Alemão Michael Heinrich, especialista na obra de Marx, faz conferência nesta sexta sobre atualidade de ‘O capital’
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Heinrich: edição dos originais de Marx e de sua correspondência. Foto: Divulgação

O matemático e cientista político alemão Michael Heinrich, da Universidade de Ciências Aplicadas de Berlim, um dos maiores conhecedores da obra de Karl Marx, fará conferência nesta sexta, 26, a partir das 11h, no auditório 1 da Face, campus Pampulha. Heinrich, que defende a atualidade de O capital – o lançamento do primeiro volume completa 150 anos em 2017 –, integra o Projeto Mega, que tem o objetivo de pesquisar e publicar a totalidade dos manuscritos e das obras do pensador alemão. A conferência integra a programação que comemora os 90 anos da UFMG.

Poucos artigos de Michael Heinrich foram publicados no Brasil, e seus livros continuam inéditos no país. Ele defende que O capital ainda é a análise mais fundamental do modo de produção capitalista e que é preciso cotejar os manuscritos de Marx com as edições que foram feitas para compor suas obras. Heinrich também trabalha em uma biografia de Marx.

A conferência terá tradução simultânea.

Leia mais em reportagem publicada nesta semana pelo Boletim UFMG.

Esta é a versão integral da entrevista concedida por Heinrich, por e-mail, à Agência de Notícias:

“Marx tratou o capitalismo como uma nova forma de sociedade”

Por que é ainda necessário ler O capital?

O capital de Marx ainda é a análise mais fundamental do modo de produção capitalista. Como o próprio Marx afirma no prefácio, não se trata de uma análise do capitalismo inglês do seu tempo. Ele tomou os exemplos daquele contexto porque era o capitalismo mais avançado à época. Entretanto, o que Marx queria revelar era “a lei econômica de movimento” da sociedade moderna. Ele não analisou o capitalismo em um sentido estreito, como é usual atualmente entre economistas. Ele tratou o capitalismo como uma nova forma de sociedade, nascida no século 19. Marx viu claramente que estava acontecendo uma mudança importante e tentou compreender essa mudança. Nossas sociedades atuais são resultado dessa mudança fundamental – por isso penso que o que Marx escreveu n’O capital sobre a estrutura do capitalismo tem ainda enorme importância.

E quais são as teorias históricas e filosóficas mais amplas de Marx?

Temos que ser cautelosos sobre essa questão. O que são estas teorias mais amplas? Elas provêm realmente de Marx ou de tradições marxistas, que não são necessariamente idênticas à teoria de Marx. Por exemplo, não se encontra um texto de Marx em que ele tenha usado o termo “materialismo dialético”. Ele usou os termos “dialética” e “materialismo”, mas você não vai encontrar algum tipo de teoria filosófica geral; ao contrário, depois de 1845, Marx falou de modo crítico sobre a filosofia. Acho que devemos ler os textos de Marx, como Manuscritos econômicos-filosóficos e Ideologia alemã, com muito cuidado. Devemos considerar as condições precisas que cercaram seu surgimento e o fato de que, em geral, as edições desses textos não apresentam os manuscritos originais de Marx, mas são versões editadas, que estariam próximas daquilo que os editores pressupõem que seria o texto acabado. Daí por que o novo projeto Mega, que apresenta não apenas todos os manuscritos de Marx, mas também os publica em sua forma original, é tão importante.

Quais são as maiores descobertas que o Projeto Mega já tornou possíveis?

Diversos manuscritos estão sendo publicados pela primeira vez, e alguns deles, como os Manuscritos econômico-filosóficos, foram publicados em sua versão original, que não tem qualquer capítulo sobre a crítica à dialética hegeliana. Este capítulo foi construído pelos primeiros editores, que reuniram passagens de diferentes partes do manuscrito. Eles construíram um capítulo que Marx nunca escreveu. Quanto a O capital, a Mega publicou os manuscritos originais relativos ao segundo e ao terceiro volumes da obra. Engels editou intensamente esses manuscritos: ele reordenou o material, inseriu muitos títulos e subtítulos e reformulou a maioria das frases. Falo de mudanças que Engels não indicou explicitamente – por isso, não fica claro para os leitores que o texto foi tão editado. Engels teve as melhores intenções ao tentar tornar mais claro e compreensível o texto inacabado de Marx. Mas, algumas vezes, suas alterações levaram a equívocos. Agora, com a Mega, qualquer pessoa poderá comparar os manuscritos de Marx com a versão de Engels. Além disso, a Mega tem outros méritos. Pela primeira vez, todos os excertos e notas produzidos por Marx e Engels serão publicados. Isso significa que será possível observá-los em seu laboratório intelectual. Também pela primeira vez, serão publicadas não apenas as cartas que eles escreveram, mas também todas as que receberam de terceiros. Então, será possível compreender muito melhor as controvérsias e discussões em que eles se envolveram.

Qual a principal motivação para produzir uma biografia intelectual de Marx? E já descobriu algo especialmente interessante?

Não será apenas uma biografia “intelectual”. Ela vai tratar de todos os aspectos da vida de Karl Marx (até onde sabemos sobre eles) e do desenvolvimento de seu trabalho. No caso de Marx, em especial, não faz sentido separar vida e produção intelectual: algumas ações em sua vida, como o rompimento com antigos amigos, foram influenciadas por novos insights de seu trabalho. Por outro lado, ele foi frequentemente influenciado pelas mudanças em suas condições de vida, conflitos políticos levaram a novas questões, que mudaram o curso de seu pensamento e de sua pesquisa. A maioria das biografias existentes trata muito superficialmente das obras de Marx. Também não levam em conta todas as fontes disponíveis sobre sua vida, ao passo que algumas incluem um monte de estórias fantasiosas. Penso que é necessária uma biografia realmente científica, que lide com as fontes de forma crítica. Há muitas biografias que tratam daquilo de que os biógrafos gostam e ignoram o que eles não gostam. Nesse novo trabalho, espero lançar alguma luz sobre uma série de pontos relacionados ao desenvolvimento de Marx. Por exemplo, nesse primeiro volume, que deverá sair no início de 2018, vou dar novas informações sobre o papel dos primeiros poemas de Marx (que são geralmente negligenciados) no seu desenvolvimento intelectual e sobre as razões que o levaram à filosofia hegeliana, em 1837. Sua relação com Bruno Bauer, seu melhor amigo de 1837 a 1841, também será investigada de modo muito mais minucioso do que foi feito até aqui.

O que espera desse contato mais próximo com pesquisadores brasileiros (especialmente na UFMG) e da publicação de seus livros no Brasil?

Meus estudos sobre Marx foram influenciados pela situação política e pela cultura acadêmica na Alemanha, de onde venho. Em certo sentido, minha visão sobre Marx pode ser “europeia”, e eu espero aprender com visões que emergiram em outros contextos. Mas, além desse aspecto mais geral, sei que pesquisadores da UFMG estão trabalhando nos manuscritos de Marx sobre crise, que ele produziu depois de escrever o manuscrito do terceiro volume de O capital. Concordamos que um estudo detalhado dos excertos e notas de Marx (o que eu chamo de “laboratório de Marx”) é muito útil para compreender melhor as partes inacabadas do seu projeto. Quero conhecer as discussões mais recentes feitas na UFMG sobre esses tópicos. Quanto ao meu projeto atual, a biografia de Marx, me interessa saber as expectativas dos leitores brasileiros.

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