Nelson Freire, novo Doutor Honoris Causa da UFMG, enaltece a arte como ‘modelo de convívio baseado no entendimento entre os humanos’
  • 16
  • 12
Nelson Freire recebeu o diploma das mãos do reitor Jaime Ramírez. Fotos: Marina Gontijo / UFMG

Hugo Rafael

 

Fotos: Marina Gontijo / UFMG

“Nestes tempos de graves inquietações que agitam a vida dos brasileiros, sinto a homenagem que me presta a Universidade Federal de Minas Gerais como uma chamada à lembrança de que a música é veículo de beleza, equilíbrio, harmonia e amor à verdade”. Com essas palavras, e visivelmente emocionado, o pianista Nelson José Pinto Freire abriu seu discurso como o 22º Doutor Honoris Causa da UFMG, durante cerimônia realizada na noite desta quinta-feira, 15, no auditório da Reitoria, campus Pampulha.

Após receber o título, outorgado durante sessão solene do Conselho Universitário, Nelson Freire fez questão de destacar a função exercida pela arte na história em períodos de turbulência. “Em horas de crise, as artes e a cultura assumem um papel de modelo de convívio baseado no entendimento e respeito entre os humanos”, afirmou.

Mineiro de Boa Esperança, no Sul do estado, Freire lembrou, em seu discurso, que logo cedo deixou sua cidade natal e, ao longo de sua carreira, percorreu todos os cantos do mundo, “sempre a serviço da música”. “Durante esses longos anos, nenhuma paisagem me impressionou mais do que aquela que conheci durante a minha infância. Permaneço mineiro de alma e sensibilidade. Por isso, a honraria que ora me conferem meus conterrâneos me comove de modo profundo”, concluiu.

Aproximação de saberes

Em seu discurso, o reitor Jaime Ramírez destacou que, em meio às comemorações de seus 90 anos, é a UFMG quem é presenteada e se enriquece ao receber, como um de seus doutores, Nelson Freire, “personalidade tão marcante para a música brasileira, reconhecido internacionalmente por sua carreira brilhante e virtuosismo musical”.

“Fique certo, caro Doutor Nelson Freire, a honra de a UFMG tê-lo como um de seus professores é muitas vezes maior que o sentimento de gratidão do mineiro Nelson Freire pelo título honorífico que hoje lhe é concedido”, afirmou Jaime Ramírez.

O reitor da UFMG destacou ainda o significado do título, cujo sentido é reconhecer que “o homenageado detém o conhecimento e as qualificações para usufruir do título de Doutor pela UFMG. “Este é um momento raro e precioso para nossa instituição, pois em toda sua existência conferiu-se este título apenas 22 vezes”, lembrou.

Segundo Jaime Ramírez, a concessão do título ao pianista Nelson Freire foi aprovada, por unanimidade, tanto pela Escola de Música quanto pelo Conselho Universitário. “A honraria traz consigo a deferência que a academia deve necessariamente prestar a um artista, nascido nestas terras mineiras, que, para nosso orgulho, afirma que ‘continua mineiro como se nunca tivesse saído daqui’, aclamado pela crítica como um dos maiores pianistas do século 20”, afirmou.

“Menino prodígio, virtuoso. Você elevou a música a um patamar que pouquíssimos alcançaram. Você consegue que qualquer plateia ou audiência o ouça. Antes do seu tempo, da sua geração e de qualquer outra. Você atravessou as fronteiras geográficas como poucos. Você associa talento e reconhecimento de maneira singular, única. Você toca com todos os sentidos, e nos faz mais humanos”, completou Jaime Ramírez.

Jaime Ramírez e, ao fundo, os componentes da mesa: Cecília Nazaré de Lima, Sandra Goulart Almeida, Nelson Freire, Mônica Pedrosa de Pádua e Ana Lúcia Almeida Gazolla

Jaime Ramírez e, ao fundo, os componentes da mesa: Cecília Nazaré de Lima, Sandra Goulart Almeida, Nelson Freire, Mônica Pedrosa de Pádua e Ana Lúcia Almeida Gazolla

A diretora da Escola de Música, professora Mônica Pedrosa de Pádua, entregou uma caneta em nome da Unidade. Em seu discurso, ela afirmou que a homenagem a Nelson Freire é uma honra e um privilégio para a UFMG, no período em que comemora seus 90 anos de existência.

“A outorga desse honroso título representa para a Universidade a valorização das artes como área de conhecimento e, mais que isso, como área produtora de um conhecimento singular, construído com seus meios, materiais e práticas particulares. Diz respeito, ainda, à valorização da complexidade do conhecimento musical, que o pianista Nelson Freire representa tão bem”, destacou a diretora.

