, convidando-os a montar grupos de vigília pela segurança dos jovens levados à Gameleira.

Bastidores

Uma semana antes do dia 4 de junho, o governo anunciou que não aceitaria a realização o 3º Encontro Nacional. Segundo Samira Zaidan, eram esperados cerca de 250 delegados de todo o país, mas muitos ônibus foram interceptados nas estradas ou nas cidades de origem. Mesmo assim, mais de 400 estudantes compareceram à assembleia convocada para o dia 3, no próprio DA da Medicina. A maioria decidiu pela realização do encontro e, estrategicamente, definiu a formação das duas comissões das quais participaram Samira Zaidan e Sandhi Barreto e cujos integrantes não podiam permanecer no campus Saúde.

Depois que a polícia fechou o campus, na noite do dia 3, havia mais de mil pessoas do lado de fora. “Vimos quando, na madrugada, várias viaturas saíram da Praça Floriano Peixoto, no bairro Santa Efigênia, e cercaram o local”, relembra a professora da FaE. Segundo ela, houve a tentativa, frustrada pelos policiais, de realização de assembleia na rua. A saída dos estudantes fora negociada pelo reitor Eduardo Cisalpino, mas eles resistiram, até que a polícia, desrespeitando o preceito da autonomia universitária, invadiu o campus e os retirou. Como fruto da negociação conduzida por Cisalpino, os estudantes puderam receber, já no Parque da Gameleira, sanduíches, cobertores, água e leite. “Muitos professores, como Magda Soares e Beatriz Alvarenga, foram para a Reitoria preparar sanduíches”, relata Samira Zaidan.

40 anos depois

O histórico 3º Encontro Nacional de Estudantes será tema de mesa de debates, com a participação de alguns dos seus protagonistas, no 55º Congresso da UNE, programado para o período de 14 a 18 de junho, em Belo Horizonte. Parte das atividades ocorrerá no campus Pampulha.

São esperados dez mil participantes de todo o país, entre delegados estudantis, lideranças de forças políticas, movimentos sociais, ativistas, representantes da academia, da cultura e dos direitos humanos. Mais informações sobre o evento podem ser obtidas no endereço.

“Já pensávamos que esse Congresso seria especial por ser realizado em um momento de alta tensão política. Depois do que veio à tona com as acusações contra o presidente Temer, não há dúvida de que precisamos mais uma vez fazer do encontro máximo da UNE um momento de redefinição das lutas populares no país. Desta vez, nossa grande bandeira será a das Diretas Já. Queremos que Belo Horizonte seja palco de um novo capítulo da história nacional”, afirma a presidente da UNE, Carina Vitral.

Homenagens

Duas homenagens públicas foram programadas em Belo Horizonte para marcar os 40 anos do 3º Encontro Nacional de Estudantes. Na última quinta-feira, 1º, no Plenário Juscelino Kubitschek, da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, foi realizada reunião especial. Nesta terça-feira, 6, 56 indiciados na Lei de Segurança Nacional vão receber, em audiência pública da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de Belo Horizonte, diplomação de homenagem por sua participação no ato de 1977.

 

*Reportagem originalmente publicada na edição nº 1980 – ano 43 do Boletim UFMG, publicado em 5/6/2017

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