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entrevista - Página 13

Carreira literária

No início, o meu lado cientista atrapalhou um pouco o ofício de escritor, talvez por excesso de autocrítica. Não imaginava que podia dar certo como escritor. Um dia, fui para a praia e comecei a escrever. Foi difícil, achava tudo uma porcaria. Aí eu imaginei uma criança, contei a história para um gravador, passei para um computador, corrigi e virou o meu livro mais famoso (O menino e o rio). Este aqui (apontando para O velho e a montanha) ganhou o Prêmio Jabuti e foi aí que eu acreditei que era escritor. É o livro do qual mais gosto. Fiquei numa tribo indígena durante um mês e dediquei o livro aos meninos que andavam comigo na mata. Percebi que, no Dia das Crianças, as pessoas homenageavam a criança da favela, o menino de rua, mas esqueciam da indígena. Quando fui receber o Jabuti, aproveitei para fazer um protesto contra o assassinato de crianças yanomamis, ocorrido uma semana antes. O Darcy Ribeiro, que estava presente, disse que meu discurso fora a única coisa que prestou na cerimônia.

O menino e o rio foi recusado pela Editora Ática, sob a alegação de que ciência e literatura não combinavam. Só mais tarde foi encampado pela Editora Lê. Por definição, cientista é chato, fala difícil e complicado. Levou muito tempo para que essa visão fosse superada. Hoje, sou conhecido como escritor; falam até na literatura ecológica do Ângelo Machado.



 


Revista Diversa nº 14
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