Cantado em verso e prosa

Proponente da homenagem, a professora Maria Celina Paiva Szrvinsk, da Escola de Música, saudou Nelson Freire em nome dos membros do Conselho Universitário e da Escola de Música da UFMG. Ela disse que o ato de outorga do título a Nelson Freire tem um elevado significado, sendo a data de “suma importância para a música brasileira”. “Nelson Freire é cantado em verso e em prosa. É saudado no mundo inteiro pela sua arte. Nelson Freire é eterno”, afirmou.

Segundo Celina Szrvinsk, ver Nelson Freire tocar, pela primeira vez, aos 16 anos, em Goiânia, sua cidade natal, foi uma experiência transformadora. “Aquele momento, desde então, tem transformado a minha trajetória profissional. Naquele momento, decidi que Nelson Freire faria parte da minha vida tantas vezes quantas fossem possíveis”, declarou.

Em 2002, recém-chegada a Belo Horizonte, a professora contou que tentou contato com Nelson Freire, a fim de incluí-lo na programação de concertos do Conservatório UFMG daquele ano.

“O material já estava na gráfica para ser impresso, sem o nome do Nelson. Faltando uma semana para o concerto de abertura, ele me ligou: ‘Celina, aqui é o Nelson Freire. Vou poder ir na semana que vem!’. Eu corri na gráfica, mudei a programação e remarquei a data do outro pianista. Desde então, tive o privilégio de trazê-lo sete vezes a Belo Horizonte”, narrou.

Por fim, Celina Szrvinsk destacou a alegria de participar do momento em que Nelson Freire foi reconhecido como parte do corpo de doutores da UFMG, por meio da outorga do título de Doutor Honoris Causa, “concedido a poucos com atuação reconhecida em nossa época”. “Talvez este seja um dos marcos mais importantes da minha trajetória profissional. Este momento, eu guardo no coração”, concluiu, dirigindo-se ao homenageado.

Família Freire

Representando cinco gerações de familiares, o primo do pianista Maurício Freire Garcia, professor e diretor por duas vezes da Escola de Música (1994-1998, 2010-2014), também saudou Nelson Freire. “Já estivemos em situações semelhantes, mas esta assume um caráter especial, por ser a UFMG a alma mater de muitos de nossos familiares. Agora, ela passa a ser a sua casa também”, afirmou.

Segundo Maurício Freire Garcia, Nelson Freire “optou por abraçar o mundo, dedicando sua vida à humanidade”. “Sua dedicação à música, desde cedo, tem sido integral. Sua energia e seu trabalho têm sido empregados na música. Em uma busca intransigente por fazer o melhor. Seu comprometimento com a música não é temporário, em busca de algum prêmio ou reconhecimento”, defendeu.

Encerrando sua saudação, o professor Maurício Freire Garcia citou o dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht: “Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis”. “Você, Nelson Freire, está entre esses últimos”, concluiu.

Apresentações

A cerimônia contou, ainda, com duas apresentações de piano. Ana Cláudia Rossoni executou o 1º Movimento da Sonatina para Piano, de Edino Krieger, e Gabriel Oliveira interpretou o Estudo Opus 39 Nº 1 em Dó Menor, de Rachmaninoff.

Familiares e comunidade acadêmica acompanharam homenagem no auditório da Reitoria. Foto: Marina Gontijo / UFMG

Familiares e comunidade acadêmica acompanharam homenagem no auditório da Reitoria. Foto: Marina Gontijo / UFMG

Mais Notícias
Gestora do Projeto Arquitetura na Periferia UFMG. 90 anos de histórias
  • 27 abr 2017
  • 0
O site comemorativo dos 90 anos da UFMG está reunindo depoimentos de pessoas cujas trajetórias se cruzaram com a da instituição. A galeria Em primeira...
Estudantes chegam ao prédio da Face, onde funciona o curso de Administração, o melhor do país na área. Foto: Foca Lisboa / UFMG
  • 20 set 2017
  • 0
Estudantes chegam ao prédio da Face, onde funciona o curso de Administração, o melhor do país na área. Foto: Foca Lisboa / UFMG   POR...
Foto: CAD 1 - Arquivo | Diretoria Web
  • 22 jun 2017
  • 0
A UFMG vai sediar, de 25 a 30 de junho, a 18ª Conferência internacional sobre ciência e aplicações de nanotubos e outros materiais de baixa...